OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 


Lambedor

Todos em casa às 18 horas. Minha mãe pedia que todos estivessem em casa às seis horas da tarde. Ligava o rádio, sintonizado na Rádio Difusora Acreana, para ouvirmos a Ave Maria. Era o momento de introspecção. Todos nós tínhamos que pensar sobre o dia e agradecer a Santa Maria. Todas as janelas da casa eram abertas e, depois de um tempo, fechadas. Onde estivéssemos, se não podíamos ir para casa às seis horas no dia de estudos, nas brincadeiras, nos trabalhos e agradecíamos à Virgem Maria por mais um dia. Quando em casa, minha mãe distribuía a cada um colher de lambedor: Xarope preparado com mel, canela e muitas ervas. Era fortificante o lambedor. Ficava matutando sobre o tal lambedor horas a fio. Lambe a dor.

Minha mãe gostava de reunir os filhos e os sobrinhos para brincar com as palavras. A cada hora inventava uma brincadeira. Dizia que era para pronunciarmos as palavras com significados de vida e de mundo.

Minha mãe distribuía limão para nós. Um limão para cada um. Vamos rolar o limão em nossas mãos, mandava ela: observem a pele do limão, sintam a textura, passeiem com os dedos em volta do limão; pousem a vista sobre o limão, olhem os verdes, os amarelos, vejam as cores, o formato, as formas, a pontinha aguda; agora, cocem o limão com as unhas, façam cafuné no limão e cheirem, que perfume! Que aroma! Que cheiro! Cortava nossos limões e os espremia em nossas línguas.

Chamava a atenção para as nossas bocas cheias d’água e dizia que tínhamos virado fontes, vertentes, brotávamos água pela boca. É o paladar, dizia minha mãe adoçando a limonada, que tomávamos pronunciando a palavra “limão”. E cantávamos juntos várias cantigas de limão:

Meu, limão, meu limoeiro
meu pé de jacarandá
uma vez skindô-lê-lê
outra vez skindô-lá-lá.

Criávamos quadrinhas de versos sobre o limão para dizer entre as cantorias.

Ó limão
Ó limão, que entra na roda
Roda de mão em mão, ó limão

Ele foi, ele veio
Ele aqui não chegou
Lá no meio do caminho
A princesa tomou

Por que choras, Mane?
Não chora não
Chora porque não veio o limão

Ele foi, ele veio
Ele aqui não chegou
Lá no meio do caminho
A princesa tomou
Ah!

Tempos depois, lendo Paulo Freire, compreendi um pouco aquelas brincadeiras de minha mãe. Especialmente quando li o livro “A Importância do Ato de Ler”, em que Paulo Freire diz que a palavra precisa estar grávida de sentidos de mundo. Também pesquisando no acervo do maestro Villa Lobos encontrei o registro das cantigas populares sobre o limão.

Minha mãe brincava de engravidar as palavras de sentidos, de significados de mundo. Durante as oficinas de leitura na Casa de Leitura da Gameleira, sugiro brincadeiras com as palavras, cada um traz uma idéia. E eu, sou claro, brinco, distribuindo limões para todos, e, como minha mãe fazia, vamos descobrindo o limão sensorialmente e formando repertório de limão com remédios , chás, cremes, caipirinhas, limonadas, pavês, suflês, bolos, tortas, licores, doces, histórias de queimaduras, simpatias, limoeiros, espinhos, azedos e vertemos água, muita água, uma fonte, um chafariz. E muitos, ainda hoje, gostam de ouvir a música da Ave Maria. As Ave-Marias. E trabalhamos, brincamos com a Gestalt das palavras. Outro dia, durante uma oficina na Casa da Leitura, trouxeram-me um lambedor. Bom pra danar – de lamber a dor. Verte-la. Li a mão.

 

 
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Rio Branco-AC, 24 de abril de 2005
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