OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Memória da arqueologia acreana (V)

No artigo passado vimos que o ano de 1977 marca o inicio das pesquisas arqueológicas no estado do Acre. Além de diversos sítios com estruturas geométricas de terra essas pioneiras pesquisas revelaram uma grande diversidade de vestígios pré-históricos que revela que a diversidade étnica e cultural sempre foi uma das principais características do Acre ao longo dos últimos milhares de anos. Ou seja, além da propalada biodiversidade característica da região amazônica, o Acre conta também com uma extensa sóciodiversidade que também deve ser compreendida como signo da riqueza regional e constitui um de seus principais patrimônios.

Ilustração
Mapa dos sítios arqueológicos localizados pelo IAB no Acre

Desde o inicio de sua ocupação pelos exploradores brancos o território acreano sempre chamou a atenção pela enorme diversidade de povos indígenas que aqui habitavam. O mapa étnico da América feito por Curt Nimuendaju revela que havia no Acre, ao final do século XIX, aproximadamente cinqüenta diferentes etnias indígenas espalhadas pelos diversos vales acreanos. Uma realidade bem distinta da atual, quando apenas dezesseis etnias sobreviveram ao holocausto representado pelo 1º Ciclo da Borracha e mantiveram relativa integridade cultural e social.

As pesquisas arqueológicas realizadas a partir de 1977 pelo Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), sob coordenação do Dr. Ondemar Dias Junior, confirmaram essa informação originada na literatura etnológica e histórica. Entre os vinte sítios localizados nos vales do Acre, Iquiri e Iaco, pôde ser observada uma enorme variação nos vestígios encontrados que atestavam a riqueza da pré-história acreana. Ou seja, já em seu primeiro ano de pesquisas o Acre se revelava um fértil campo de estudos para a arqueologia brasileira.

A partir do segundo ano, em 1978, a equipe do IAB estendeu o trabalho de campo ao vale do Juruá, nas regiões de Cruzeiro do Sul e de Porto Valter, ampliando ainda mais nosso conhecimento acerca da milenar ocupação indígena pré-histórica da região. Entretanto, diante dos extraordinários resultados obtidos no ano anterior a equipe do IAB realizou ainda algumas prospecções na área AC-IQ (Iquiri) e AC-XA (Xapuri). Com isso foram registrados novos vintes sítios arqueológicos no estado.

Cabe ressaltar que as condições para a realização destas pesquisas de campo eram bem distintas da que temos atualmente. Em que pese parecer tão pouco tempo, é importante lembrar que há trinta anos os pesquisadores ainda não contavam com o auxilio de fotos de satélite e nem com equipamentos de localização como o GPS. Além do que a própria realidade acreana era muito distinta. Basta considerar o que era a estrada (se é que dá pra chamar assim) entre Rio Branco e Xapuri nos anos 70, para ficar em um único exemplo. Assim não é preciso muito esforço para imaginar as enormes dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores e que tornavam estas pesquisas de campo verdadeiras aventuras rumo ao desconhecido.

Subir e descer rios, percorrer estradas, ramais e varadouros, comer e dormir sabe lá Deus aonde, entrar na mata fechada busca de sítios só conhecidos pelos moradores da floresta. Isso tudo num tempo em que se dizia que não havia mais povos indígenas no Acre e nenhuma terra indígena tinha sido ainda demarcada na região. Por isso, às vezes, acho muito engraçado os sensacionalistas de plantão se dizendo grandes pioneiros da arqueologia acreana porque localizam sítios a bordo de um avião, ou bem resguardados no ar-condicionado de seus escritórios enquanto fuçam a internet atrás de novos sítios com os quais possam se auto-promover. Sinal dos tempos, em que o que importa é o midiático e o conhecimento ético e responsável parece ter deixado de ser uma prioridade para a vida humana, o que nem sempre é tão engraçado assim.

Mas apesar de todas as dificuldades características da época, os pesquisadores do IAB encontraram aqui no Acre excepcionais colaboradores como o já mencionado Sr. Arthur Jerosh, que era um autentico pesquisador, apesar de não ter formação acadêmica, porque era sobretudo apaixonado pelas coisas do passado acreano. Além, é claro, do velho e bom Padre José, que do alto de sua fértil imaginação encantou a todos com suas histórias maravilhosas e informações extremamente relevantes para o conhecimento inicial da pré-história da região.

Com os bons resultados obtidos até então as pesquisas do PRONAPABA no Acre, sempre realizadas pela equipe do IAB, seguiram por mais dois anos. Em 1979 a pesquisa de campo ficou totalmente concentrada nas áreas AC-CS (Cruzeiro do Sul) e AC-TA (Tarauacá), com a localização e cadastramento de vinte e sete novos sítios arqueológicos. E finalmente, em 1980, foram realizadas pesquisas na área AC-PU (Purus) com o registro de três novos sítios, além do que nesta ultima missão de campo, parte da equipe retornou a alguns dos sítios mais representativos do Juruá.

Dessa forma, o IAB inaugurou a pesquisa arqueológica no estado do Acre localizando um total de 70 sítios, em quatro anos ininterruptos de trabalho. Ainda assim uma enorme região não pôde ser pesquisada permanecendo até hoje desconhecida em termos arqueológicos. São elas: AC-FC (Fronteira do Cassianã), AC-FE (Feijó), AC-IA (Rio Iaco), AC-JU (Rio Juruá), AC-RG (Rio Gregório).

De todo modo com estas pesquisas ficou evidente a enorme variação de ocorrências arqueológicas que se encontram espalhadas pelos vales acreanos: tais como sítios-acampamento, sítios de habitação, cemitérios com urnas funerárias, sítios com estruturas de terras, entre muitas outras. Ou seja, diferente do que tem sido divulgado ultimamente, a pré-história acreana não é constituída apenas pelos “geoglifos”, mas por um conjunto extremamente diversificado de sítios arqueológicos que nos remetem as mais distintas atividades humanas e traços culturais peculiares.

Além disso, foi graças a essas pesquisas de campo e a posterior analise laboratorial de todo o material arqueológico coletado que o Prof. Ondemar Dias pôde elaborar a primeira, até aqui única, síntese acerca da pré-história acreana nos últimos três mil anos, sobre a qual já me dediquei em artigo publicado em 2002 e que voltaremos a tratar futuramente aqui nessa coluna.

Posteriormente novos trabalhos de campo voltariam a ser realizados em 1985 pela equipe do IAB. Estes tiveram caráter complementar para a região do Juruá pela escavação do Sítio Prosperidade (AC-CS-05) que se revelara extremamente importante para compreensão do contexto pré-histórico que já se esboçava. No mesmo ano, um outro arqueólogo, o Prof. Oldemar Blasi, realizou pesquisas em um peculiar sítio arqueológico com estruturas de terra, o Sítio Los Angeles (AC-XA-07), tendo como objetivo a formação de pessoal da Universidade Federal do Acre. Mas isso é assunto para a próxima semana.

 

 
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Rio Branco-AC, 24 de junho de 2007
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