ESPECIAL
   ENTREVISTA

Vássia Silveira estréia na literatura infantil

Divulgação
Depois do jornalismo, Vássia Silveira decide investir na literatura


Andréa Zílio

Uma garotinha que não entende as atitudes da irmã mais velha - que perto dos pais é implicante, mas longe é dedicada e cuidadosa com ela - porém, com muita observação e esperteza, Olívia encontra respostas para o comportamento de Flavinha. Essa é a história do primeiro livro de Vássia Silveira, que estréia na literatura infantil com “Braboletas e Ciúminsetos”, pela editora Letras Brasileiras.

Nascida em Belém do Pará, foi no Acre que Vássia conheceu o jornalismo, com o pai Elson Martins. Aos dezoito anos foi para o Rio de Janeiro e estudou Letras, mas abandonou o curso para voltar à Amazônia, onde atuou como repórter, redatora e editora de jornais e revistas no Acre e Amapá. Depois de uma temporada em Fortaleza (CE), a jornalista decidiu investir na paixão pela escrita e foi morar em Florianópolis (SC), onde está desde 2006.

Na nova fase, ao lado das filhas Clara e Anaís, Vássia Silveira trabalha na carreira de escritora, com o convite para lançar a primeira obra no Acre e também outra que já está pronta, “Quem tem medo do Mapinguary?”. Além desses, sua produção é generosa e ela prepara novas obras. Em entrevista ao Página 20, ela conta sobre seu trabalho.

Você estréia na literatura infantil com esta obra, e outras já estão prontas para serem lançadas. Como está sendo a experiência?

O “Braboletas e Ciúminsetos” foi uma das primeiras histórias que escrevi para crianças e vê-lo publicado significa vencer uma das angústias de quem escreve, que é a materialização do teu trabalho. Porque mesmo a internet não conseguiu ainda suprir essa necessidade que autor e leitor têm em relação ao livro. Como leitora, gosto de pegar o livro na estante, sentir o cheiro e a textura do papel, ver de perto as imagens e saber que posso folhear à vontade suas páginas, marcar no texto coisas que me chamam mais a atenção, e isso não se faz na internet. Acho que essa lógica é a mesma para quem cria a história.

Tem projeto de lançamento no Acre?

Para falar a verdade, sinto frio na barriga só de pensar! Mas recebi um convite para fazer o lançamento em Rio Branco, então é provável que isso aconteça.

Suas filhas, Clara e Anais, são as grandes inspiradoras nessa obra?

Claro! (risos). A Clarinha, que é minha filha mais velha, não gostou muito quando leu a história pela primeira vez porque compreendeu logo que eu tinha me inspirado na relação dela com a Nana para escrever o Braboletas. Mas hoje as duas se divertem com isso... Acho essa capacidade da criança fantástica! E devo a isso não só o Braboletas como também outras histórias que acabei escrevendo pra elas, movida pela necessidade de me aproximar, de fazer parte desse universo rico e flexível que é o da criança.

No livro você fala da relação entre irmãs, d o ciúme de quem sente que perde o espaço pelo novo integrante da família. Também enfrentou esse dilema?

Olha (risos), isso eu posso falar de cadeira, já que sou a filha mais velha e tenho outros cinco irmãos! E eu acho que sim, a gente acaba mesmo, em algum momento, se sentindo preterido. Eu, pelo menos, senti isso várias vezes! Não é uma coisa boa de sentir, mas acho que é natural e faz parte do amadurecimento das pessoas, das relações, dos afetos.

“Braboletas e Ciúminsetos” tem a intenção de ser educativo?

Não escrevi com essa intenção, mas acho legal que a criança (ou mesmo o adulto), ao ler a história, possa ver de maneira diferente a questão do ciúme. Porque é claro que a criança que sente ciúmes da irmã ou do irmão sofre com isso. Sofre porque sente que pode estar perdendo espaço, mas também porque tem amor pela irmão ou irmão. E essa ambigüidade não é fácil. Então não se trata de valorizar o ciúme, nem tampouco de fingir que ele não existe. Não adianta querer minimizar um sentimento que é real para a criança, é preciso ajudá-la a compreendê-lo. Quando isso acontece, pelo menos é o que percebo com as minhas filhas, o ciúme, ou a insegurança em relação ao espaço que cada uma ocupa, vai desaparecendo.

Como surgiu a parceria com Marcelo Vaz?

Na verdade, eu não conhecia o trabalho do Marcelo, mas quando vi seu portfólio me empolguei, porque o trabalho dele é maravilhoso. E isso eu acho que é uma coisa legal de ser dita: tem muita gente talentosa nesse país e é muito bom quando essas pessoas conseguem encontrar quem aposte nelas. É claro que não vou me comparar ao Marcelo, que é muito talentoso, mas acho que a publicação do Braboletas é o resultado de uma política que a Letras Brasileiras tem e que outras editoras deveriam seguir, que é a busca de novos autores e ilustradores.

Você também desenha. Pretende apresentar esse outro talento nas próximas obras?

Eu sempre gostei de desenhar e até hoje, quando as palavras fogem, acabo usando as tintas para me expressar. Mas isso é uma necessidade muito pessoal e sem nenhuma técnica. Não é a mesma coisa de quem ilustra um livro infantil, por exemplo.

Além dos livros de literatura infantil, você tem planos de lançar obras em outros estilos literários?

Sim e eu espero que dê certo! É engraçado, porque não comecei escrevendo histórias infantis. Sou daquele tipo de pessoa que rabiscava poesias em guardanapo de bar e caixa de cigarro. Sei que não é politicamente correto, mas é a verdade. Depois disso, escrevi contos e publiquei alguns na Internet. O problema é que quando resolvi que ia encontrar tempo, mesmo que fosse de madrugada, para escrever ficção, comecei a escrever de tudo. E graças às minhas filhas, acabei também escrevendo histórias infantis.

Seus textos sempre tiveram um estilo poético. Isso já apontava para outra forma de escrever que não fosse no jornalismo?

Olha, apesar de sempre ter trabalhando na imprensa, eu acho que nunca fui uma jornalista no sentido completo da palavra. O furo, coisa que a maioria dos repórteres procuram, nunca foi minha ambição. Eu gostava, como ainda gosto, de contar histórias. E isso é uma coisa cada vez mais difícil de ser feita na imprensa diária por que, salvo raras exceções, os veículos se pautam basicamente pelo factual. É claro que não estou esquecendo da tarefa que a imprensa tem de informar, mas sinto saudades do tempo em que a gente podia escrever – e ler – matérias com maior apuro do texto e das informações. Então, nesse sentido, acho que sempre estive mais próxima do texto literário porque gostava de me envolver com o tema da matéria. Boas matérias, para mim, eram as que eu não saia impune, que mexiam comigo. Coisa que para um jornalista não é muito aconselhável, não?

O que é mais difícil, ser jornalista, escritora ou mãe?

(risos) O mais difícil é precisar ser os três ao mesmo tempo!

 
 
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Rio Branco-AC, 24 de junho de 2007
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