OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

1882-2007 (III)

Hoje é publicada a terceira e última parte da história de Rio Branco, tendo como foco principal a ocupação do espaço e a configuração urbana que foi construída nos últimos 125 anos

3º Período – 1941 / 1970 – Colônias/bairros: uma cidade em expansão - A Segunda Guerra Mundial trouxe não só novas esperanças para a decadente economia extrativista como um novo alento para a sociedade acreana através dos milhares de imigrantes nordestinos que voltaram a vir para o Acre. Especialmente a partir de 1942 com o início da Batalha da Borracha os seringais reiniciaram sua produção, o comércio voltou a prosperar e as cidades acreanas ficaram muito mais agitadas.

No antigo bairro Quinze a já falida Usina de Castanha se tornou alojamento dos soldados da borracha em transito para os seringais, na rua 17 de novembro (ou Bairro Beirute, atual Rua Eduardo Assmar) muitos comerciantes sírio-libaneses haviam enriquecido e se tornado seringalistas e no Palácio Rio Branco os planos governamentais voltaram a ser grandiosos.

E foi sob esse novo panorama que o Governador Oscar Passos efetivou em 1942 a compra das terras remanescentes do antigo Seringal Empreza para a implantação de novas colônias agrícolas no entorno da cidade. Entretanto, até 1945 todos os esforços estavam firmemente direcionados para os seringais e pouca atenção e recursos sobravam paras cidades acreanas. Por isso, o novo plano de colonização organizado pelo Engenheiro Pimentel Gomes teve que esperar um momento mais propicio para sua efetiva implementação, ficando restrito a apenas duas colônias instaladas em 1943: São Francisco e Apolônio Sales, sendo que a segunda ficou por alguns anos ainda abandonada.

Só com o fim da Batalha da Borracha e o principio do Governo Guiomard Santos, em 1946, teve início a implantação das diversas colônias agrícolas em terras do antigo Seringal Empreza, num processo que se estendeu durante toda a década de 50. Mas não só. Nesse mesmo período uma parte das terras do Seringal Empreza ao norte da atual Avenida Ceará foi definida como “Zona Ampliada” e dividida em lotes para o futuro crescimento da área urbana da cidade.

Cabe ressaltar que com isso o governo do Território Federal do Acre tentava estancar a partida de trabalhadores com o fim da Batalha da Borracha e o retorno à crise do extrativismo. Para tanto em diversas colônias agrícolas foi instalada uma infra-estrutura mínima para dar suporte aos colonos e suas famílias, tais como escolas, núcleos mecanizados para beneficiamento da produção e postos de saúde.

Guiomard Santos foi responsável também por um grande programa de obras publicas que alterou mais uma vez a paisagem de Rio Branco, bem como de outras cidades acreanas. O Aeroporto Salgado Filho (Aeroporto Velho), a Maternidade Bárbara Heliodora, o colégio Eurico Dutra, foram algumas das novas construções de Guiomard Santos, além da conclusão das obras do Palácio Rio Branco e da reforma do prédio da antiga penitenciaria que foi transformado no Hotel Chuí.

A isso tudo se somava ainda a implantação de infra-estrutura voltada para a produção, como a Cerâmica oficial que produzia telhas, tijolos e pisos para a construção civil, a Estação Experimental que produzia mudas e repassava técnicas de cultivo, o Aviário que produzia e distribuía aves, suínos e até abelhas para os colonos.

Com isso, o governo Guiomard Santos transformou Rio Branco muito mais profundamente do que Gabino Besouro e Hugo Carneiro haviam conseguido anteriormente. Dois outros elementos, aparentemente menores e secundários, são simbólicos para esta abordagem da história da cidade. Foi na gestão de Guiomard Santos que foram erigidas a Fonte Luminosa e o Ipase, o primeiro conjunto residencial da cidade. Estes dois elementos passaram a ser marcantes para a história de Rio Branco por diferentes motivos. O primeiro porque desde então povoou a mente e os corações de todos os riobranquenses cujas infâncias, mocidades e velhices estão repletos do encanto proporcionado por suas águas coloridas. Enquanto que o segundo deu origem a um modelo de intervenção urbana pelo poder público através da construção de conjuntos residenciais que parece ter sido muito importante daí por diante.

Foi nesse período, portanto, que Rio Branco alcançou algumas das principais características que viria a desenvolver em décadas posteriores. Os equipamentos instalados pelo governo territorial e as colônias agrícolas serviram como novos pontos de atração e fixação urbana. A Cerâmica, o Aviário, a Estação Experimental, o Aeroporto Velho, a colônia São Francisco, a Fazenda Sobral, a colônia Apolônio Sales, entre outros, deram origem a alguns dos atuais bairros da cidade, revelando boa parte dos fluxos e processos sociais a que a cidade esteve submetida desde então. Ao mesmo tempo em que deixam claros os motivos que levaram o 2º distrito da cidade a finalmente ser superado em importância pelo 1º distrito em relação à vida orgânica da cidade.


