OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

A Pré-história Acreana IX
(O caso dos sítios geométricos)

No vale do rio Acre, entre Rio Branco e Xapuri, existe um lugar conhecido como “Campos Esperança” que reunia diversos campos naturais ocupados por povos pré-históricos e intensamente utilizados pelos seringais do século XIX até períodos bem recentes. Nos artigos anteriores vimos que este “Campo da Natureza”, como é chamado no Acre, não é um caso isolado na medida em que a história nos legou informações acerca de pelo menos mais dois desses campos entranhados no meio da densa floresta amazônica: o Puciary e o Tyrene, no sul do Amazonas. O que a ciência tem a dizer sobre esses “Campos da Natureza” é o que começaremos a ver hoje.

Os “Campos da Natureza” (III)

Desde as primeiras pesquisas arqueológicas realizadas no Acre, em 1977, que Ondemar Dias percebeu a coincidência da área de ocorrência de alguns sítios com estruturas de terra (que ultimamente vem sendo denominados como “geoglífos”) com os Campos Esperança. A partir daí, Ondemar sugeriu que esses campos pudessem estar relacionados não só à presença de grupos pré-históricos na região, mas também às mudanças climáticas e ambientais que modificaram a paisagem amazônica na passagem do Pleistoceno para o Holoceno. Entretanto, José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho, ao pesquisar e escrever sobre os grupos indígenas antigos do Acre, afirmou que esses campos não eram naturais, mas foram criados e mantidos abertos “artificialmente” por grupos indígenas já desaparecidos do Acre.

A partir dessas informações poderíamos então questionar: teria sido o Acre uma grande savana antes da expansão da floresta e estes “Campos da Natureza” seriam testemunhos (refúgios) da ultima era glacial? Ou, pelo contrário, estes campos resultam do desflorestamento realizado por grupos pré-históricos para a construção das grandes formas geométricas de terra que tanto chamam a atenção nos últimos anos? Infelizmente é preciso reconhecer que até aqui a ciência ainda não se ocupou adequadamente deste importante fenômeno paisagístico da Amazônia sul-ocidental. E embora ainda existam poucas respostas efetivas é possível, a partir dos trabalhos de alguns pioneiros buscarmos algumas possíveis respostas, ainda que de forma hipotética.

A tradição geográfica


O primeiro cientista, depois dos tempos dos viajantes, a mencionar o caso dos “Campos da Natureza” foi o geógrafo Antonio Teixeira Guerra que, no início da década de 50, andou por todo o Território Federal do Acre realizando pesquisas que nos legaram um rico manancial de informações e documentos. Devemos a ele, por exemplo, a primeira sistematização do histórico de formação das principais cidades acreanas, o que me faz sempre repetir, a titulo de reconhecimento e de certo pesar, que até aqui o maior historiador das cidades do Acre foi um “geógrafo”.

Entretanto, suas referencias aos “Campos da Natureza” foram muito restritas e pontuais limitando-se a transcrever o que encontrou no relatório do Departamento de Produção do governo territorial: “A não ser as campinas naturais, que ocorrem nas nascentes dos pequenos formadores do Iquiri, ao sul de Rio Branco, os campos de pastagem surgem nas áreas anteriormente ocupadas por lavouras de subsistência, onde as gramíneas nativas como o papuá concorrem com o capim ‘gengibre’ e o ‘jaraguá’, importados do nordeste brasileiro.” E remete o assunto a um comentário do “Dr. J.M.B. Castelo Branco (que) ao ler o trecho acima, por nós transcrito, teceu o seguinte comentário: Não é o que me informam antigos moradores da região. Esses campos, segundo alguns, originaram-se de vastas roçadas de índios que aí habitaram e foram mantidos pelos civilizados que os substituíram” (Estudo Geográfico do Território do Acre, 1953).

RADAM

Vinte anos depois, quando da realização do Projeto RADAM, o problema dos “Campos da Natureza”, também não foi considerado em sua complexidade e podemos relaciona-lo apenas à classificação genérica “Formações Pioneiras (Comunidades Serais)” da qual é dito que: “Na Folha SC.19 Rio Branco, observaram-se áreas com comunidades edáficas, onde solos Gley Hidromórficos limitaram muito bem um tipo de formação campestre, com elementos graminóides e lenhosos adaptados às condições pantanosas” (Projeto RADAMBRASIL, vol. 12, 1976).

