| ESPECIAL | |
| ENTREVISTA | |
“O PT local tem muito a ensinar ao país, principalmente aos aloprados de São Paulo” Diretor da CUT diz que entidade vê governo do Acre como modelo a ser exportado para o país e defende que em 2010 o candidato petista à Presidência seja acreano |
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Diretor executivo e Coordenador da Comissão Nacional de Meio Ambiente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), além de secretário executivo do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento Sustentável (FBOMS), Temístocles Marcelos Neto veio ao Acre para participar das atividades da “Semana Chico Mendes”, que se encerrou ontem. Com a autoridade de dirigente da maior central sindical da América Latina e com 23 anos participando dos movimentos de questionamento e de luta contra o autoritarismo e pela democracia e cidadania, o dirigente revelou que a CUT também integra a lista cada vez mais abrangente de pessoas, organizações e instituições que vêem o Acre dos últimos oito anos com muita simpatia. Referência dos principais debates em pauta no cenário político, econômico e social do país, sempre denunciando e batendo de frente com governos, sejam municipais, estadual ou federal, é de alguma forma surpreendente que uma entidade com esse perfil se defina como aliada e admiradora de um governante. Mais surpreendente que faça isso sem que seus dirigentes temam a pecha de pelegos. No caso do governador Jorge Viana, segundo o dirigente, a CUT não só aplaude sua administração como sugere que sua forma de governar seja exportada para outros Estados e, quem sabe, até para o governo central. A relação do PT do Acre com a sociedade também deveria ser exportada, para evitar, por exemplo, ações como a dos “aloprados” de São Paulo, destaca o dirigente da CUT, a central que funciona como uma espécie de irmã siamesa do petismo. Para exportar tantas ações, de acordo com o dirigente cutista, começa a ser criada uma expectativa inimaginável para o Acre: o oferecimento de uma candidatura do PT do Acre à Presidência da República, em 2010. É sobre e outros assuntos, como a defesa da ministra Marina Silva, que o dirigente fala na seguinte entrevista: Ao que tudo indica, o Acre e o seu governo vivem uma espécie de lua-de-mel com a opinião pública nacional. Qual é a avaliação que a CUT faz do governo do Acre? Temístocles Marcelos Neto - A CUT e os movimentos sociais se sentem parte desse processo porque temos vinculações muito fortes com o que vem acontecendo aqui nos últimos oito anos. Sentimos-nos parte dessa transformação e não só de agora, no governo. Isso vem desde os tempos em que o PT chegou à Prefeitura de Rio Branco, em 1992. Sentimos-nos parte disso porque os antecedentes dessa transformação no Acre têm como atores o Chico Mendes e a Marina Silva, que foram da direção nacional e estadual da CUT. Já na época da prefeitura, quando o então prefeito Jorge Viana imprimiu um ritmo novo de administrar, nós tivemos uma expectativa muito grande em relação a mudanças para um novo jeito de governar com os quais a CUT está plenamente de acordo. O senhor poderia citar um exemplo? TMN – Penso que o Canal da Maternidade é um bom exemplo. O que o Jorge Viana fez aqui em relação àquela obra deve ser exportado, inclusive para o plano nacional, porque foi algo interessante. Uma dos princípios daquela obra e das que viriam a ser feitas em seguida era evitar o monopólio dos recursos nas mãos de uma única construtora. Isso permitiu a participação de empresas locais. O governo do Jorge Viana tem essas características de desenvolvimento que são desejáveis pela CUT para o desenvolvimento brasileiro, com a valorização das empresas locais, da universidade, da comunidade e do chamado mercado local. Essas características do Acre, na opinião da CUT, deveriam ser exportadas para São Paulo e o restante do Brasil. A forma de fazer política aqui, inclusive no âmbito partidário, são muito mais saudáveis e fraternas do que eixo Rio-São Paulo e Brasília. Nós vemos o Acre como uma escola de governo e de política que produz lideranças para a política nacional - como o próprio Jorge Viana, o senador Tião Viana, o Sibá Machado, o prefeito Raimundo Angelim. A prefeitura de Rio Branco, na nossa avaliação, tem valores da gestão do Executivo diferentes daquilo que a gente conhece comumente. Cite outro exemplo, então TMN - O prefeito Raimundo Angelim foi um dos poucos prefeitos do país que conseguiu fechar o ano fazendo uma reunião para todos os funcionários, sem exceção, e agradecê-los pelo sucesso obtido. Uma administração sem greve, sem enfrentamentos. Em nossa opinião isso é mais que simbólico, é a sinalização de um conceito diferente em que não se separam os endinheirados dos despossuídos. Essa postura da CUT tão simpática ao governo do Estado e da prefeitura não os deixaria, enquanto central