OPINIÃO
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Leonardo Boff *

   

PT: voltará o país das alianças?

Marcel Bursztyn, pesquisador, com currículo acadêmico e produção intelectual invejáveis, escreveu um livro elucidador: “O pais das alianças: elites e continuísmo no Brasil” (Vozes, 1990). Mostra convincentemente como as elites são exímias no mimetismo político, quer dizer, sua estratégia é ser sempre governo, pouco importam as contradições internas e ideológicas. Até chegam a argumentar: “é melhor não ser governo durante pequeno período do que se ver forçado a ser oposição no governo seguinte”(p.118). Estamos assistindo a construção de alianças por parte do governo Lula com a intenção justa de garantir a governabilidade que, no fundo, ninguém sabe direito o que ela significa, dada a ausência de um projeto político claro de nação e de tipo de desenvolvimento. Mas alianças numa democracia são necessárias e é correto procurar fazê-las.

O que importa, porém, é manter extrema vigilância sobre elas, pois sabemos que foram somente boas para as elites e nunca para o povo. O baralho é sempre o mesmo, apenas mudam as formas de embaralhar as cartas. Vale dizer: a natureza do poder não muda, apenas trocam-se estilos e posições. É a razão principal por que não se faz a reforma agrária e se preferem os assentamentos. A reforma agrária supõe a transformação institucionalizada da estrutura de produção, enquanto o assentamento a mantém intocável.

As elites e oligarquias que se escondem por trás dos principais partidos, especialmente da mídia empresarial, não gostam de Lula. Ele não é da classe deles, ocupa um lugar que nunca pertenceu à gente das classes populares. Ademais não é totalmente confiável. Pode, de repente, mudar porque as raízes de sua origem social começam a falar mais alto e a querer um outro baralho. Mas como ganhou, por instinto mimético, as elites se aproximam dele e tentam digeri-lo com não poucas dores de barriga. Elas têm a seu favor a lógica do sistema imperante que pauta a política a partir da economia, dispõem de lobbies poderosos e pressionam diretamente o Presidente e até procuram de muitas formas cooptá-lo.

O que garante um mínimo de sanidade política às alianças para que sejam boas para o conjunto do pais? É a agregação de um terceiro ausente: os movimentos sociais organizados e a sociedade civil em geral. Afora no populismo, nunca houve uma relação direta estado-sociedade civil. Agora ela se faz urgente. Lula tem que convocar e entreter uma relação orgânica e permanente com os movimentos sociais, de onde veio e que, a bem da verdade, lhe garantiram a reeleição. Eles não podem esperar o convite. Tem que exigi-lo. Não podem aguardar as políticas públicas feitas pela aliança com os partidos. Eles têm que pautá-las, com forte pressão, a favor das grandes maiorias. Sem isso o governo perderá seu caráter popular e emancipatório. Ficará refém da lógica das alianças que sempre manejaram o estado em seu benefício.

Os movimentos sociais elevaram as massas, cujo potencial humano foi sempre desprezado, a cidadãos conscientes que lutam por um outro tipo de Brasil. Depositário das esperanças e da chance de um outro futuro para o Brasil é o povo e não as elites.

Se Lula não entender esse fato, o segundo mandato será um desperdício histórico imperdoável. O que nos interessa não é o PT nem Lula mas sim o povo brasileiro que através deles poderá dar um salto de qualidade rumo a melhores dias.

* Teólogo

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de novembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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