E prossegue detalhando um pouco mais a definição acima. “Estas comunidades situam-se nos baixos divisores de água em depressões fechadas de rebordos ligeiramente mais elevados, que acumulam águas pluviais. Nesta área bastante restrita, os ambientes apresentam uma zonação serial ligada exclusivamente aos solos gleyzados pouco húmicos e às áreas secas, ou pelo menos melhor drenadas. No primeiro ambiente dominam as Ciperaceae e outras plantas geófitas; no segundo as espécies lenhosas xeromórficas providas de xilopódios e palmeiras” (ver figura 1)
Ou seja, segundo o RADAM, ocorrem no Acre situações em que certos divisores de água formam depressões delimitadas por bordas altas que podem dar origem a dois tipos de ambiente distintos. O primeiro se caracterizaria como áreas pantanosas, o que efetivamente não é caso dos Campos Esperança sobre o qual não há informações de ser alagadiço.

Já o segundo tipo seria relacionado às áreas bem drenadas, mas com solos pobres, que teriam então sido ocupadas por vegetações abertas, cuja descrição parece, a primeira vista, coincidir com os relatos dos Apurinã sobre o “Campo da Natureza” da Terra Indígena Kamicuã (Boca do Acre) de que tratamos nos artigos anteriores. Mas não parece combinar com as informações disponíveis para os Campos Esperança que apresentariam uma fertilidade igual a todas as áreas ao seu redor, inclusive àquelas florestadas. Além disso, chama a atenção o fato de que esta descrição ambiental não aparece refletida e claramente identificável nos mapas temáticos que cobrem a área de ocorrência dos Campos Esperança.
De qualquer modo, com essas informações é possível concluir que o RADAM indica uma origem natural para os casos de áreas recobertas por vegetação aberta, sem nenhuma conexão com mudanças climáticas de longa duração, relacionadas apenas às condições topográficas e geológicas de determinadas áreas inter-fluviais.

ZEE

Depois de mais um intervalo de vinte anos, temos para essa região os trabalhos realizados no âmbito do Zoneamento Ecológico e Econômico do Estado do Acre. E novamente não pudemos verificar nenhum estudo especifico sobre o caso dos “Campos da Natureza” no geral e dos Campos Esperança, no particular, apenas classificações mais genéricas que parecem obscurecer os detalhes que nos interessam mais diretamente.
Assim temos no ZEE-Acre a descrição das “Campinaranas” como áreas que “são encontradas no extremos norte dos municípios de Cruzeiro do Sul e Mancio Lima. Esse tipo de vegetação se desenvolve sobre solos arenosos extremamente pobres (oligotróficos), na maioria dos casos hidromórficos, e ricos em ácido húmico. O termo ‘campinarana’ engloba um complexo mosaico de formações não-florestais com sub-bosque de porte baixo e irregularmente aberto, densidade alta de arvores pequenas e finas e escassez de árvores emergentes” (ZEE – 2006).

Novamente, podemos observar que a descrição do ZEE combina com aquela do RADAM e com as informações dos Apurinã sobre o “Campo da Natureza” de Kamicuã. Mas não combina com as informações disponíveis para os Campos Esperança. Em relação à área de ocorrência deste ultimo, cabe ressaltar que nos mapas temáticos do ZEE a vegetação atual é toda relacionada às áreas mais recentemente antropizadas o que pode ter mascarado os resultados desse levantamento.

Podemos concluir, portanto, que apesar dos grandes levantamentos realizados nos últimos anos não nos fornecerem informações diretas a respeito dos “Campos da Natureza”, eles ao menos nos apontam uma outra possível explicação para essas ocorrências, de caráter eminentemente geológico e topográfico. Falta-nos ainda considerar as informações relacionadas às grandes mudanças climáticas dos últimos dez mil anos, assunto da semana que vem.


 

 

 
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Rio Branco-AC, 24 de abril de 2008
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