sindical, atrelados? Vocês da CUT e dos sindicatos filiados não temeriam – como, aliás, até já o foram - ser acusados de peleguismo pela defesa desses governos? TMN - Um dos princípios da CUT é a autonomia, aqui no Acre como em nível nacional. Isso, para nós, é inegociável. Mas isso também não faz com que a CUT não tenha lado. Nós temos lado, sim - mesmo com o princípio da autonomia não nos exime de ter lado. No plano nacional, na última eleição, ficamos do lado do presidente Lula. No plano estadual, ficamos ao lado do governador Binho Marques. Isso sem prejuízo da nossa autonomia política, organizativa e financeira. Não temos receio de ser acusados de pelegos porque reconhecemos as profundas mudanças que estão sendo gestadas no Estado que beneficiam nossa base social, seja na área de educação, da cultura, da moradia e em todos os campos da administração pública. E quem é a base social da CUT? TMN - São os trabalhadores da área de serviços, os rurais, os urbanos - os trabalhadores de um modo geral. E não temos dúvidas de que as ações do atual governo do Acre contemplam a maioria dos trabalhadores. Como a CUT integra o chamado campo democrático e popular, não temos receio de ser acusados por setores conservadores. Quem nos acusa de peleguismo pela defesa que fazemos do governo do Acre são os setores conservadores e reacionários que têm seus interesses ameaçados ou não atendidos. O que leva a CUT a fazer uma defesa tão arraigada de um governo como o do Acre? TMN - O conjunto da obra, que, no nosso entendimento, vai de Chico Mendes, passa por Marina Silva, Jorge Viana, Tião Viana, Sibá Machado até a qualidade de parlamentares e dos dirigentes estaduais da CUT e de lideranças dos movimentos sociais como Júlia Feitosa, Manuel Lima e tantos outros. Em que momento o governo do Acre, um Estado pequeno, isolado e distante, chamou a atenção de uma central sindical do tamanho da CUT ? TMN - O que fez com que a gente despertasse para a importância da consolidação do que estava acontecendo aqui foi quando o governador conseguiu articular o Estado e a sociedade contra o crime organizado. Aquilo foi um momento decisivo. Como o governo e a sociedade ganharam aquela batalha foi algo que chamou a atenção não só da CUT, mas de todos os setores organizados da vida nacional. Percebemos que aqui foram lançadas as condições para o desenvolvimento mais acelerado e sempre almejado pela CUT tanto na área urbana como na organização dos trabalhadores rurais. E qual a expectativa da CUT em relação ao governo Binho Marques? TMN – A melhor possível. Nossa expectativa é de que ele aprofunde ainda mais as mudanças propostas por Jorge Viana. Nutrimos essa expectativa porque a eleição do Binho, no nosso entendimento, deu-se graças àqueles enfrentamentos a que me referi. O crime e os criminosos estavam de um lado e as pessoas de bem, de outro. O Acre viveu uma época de conflito real e se saiu muito bem. Todo esse aprendizado faz com que a CUT tenha uma visão e um carinho muito especiais com a história que está sendo construída no Acre. Pessoalmente, acho que o PT do Acre tem muito a ensinar aos petistas do resto do país, especialmente aos “aloprados” de São Paulo. O senhor tocou num assunto sobre o qual o governador Jorge Viana costuma reclamar. Ele diz que o PT de São Paulo e o da Esplanada dos Ministérios dá muito mais trabalho ao governo e ao presidente Lula do que a própria oposição. O senhor concorda com isso? TMN - Pessoalmente - e aí não mais falando pela CUT porque não discutimos isso - concordo plenamente com o governador. E digo mais: acho que há um afastamento muito grande entre o grupo diretivo e sua base social. As instâncias do partido não têm sido ouvidas e consideradas na hora de tomar decisões. Os mecanismos têm que ser aperfeiçoados. E como a CUT vem reagindo ao saber que uma de suas ex-dirigentes, como a ministra Marina Silva, vem sendo “fritada”, inclusive por pessoas de seu próprio partido? TMN - Acompanhamos tudo isso com preocupação e entendemos que é fundamental identificar quais são os setores interessados na “fritura” da ministra Marina. São setores do próprio governo que a CUT apóia? Estou enganado? TMN – São de fato setores fortemente vinculados a interesses de empreiteiros, barrageiros, capital internacional e setores do governo. Que atendem pelo nome de Dilma Rousseff ? TMN... Que atendem pelo nome de Dilma Rousseff... Mas a CUT não apóia o governo do presidente Lula? Não é contradição apoiar e ao mesmo tempo criticar esse mesmo governo por permitir que esses “setores” ainda detenham nacos de poder na República? TMN - Não há contradição. O PT do Acre e o do Rio Grande do Sul chegaram ao poder antes do Lula. Não é por acaso então que os governos petistas desses dois Estados tenham uma natureza bem diferente do governo petista central da atualidade. Esses setores atrasados ainda