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| O milagre das letras Seringueiro realiza o sonho de virar professor para levar os companheiros a uma aventura pelo mundo do saber |
![]() Estudo em grupo reforça o aprendizado dos conteúdos exigidos para os professores em treinamento |
O seringueiro José Antônio Maciel, 29 anos, que só pôde ir à escola depois dos 15 anos porque desde os seis cortava borracha ajudando o pai a sustentar a família, acaba de realizar o sonho de sua vida: ser professor. Mais que isso, ele quer ajudar os amigos e vizinhos a vencerem o fantasma do analfabetismo. Ele é um dentre os mais de 200 professores que a partir do dia três de junho estarão trabalhando no Movimento de Alfabetização de Adultos (Mova), do Programa Alfa 100, programa da Secretaria de Estado de Educação financiado pelas empresas Tim e Pirelli em parceria com Brasil Alfabetizado, pertencente à Fundação Banco do Brasil e governo federal. José Antônio mora na Comunidade Maloca Grande, que está localizada no quilômetro 150 da rodovia Transacreana às margens do Riozinho do Rola. “Só Deus sabe a alegria e o medo que senti no primeiro dia que fui à aula. Caminhava com gosto os cinco quilômetros para ir e outros cinco de volta todos os dias para chegar à escola da comunidade Pracaíba, no seringal Recife. Fiz até a quarta série”, lembra. Mundo sem letras Não saber ler nem escrever é coisa normal naquela comunidade isolada onde vivem mais de 50 famílias. Isto porque as escolas mais próximas ficam na comunidade Pracaíba e outra no Seringal Passagem, distanciados um dia de caminhada no lombo de burro, só para ir. “A gente mora lá dentro, tranqüilo, do nosso jeito, mas só entendi mesmo a importância de saber ler e escrever, pelo menos um pouquinho, quando em 97 fomos pegar aquele financiamento do Prodex, liberado apoiar o extrativismo, mas muitos não puderam receber o dinheiro”, relembra antes de esclarecer : “Isso aconteceu porque naquelas famílias não tinha ninguém que soubesse nem assinar o próprio nome. Eles foram prejudicados porque aquele financiamento que nos ajudou muito mesmo. Fiquei muito chateado por causa deles”. Sua tristeza se repetiu agora quando ele próprio não pôde fazer a matrícula de alguns de seus vizinhos para o curso de alfabetização porque nenhum dos membros de suas famílias tem um único documento de identificação. “Três famílias não tem nem mesmo o registro de nascimento, nem nunca vieram à cidade. É uma tristeza. Só numa dessas famílias são cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos”, lamenta ele antes de complementar: “A gente precisa fazer alguma coisa”. A decisão de tornar-se professor veio estimulada pela irmã que já é professora do Mova na comunidade Pracaíba do Seringal Recife, lugar em que José tinha passado parte da sua infância e aprendido a ler. “Desde que fui à escola pela primeira vez tive vontade de ser professor, mas isso era impossível porque onde morava não tinha escola, agora ainda não tem, mas estou tendo a oportunidade de fazer este treinamento e tenho certeza de que vou conseguir ajudar meus companheiros”. Escuridão é ameaça Mesmo com uma sala de 25 alunos para cuidar, José não pretende descansar a cabrita que usa no corte da seringa. “Vou continuar meu trabalho na seringa e no roçado, a gente se esforça, todos nós vamos ter de nos esforçar muito porque ninguém pode deixar de trabalhar. A maior dificuldade que nós vamos ter é a falta de luz elétrica, por isso vamos ter de usar lampiões e candeeiros, o problema é que muitos já tem a vista cansada e eu tenho medo de que eles desistam. Seria bom se a gente conseguisse óculos para eles.” Escola no quintal A dona de casa Samaria Carvalho Pinheiro, 36 anos, mãe de quatro filhos, também está passando pelo treinamento inicial dos professores. Mas no seu caso esse treinamento é rotinha de todo ano porque ela atua como professora do mova, há quatro anos e já atendeu 94 alunos na escola improvisada em um chapéu de palha no quintal de sua própria casa, a qual está localizada no ramal da Judia no bairro Belo Jardim. Para a sala deste ano já estão matriculados 30 educandos, 18 mulheres e 12 homens. Para facilitar o trabalho e atendê-los melhor ela divide os alunos em duas turmas, as mulheres estudam das três às cinco da tarde e os homens das seis às oito da noite. “Muitos são casais que não querem deixar os filhos sozinhos, então a mulher vem à tarde e os homens à noite. Nestes quatro anos venho notando que o resultado do nosso trabalho vem sendo muito bom. Quero que você veja a satisfação deles em mostrar que a vida deles está mudando porque aprenderam a ler e escrever!” Nova identidade O curso tem duração de seis