COTIDIANO

Trabalho escravo
no sul de Lábrea

Sete braçais de Rio Branco tinham sido levados à região para ajudar no desmate de fazenda

 

RENATA BRASILEIRO

O Ministério do Trabalho confirmou na manhã de ontem que os braçais que trabalhavam na atividade de desmate no sul de Lábrea estavam em condições de escravidão.

O órgão chegou ao local há duas semanas junto com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com a Polícia Federal e Polícia Militar do Amazonas em uma operação contínua que é feita na região há mais de um ano, em razão dos freqüentes desmates registrados.

O chefe da inspeção do trabalho, Francisco Rebouças, que participou da operação, disse que sete dos trabalhadores encontrados no meio da mata são de Rio Branco, sendo que cinco deles moram no bairro Belo Jardim.
Após encontrar os trabalhadores, o Ministério do Trabalho tomou a providência de resgatá-los do ambiente em que exerciam seus trabalhos para orientá-los quanto a direitos trabalhistas, bem como explicar-lhes que o tipo de atividade exercida por eles era clandestina, portanto, ilegal.

“O nosso trabalho é de prevenção. O que queremos é que as pessoas tenham seus direitos respeitados e não sejam enganadas por patrões, com promessas que nunca vão ser cumpridas”, disse Rebouças.

Segundo ele, o trabalho foi considerado escravo pelo órgão pelas seguintes razões: os trabalhadores tinham o direito de ir e vir restringido, uma vez que foram abandonados no meio da mata e só seriam resgatados após concluírem o serviço; dormiam em redes atadas nas árvores, sob lonas, o que não lhes protegiam de ataques de animais, chuvas e outras adversidades; não possuíam itens de primeiro socorro e caso sofressem algum acidente estariam impossibilitados de serem atendidos; não tinham acesso à água potável, e por fim, alguns deles sequer receberam o salário prometido.

“Dos sete, quatro receberam adiantamento de R$ 200, um recebeu R$ 400 e os outros não receberam nada. O que recebeu R$ 400 teve a função de aliciar trabalhadores para levar até a região, por isso ganhou mais”, completou.

Ainda de acordo com o chefe da inspeção do trabalho, um óbito foi registrado em janeiro na mesma região em que os acreanos estavam trabalhando. A vítima trabalhava na construção de uma embarcação para transportar gasolina, motos serras e outras parafernálias utilizadas no desmate quando foi picada por uma cobra e não teve como ser socorrida, em razão do difícil acesso e também pela falta de medicamentos.

Com a descoberta destes escravos no sul de Lábrea, o Ministério do Trabalho continua atuando na região para evitar que outros trabalhadores sejam aliciados. Pelo que foi apurado, a previsão era de que o mandante da ação ilegal precisasse contratar mais 80 pessoas.

A operação executada em conjunto com os órgãos apreendeu oito mil litros de gasolina, duas toneladas de alimentos, mil litros de óleo queimado, 40 caixas de correntes para moto-serra e uma voadeira. Foi comprovado pela equipe que trabalhou na missão que a parafernália tinha a finalidade de desmatar a região, e pela estimativa feita pelo Ibama, cinco mil hectares de floresta seriam derrubados naquela região em poucos dias, caso o esquema não fosse descoberto a tempo. A Polícia Federal busca descobrir agora quem são os mandantes do desmatamento. A suspeita é de que seja um grupo de empresários acreanos.

 

 
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Rio Branco-AC, 24 de abril de 2008
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