OPINIÃO
   CRÔNICA

Stella Galvão

 

Vida de Papai Noel

No shopping center, eles reinam durante dezembro inteiro. Com o aumento do furor consumista, têm embarcado mais cedo na nave natalina. Ficam lá, alguns realmente barbudos, outros improvisando uma faixa branca sob o queixo, um incômodo quente. A roupa inapelavelmente vermelha, o cinto apertado, as botas pretas asfixiando os pés inchados, o sorriso congelado no rosto já cansado. Mas é lindo de ver as crianças seguindo o roteiro de época. “Vai, filhinho, fala pro Papai Noel o que você quer ganhar”, gritam os pais, protegidos pela certeza de que aquela fantasia agora se encerra ali. Nenhum pai ali se disporia a envergar a roupa vermelha e adentrar o apartamento por uma chaminé inexistente. E a coisa prossegue, com as mesmas perguntas: “Você foi uma boa menina, tirou boas notas, comportou-se bem?” A fala de um Papai Noel de shopping, afinal, não pode resvalar no improviso, como aconteceu com aquele rapidamente demitido que não resistiu ao desabafo, vociferando: “ô sua monstrinha, larga logo minha barba e desaparece”.

Não era mesmo fácil. O expediente começava ali pelo meio da tarde e só encerrava depois que o último capetinha dobrava a esquina da loja em frente ao elevador. Aí, se ouvia um longo suspiro: só faltam 2 dias! Com a proximidade do dia D, a histeria aumentava, as crianças nervosas e exigentes, os pais esbaforidos, o fotógrafo abusado querendo faturar rápido a féria do dia. Sim, porque o pai e mãe que não aceitassem o pedágio da foto com o Papai Noel eram indelicadamente convidados a se retirar para dar lugar ao próximo curumim. Um estresse!

Oswaldo era um bom velhinho com estrada. A aposentadoria curta, as contas pendentes e os filhos que foram ficando em casa, só fazendo um bico ou outro, forçavam o sexagenário a bater cartão todo Natal. Ele ainda se comovia com uma criança mais delicada, outra crédula, uma terceira agradecida pelas balas. Lamentava apenas que o time das rabugentas e mal educadas aumentasse ano a ano. Era constrangedora a cena. Elas iam para o sacrifício do colo do idoso desconhecido por imposição dos parentes. “Ah, Natal sem foto com Papai Noel tem graça?”, forçou uma mãe. Uma luta para o menino sorrir. Alguns saíam emburrados mesmo. O retratinho era um troféu, quem sabe de qual competição..

Se havia uma coisa que deixava Oswaldo aliviado era saber que ali, no ar condicionado da central de compras, ele parecia estar a salvo de emoções fortes. No ano anterior, arriscou-se em sua missão mais digna de nota. Contratado por uma associação de moradores para distribuir presentes para mil crianças, ele quase infartou quando o helicóptero foi baleado quando acenava do alto. Sua missão era desembarcar em grande estilo, cercado por criancinhas ávidas pelos mimos. Com o quase abate da aeronave, o veterano assistiu o piloto voltar à base.Coube-lhe escalar o morro, felizmente aliviado do saco de presentes. Jurou nunca mais encarar aquele batente aéreo, por maior que fosse o pagamento. Recobrou-se com um copo de guaraná e a atenção de um menino magrinho e de olhos vivos. “Ainda bem que você veio, Papai Noel, eu te esperei o ano inteiro”. Nem precisou ser mandado e já sentou no colo, acariciando a barba farta do noel de ocasião. Valeu a pena subir, pensou Oswaldo, repentinamente emocionado no exercício daquela função como nunca antes, nem em shopping algum.

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de dezembro de 2007
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