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Uma tarde de aventuras

Enquanto um punhado de brasileiros abastados (e sem noção) anda pelos suntuosos corredores da paulistana Daslu, aquele marco da opulência em plena Marginal Pinheiros, outros muitos se acotovelam nos grandes bolsões de comércio popular da cidade. Tal qual à exclusiva loja, as ruas de compras econômicas são um mundo à parte: ali, porém, você não precisa ter carteirinha de freqüentador – mas sim uma boa dose de paciência, um tanto de bom-humor e olhos abertos para a diversão certa.

Com sapatos confortáveis, trocados para o ônibus e bolsa colada ao corpo, aventurei-me ao Brás, conhecidíssimo ponto para aqueles em busca de roupas a preços de fábrica. O motivo maior foi a procura por uma calça jeans que não fosse azul e que não marcasse na etiqueta 80 reais, valor facilmente encontrado em qualquer loja acessível nos shoppings da cidade. Mas é claro que a experiência única também conta pontos para desembarcar nas calçadas apinhadas de gente, camelôs, cachorros, papel de bala, carrinho de milho cozido e vendedor batendo palma para atrair clientela.

De maneira impressionante, cumpri a missão nos primeiros 10 minutos de andança: achei a tal calça do jeito que eu imaginava, feita com um jeans macio e resistente, de perfeito caimento e por módicos... 30 reais! Um recorde de tempo e economia. “Esse Brás é mesmo danado de bom!”, pensei, enquanto pagava feliz pela compra que já havia feito a empreitada valer a pena. Dali para frente, satisfeita, passei a seguir minhas acompanhantes enquanto observava atentamente a fauna local.

Para aproveitar o que as ruas têm a oferecer, o visitante deve se desprender de todos os preconceitos do hábito de fazer compras. Se você costuma escolher lojas mais iluminadas, que tenham vitrines bonitas e vendedores bem-apessoados, saiba que tal critério não poderá ser utilizado por lá. Os estabelecimentos são escuros, bagunçados, mal-ajambrados. E os vendedores, coitados, não primam pela simpatia ou pela apresentação. No dia da minha visita, com os termômetros da cidade marcando 15 graus, todos haviam adotado o modelito “bóia-fria”: blusa por cima de blusa, luva, meia de lã por fora da calça, etc.

Eles também não costumam ligar muito para o cliente comum. Como o bairro é ponto de parada de sacoleiras e lojistas que compram sempre e em muita quantidade – dado comprovado pelas dezenas de ônibus de turismo estacionadas pelas ruas e pelas tiazinhas puxando carrinhos ou com sacolas imensas na cabeça –, uma pessoa sozinha, ou em pequeno grupo, atrás de uma única camiseta, não é lá muito atraente. O lado bom é que você não será perseguido e vencido pelo cansaço por uma vendedora que não larga o osso. Portanto, há muito espaço e liberdade para vasculhar as peças.

E é exatamente aí que o espírito arqueológico precisa baixar na pessoa. Manja o paciente Indiana Jones que, além de não temer caverna alguma, ainda é cuidadoso para localizar o tesouro mais valioso no meio de todos os outros? Então. O negócio é afiar os olhos e saber separar o que é lixo (tem muito) do que pode ser uma peça atraente. E ter coragem para fazer o que você não faria em qualquer outro ponto de comércio. Por exemplo, fuçar em baciadas de 5 reais. Vá fundo, ninguém vai lhe reconhecer! Entrar no meio de senhoras ensandecidas na arara de ponta de estoque também é válido. Eu inclusive me aventurei em uma escadaria fina e escura para achar uma loja! E olha que lá não funcionava um comércio ilegal de órgãos como eu poderia desconfiar!

Assim como você não pode se apegar a preconceitos, também precisa fechar os olhos para o preconceito local. Eu sei que é desagradável entrar em uma loja com um segurança empoleirado em cima de uma caixa de olho em suas ações, para ter certeza de que você não vai enfiar na bolsa uma blusinha de 3 reais – que, provavelmente, não iria querer nem de graça. Ou quanto você põe os pés para dentro de um estabelecimento e uma coreana com cara de poucos amigos grita de modo ríspido “só atacado!”, praticamente lhe expulsando do lugar.

Por outro lado, há pessoas agradabilíssimas. Como o senhor de origem muçulmana dono de uma pequena rede de lojas. Depois de negar um pedido de fiado do motorista de um ônibus de excursão (o cara disse “Eu trouxe 40 pessoas para comprar no Brás”, e o velhote respondeu “Então traga todo mundo aqui que eu dou desconto”), notou que nós estávamos cheias de sacolas e nos deu uma sacola maior, para facilitar a caminhada. Em sua loja, enquanto esperava a cunhada experimentar uma calça, também pude assistir a um programa sobre cinema da TV árabe.

Pena que chega um momento em que seu corpo pede arrego, embora sua mente saiba que ainda existe muita coisa para ser explorada. Após seis horas de aventura eu precisava esticar as pernas e descansar o bumbum. No ponto, ao lado de uma barraca de CDs e DVDs piratas, ficamos esperando o ônibus com a pior trilha-sonora de todos os tempos: um forró cujo refrão era uma menina de voz estridente que repetia os versos “O seu vizinho quer comer meu cu...elhinho/ O seu vizinho quer comer meu cu...elhinho”. Ah, vai me dizer que na Daslu existe tamanha diversão?

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Rio Branco-AC, 24 de julho de 2005
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