resistem num governo como o Lula porque o governo petista no âmbito federal é diferente da natureza do governo petista do Acre e do que foi no Rio Grande do Sul, que são claramente democráticos e populares. Aqui no Acre, no primeiro mandato do Jorge Viana, mesmo o PT tendo uma aliança com o PSDB, que era uma aliança pontual, o governo não perdeu essa característica democrática e popular. Mas nós também compreendemos que, pela necessidade da governabilidade, sejam necessárias concessões ao agronegócio, aos barrajeiros, como está acontecendo agora com a construção das usinas do Madeira e do Belo Monte, em Rondônia. A CUT é contra a construção dessas usinas? TMN - A CUT eu não sei, porque não tomamos uma posição sobre isso. Eu, particularmente, sou contra. O senhor então acaba de bater de frente com as idéias do governador Jorge Viana, que é defensor e articulador das obras... Por que o senhor é contra? TMN – Porque compreendo que são obras feitas apenas para atender os interesses das empreiteiras e do capital internacional. São empresas cujo principal objetivo é produzir energia não para o desenvolvimento brasileiro, mas para a produção de minério, metal e outros produtos eletrointensivos, aqueles que gastam muita energia para fazer alumínio, que têm um só destino: a exportação, principalmente para o Japão e para a Europa. Falando como indivíduo, não seria contra a construção dessas usinas se fosse para gerar energia destinada ao consumo nacional para os milhões de brasileiros sem a acesso a energia. Mas esta é uma ação de oferta de energia para a indústria predatória, a indústria de exportação. Ao exportar minério, alumínio, bauxita, junto com ela exportam-se solo, água e energia para os países industrializados. É por isso que a as idéias da ministra Marina Silva e da ministra Dilma Rousseff estão em oposição, uma defendendo os interesses da sociedade brasileira e a outra, a ministra Dilma, defendendo o capital internacional e interesses da família Sarney, que domina, há anos, o setor de energia do país. Mas o senador José Sarney não é um dos mais fiéis aliados do presidente Lula? TMN – É, nós reconhecemos. Mas reconhecemos também que ele faz política e negócios. A área do setor elétrico e de energia do país está sob controle do Sarney há anos. Quem é o atual ministro das Minas e Energia do país? Silas Rendeau, indicado por Sarney, com a aquiescência da ministra Dilma Rousseff. O ex-presidente da Eletrobrás nos primeiros anos do governo Lula, Luiz Pigueli Rosas, tentou renegociar os contratos do setor de energia que operam no Norte e não conseguiu. Ele foi exonerado porque bateu de frente com esses interesses do grupo Sarney. Penso que a discussão é essa: o país tem necessidade de construção dessas usinas? Vão beneficiar quem? No nosso entendimento, beneficiam apenas o grupo Sarney, pelas relações, de negócios inclusive, que eles têm com a Aberas (Alumínio Brasileiro) e a Alcooa, empresas de exportação com vinculações com o capital internacional. Não é contraditório declarar apoio ao governo, como o do Acre, e ao mesmo tempo criticar uma das suas ações, como a articulação em torno da construção dessas usinas? TMN - Não vejo contradição porque isso é um projeto nacional e está em debate. O importante é a democratização do debate do desenvolvimento. E isso o Jorge Viana conseguiu fazer no Acre e espero que consiga realmente democratizar o debate em relação à construção desses complexos. É importante que o governo brasileiro democratize o debate do desenvolvimento. Há que se perguntar à sociedade, à universidade, aos amplos setores dos movimentos sociais sobre a necessidade de construção desses complexos. Em relação ao governador Jorge Viana, nós temos muita expectativa em função de sua coerência política. Veja que, nas eleições passadas, no Amapá, ele apoiou e subiu no palanque do candidato João Alberto Capiberibe, enquanto o governo do presidente Lula apoiava outro candidato, o que foi vitorioso (Waldez Góes, do PDT). O Lula até mandou um de seus ministros lá, mas o Jorge Viana preferiu a coerência de apoiar um candidato mais identificado com esse estilo de governo que vem sendo feito aqui e que defendemos como sendo o ideal e aquilo a que a CUT aspira. Outro exemplo: no Maranhão, o presidente Lula apoiou declaradamente a filha do senador Sarney, Roseana Sarney, mas a maquina partidária que o Lula construiu nos anos 80 apoiou outra candidatura, de Jacson Lago, que foi vitoriosa. Isso é a democracia. É por isso, pela forma de governar voltado para a gestão democrática e popular, que torcemos para que o Partido dos Trabalhadores do Acre, em 2010, possa oferecer uma candidatura à Presidência da República. Esse é o nosso sonho. |
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| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
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