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| ALMANACRE | |
| Elson Martins | |
Forças sagradas Marilza de Melo Foucher* Ao vir para Paris junto com outros companheiros e companheiras do Pará, Amazonas e Rio Janeiro fundamos o Comitê Internacional de Defesa e Desenvolvimento da Amazônia, (CIDA) que continua até hoje com seu registro de associação 1901 ( lei que rege as associações sem fins lucrativos na França). Após quase 30 anos, percebo que a vigilância na defesa da Amazônia deve continuar. As atividades do CIDA foram encerradas com a volta da maioria de nossos amigos ao Brasil. Achávamos que havíamos cumprido com nossos objetivos, tendo em vista que a causa da defesa e busca de alternativas para um outro desenvolvimento na Amazônia tinha sido abraçada por muitos, inclusive por Chico Mendes com outras pessoas no Acre que faziam resistência às políticas devastadoras. Os MDAs (Movimento de Defesa da Amazônia) se espalhavam pelo Brasil. Nossos gritos de protestos saíram das fronteiras brasileiras e a Amazônia entrava para a cena internacional. A ECO-92 realizada no Rio de Janeiro (1992) representava um compromisso com as causas que defendíamos. Tudo levava a acreditar que com o processo de democratização do Brasil a questão das políticas desenvolvimentistas para a Amazônia iria mudar. Esperava-se que os governos locais e o governo federal tomariam consciência do enorme patrimônio ecológico e cultural da região e passariam a valorizá-lo optando por um desenvolvimento com visão mais integrada, respeitando a biodiversidade e sócio-diversidade da região. Entretanto, relendo hoje a imprensa internacional e alguns artigos, vejo que depois de tantos anos de combate a agressão aos ecossistemas amazônicos continua. Todavia vale ressaltar e levar em conta inúmeros avanços que deram origem a vários eventos e iniciativas, entre estes a ECO-92 e a criação da agenda 21. Assim como a grande pressão dos movimentos sociais e ongs responsáveis pelo desenvolvimento, junto aos governos democráticos do Brasil, para que a Amazônia constasse em nossa Constituição Federal. Graças a eles hoje ela integra o capítulo 4º do Artigo 225 da Constituição: “A Floresta Amazônica é patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais”. Apesar de certos avanços, ainda é necessário levantar a voz, gritar nos ouvidos das autoridades máximas da nação brasileira representadas nos três níveis (federal, estadual, municipal) para aplicação da Constituição! Chamar atenção para que eles empreendam políticas regionais capazes de parar a lógica da devastação e da destruição do patrimônio eco-cultural. O exemplo mais gritante foi à autorização do plantio da soja na Amazônia por Fernando Henrique Cardoso. Isto foi um grande erro, mas, infelizmente não houve muita mobilização contra o plano. Como controlar o uso da soja transgênica na Amazônia? Que fiscalização existe nesse sentido junto aos agro-business da soja presentes na região? Como delimitar e proibir sua extensão? A mesma coisa para a expansão dos campos de pastos: existem alternativas fora da concepção da ditadura militar que via o progresso amazônico carimbado pelas patas de boi e vaca! Para a defesa de nosso patrimônio ecológico e da diversidade biológica e cultural, teremos que defender e por em prática filosofia do desenvolvimento territorial integrado, solidário e sustentável. Não podemos ter visão setorializada do desenvolvimento, daí o fracasso das políticas desenvolvimentistas que partem sempre do principio econômico. Ao mesmo tempo temos que denunciar os que se apropriam do desenvolvimento sustentável como marketing ecológico sob o controle logicamente de resultados econômicos. Existem associações que atuam nesse sentido na Amazônia, travestidas de ecológicas, que pregam o desenvolvimento sustentável e que estão faturando em cima do “rótulo” com nossas essências florestais que, a meu ver, devem ser também fiscalizadas. Os governos locais e a sociedade civil organizada devem verificar se elas estão fazendo replantio de arvores e se a população regional está sendo beneficiada e educada ao manejo florestal para o uso ecológico da floresta. Urge verificar a contabilidade dessas associações que às vezes se passam como Ongs ambientais sem fins lucrativos. Justamente para que elas não deturpem a imagem de muitas Ongs que atuam na região e agem com uma visão holística do desenvolvimento lutando pela inclusão social das populações amazônicas. Quando se atua com uma visão sistêmica do desenvolvimento não se separa o ecológico do político, do cultural, do social e do econômico. A economia está a serviço do gênero humano que protege a biodiversidade e sociodiversidade. Os ecossistemas fazem parte integrante de nossa existência. Nasci em Boca do Acre, como toda criança amazônica nascida no interior. A floresta é parte integrante de minha vida, carregada de forças sagradas, de mitos que alimentaram meu imaginário infantil. Minha convivência com o verde em todas suas tonalidades imprimiu um estilo de vida e cultura marcada pela esperança e uma forma de liberdade e convivência espontânea com a natureza. Daí meu eterno combate, pois faço parte também das mulheres guerreiras! Minha floresta de convivência, de símbolos, mitos, minha cultura amazônica não pode continuar a ser agredida, destruída sem escrúpulos. Faço um clamor aos movimentos sociais, ao mundo associativo das Ongs comprometidas com o desenvolvimento territorial integrado e sustentável, ao mundo acadêmico da região e em nível nacional, às organizações indígenas, aos partidos políticos comprometidos com a inclusão social e progresso para todos - que não baixem o nível de vigilância na defesa da integridade ecológica da Amazônia. O governo Lula altamente legitimado pelo voto dos povos da floresta, deve dar todas as condições necessárias para a sustentabilidade ecológica, cultural, social, econômica e política da região. Cobrar resultados dos projetos governamentais a curto, médio e longo prazo é um dever nosso no exercício da florestania/cidadania. As reformas não reformam quando os atores do desenvolvimento não estão preparados ao exercício da cidadania. Precisamos denunciar todos os dias, os que continuam agredindo os ecossistemas e as culturas do povo da floresta, vamos continuar propondo alternativas para um desenvolvimento territorial integrado, solidário e sustentável para a Amazônia. *Dra. Em Economia-Sorbonne CORREIO Cabocla da Amazônia Elson: Marilza – Paris (França)
Desculpe a falha! Elson: Vera Olinda – Rio Branco Nota do editor: Já li textos escritos pela Vera, membro da Comissão Pró-Índio do Acre. Acho que ela escreve bem, portanto, poderia ter produzido o release enviado ao Almanacre sem culpas. Convite Caro Elson: Mário Lima (SP) Nota: Segue trecho final do artigo “O último empate”, enviado pelo acreano Mário Lima, doutor em economia e professor da Unicamp (SP): “Nas últimas viagens que fiz ao Acre, a rota estava marcada por uma imensa coluna de fumaça... Não satisfeitos em destruir a minha terra, estão destruindo os sinais da rota até ela. Os eventos desses dias são demonstrativos de como o futuro da Amazônia em nada nos pertence. Talvez ainda nos reste retomar a invenção de Wilson Pinheiro e partir para um último, amplo, gigantesco e desesperado empate”. |
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