Hotel Chuí (antiga penitenciária), atualmente prédio da Prefeitura de Rio Branco

4º Período – 1970 / 1998 – Invasões/bairros: uma cidade em explosão - No principio dos anos 70 a conjugação da infinita crise do extrativismo da borracha e dos anos de chumbo da Ditadura Militar teve efeito devastador sobre o Acre e suas cidades. O governo Vanderlei Dantas decidido a modificar o eixo de desenvolvimento econômico regional estimulou a vinda de grandes empresas, fazendeiros e especuladores de terras para o Acre, em sintonia com a nova política proposta pelo regime militar. Os seringalistas falidos e sem crédito não tiveram como resistir e acabaram vendendo enormes seringais por preços muito baixos. Em poucos anos um terço de todas as terras acreanas mudaram de mãos.

Os novos donos da terra, conhecidos regionalmente como “paulistas”, faziam parte da frente de expansão da fronteira agrícola que atingiu os estados do centro-oeste antes de atingir Rondônia e Acre através do programa Polonoroeste e que previa, entre outras coisas, a abertura da BR-364. Esta frente foi composta não só por fazendeiros e grandes empresas, mas também por grileiros de terras, madeireiros e por trabalhadores rurais do sul do país.

Ao atingir o Acre essa frente de expansão causou uma verdadeira implosão da estrutura social acreana na área florestal. O desmatamento promovido pelas madeireiras e a transformação dos seringais em fazendas levaram ao êxodo milhares de famílias que há décadas habitavam a floresta, dela dependendo para obter o seu sustento. Esse novo fluxo migratório campo-cidade promoveu uma verdadeira explosão das cidades acreanas, em especial de Rio Branco que por sua condição de capital atraia a maioria dos seringueiros, castanheiros e ribeirinhos expulsos de suas colocações em todo o estado do Acre.

Teve início então a pratica das “invasões”, nome regional usado para designar terrenos públicos ou privados que eram invadidos por trabalhadores para construção de moradias, dando origem a novos bairros populares sem nenhuma infra-estrutura básica. Mesmo as tentativas oficiais de reverter a política de atração dos investidores “paulistas” para o Acre se revelaram insuficientes para deter o processo de migração do campo e o inchamento das cidades. Mesmo as políticas de habitação popular implementadas nos anos 70 a 90 parecem não ter resultado em benefícios concretos para os segmentos sociais que não possuíam profissão definida e nem renda assegurada, mas atenderam, sobretudo, as camadas médias da população.

É necessário, entretanto, chamar atenção para o fato de que tanto o fenômeno das “invasões”, quanto as conseqüências das políticas publicas de habitação implementadas neste período precisam ser melhor estudadas para esclarecer sua importância na formação da cidade.

Por outro lado duas características desse período, no que se refere à formação urbana da cidade, parecem bastante claras. A primeira é que apesar da “invasão” se constituir como um novo mecanismo espontâneo e desordenado de abertura de bairros, ele se orientou em linhas gerais pela localização das colônias agrícolas e dos bairros que já estavam em formação. Ou seja, os bairros oriundos de colônias agrícolas ou equipamentos urbanos que surgiram no período anterior continuaram atuando como focos de atração e fixação dos moradores da cidade.

A segunda característica diz respeito ao fato de que muitos dos fenômenos sociais que estavam ocorrendo na área florestal do estado passaram a acontecer também em Rio Branco. É o caso, por exemplo, dos confrontos entre lideranças populares e grileiros de terras como os que levaram ao assassinato de João Eduardo, em 1981,. Parte do mesmo processo que já tinha levado à morte de Wilson Pinheiro, em 1980, e ainda iria levar ao atentado a Chico Mendes, em 1988. Isso tudo deixava claro que o nível de tensão social, tanto nas florestas quanto nas cidades acreanas, era extremamente alto então.

Diante desse contexto não é de estranhar que o quadro geral das cidades acreanas e de Rio Branco, em especial, tenha sido de degradação das condições de vida em todos os setores. Neste período Rio Branco não cresceu, explodiu. Se ao longo de 90 anos de sua história as dinâmicas geradas na cidade tinham dado origem a pouco mais de uma dezena de bairros, entre 1970 e 1999 esse número iria passar de 150 bairros.

Novos bairros originados de invasões desordenadas, sem a mínima infra-estrutura de água, saneamento, luz, acesso, etc. Além de, por vezes, estarem situados em locais alagáveis ou impróprios à habitação, como nas novas áreas ocupadas no 2º Distrito (Cidade Nova, Taquari, Santa Terezinha/Bostal, etc). Ou mesmo por terem sido criados a partir de loteamentos clandestinos e conjuntos residenciais mal projetados e/ou mal implantados. Uma história, enfim, que estabeleceu enormes desafios a serem enfrentados para a recuperação da qualidade de vida dos cidadãos de Rio Branco.


Esplanada do Palácio Rio Branco - década de 50

5º Período – 1999 / 2005 – O início do re-ordenamento urbano - Desde 1999 estão sendo realizadas diversas intervenções na malha urbana de Rio Branco, especialmente nas vias estruturantes, que estão modificando e melhorando os fluxos internos da cidade, bem como o acesso aos bairros mais distantes do centro. Além disso, obras de revitalização do centro mais antigo da cidade e de implantação de equipamentos como o Parque da Maternidade parecem apontar o início de um novo período da história da formação urbana de Rio Branco, o que só poderá se avaliado mais concretamente no futuro.

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de dezembro de 2007
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