meses, mas é a partir dos quatro meses que se nota os resultados mais significativos entre os alunos e Samaria dá um exemplo disso: “A Deusa, que estudou com a gente no ano passado, tem uns 28 anos e só Deus sabe a alegria dela tinha em começar a ler e escrever. Quando completou quatro meses no curso fui com ela para o Projeto Cidadão que aconteceu no Parque de Exposições a fim de trocar a carteira de identidade onde constava que ela era não alfabetizada”. Quanto à pressa em trocar a identidade, Samaria esclarece: “Isso aconteceu, principalmente, porque ela recebe o bolsa família e assinava com o dedo, mas quando quis assinar o nome, o pessoal não deixou porque era cadastrada como analfabeta. Para ela foi uma satisfação provar que agora não era mais analfabeta”. Segundo Samaria a dedicação e boa vontade dos alunos adultos faz com que aprendam muito rápido, embora haja casos como o do aluno Durval, 58 anos, que está repetindo o Mova pela terceira vez. “Descobrimos que ele tem um problema que dificulta a memorização, ela fica mais lenta, mas ele já progrediu bastante, acho que neste ano vai completar o curso, por isso dedico uma atenção especial a ele”. O analfabetismo é um mal que ainda aterroriza muitos lares.“A maioria deles nunca tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever. Muitos nem tinham percebido isso até que agora quando seus filhos foram alfabetizados eles passaram a sentir que ficaram para trás, a maioria conta histórias de situações difíceis que ficaram por conta de não saber ler ou escrever. A maioria diz que fica triste porque não sabe como ajudar os filhos a resolver os deveres de casa”. Ela resume: “Estas pessoas sabem o que querem porque a vida foi dura com eles. Nós esclarecemos que só é possível aprender a ler lendo e a escrever escrevendo, ou seja, a prática é o principal. O governador Jorge Viana tem apoiado muito este programa que para nós é uma satisfação. Alguns de meus alunos já estão terminando o ensino fundamental pelo Poronga e tem até o que fazem plano para terminar o segundo grau e entrar na faculdade. É um sonho”. Querer saber é saber querer Mais de 57 mil pessoas foram alfabetizados pelo Mova Alfa 100 desde que o programa foi criado, no ano 2000. Só para este ano 20 mil pessoas estão matriculadas. Para atender os estudantes do vale do Acre 200 professores estão participando da IV Capacitação Inicial de Educadores do Programa Alfa 100 que começou no dia 20 de junho e termina nesta sexta-feira, dia 23. “A maioria dos educadores que estão passando por este curso de quatro dias são iniciantes e demonstram uma empolgação muito importante, pois terão de usar muita criatividade e dedicação para ajudar as pessoas a aprenderem a ler e escrever em suas comunidades”, explicou Keila Farias uma das seis pedagogas da coordenação pedagógica do Alfa 100. A renovação anual do número de educadores é um do sinais de sucesso do programa, conforme esclarece Keila. “Começamos nossos trabalhos dentro da cidade, fomos para a periferia e conforme o número de pessoas não alfabetizadas vai diminuindo nós vamos levando este trabalho para comunidades cada vez mais isoladas. Isso torna as ações cada vez mais difíceis e mais gratificantes também, pois sabemos que estamos chegando onde ninguém conseguiu chegar antes de nós”. Na cidade é exigido que o futuro educador tenha o curso do magistério ou, pelo menos, experiência em alfabetização. Já na zona rural é necessário adaptar-se às condições de cada comunidade, por isso são aceitos educadores como o José Antônio que tem apenas o ensino fundamental. Até porque, neste caso, ele é o mais avançado de sua comunidade. Todos recebem treinamento sobre como manusear os livros e abordar os alunos de acordo com cada situação para facilitar o aprendizado. “Cada um trabalha sempre no contexto de vivência da sua comunidade. No próprio livro existem referências até de plantas medicinais mais usadas pela população para combater seus males. É um método de educação voltado para o modo de vida destas pessoas”. O programa utiliza apenas dois livros. O livro do professor, que tem 103 páginas onde estão contidas orientações e sugestões sobre as atividades que podem ser desenvolvidas para facilitar e acelerar o aprendizado dos alunos. Já o Caderno da Florestania é dividido em cinco unidades começando pelo início da alfabetização, a qual, e vai sendo estimulada e reforçada com textos que vão desafiando o educando a aprender mais. Assim, ao mesmo tempo em que aprendem noções sobre saúde, alimentação e cidadania vão exercitando lições de português, matemática e geografia contextualizados dentro da sua realidade. |
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