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Margarida brasileira não desiste jamais Entre vitórias e tragédias, produtora paranaense vence onde muitos foram derrotados, e continua na luta |
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Maria Margarida Siebert dos Santos partiu de Cascavel do Paraná para o Acre em 1979 na leva de migrantes que veio em busca das terras férteis prometidas pelo Incra para quem quisesse ocupar e iniciar uma nova vida na Amazônia. Com o marido trouxe quatro filhos, o maior tinha cinco anos e aí começava sua aventura carregada de derrotas e vitórias que ainda estão se construindo no dia-a-dia. Aos 53 anos e com mais dois filhos nascidos no Acre, mora na vila do T do ramal da Enco dentro do Projeto de Assentamento Dirigido Peixoto (Pad-Peixoto) onde atua como orientadora pedagógica. Neste momento faz planos para os 300 hectares que seu marido e filhos receberam do Incra para colonizar na Gleba do Monte em Boca do Acre no Amazonas. Quando chegou do Paraná com sonho de conseguir seu pedaço de chão, Margarida foi morar em Senador Guiomard onde o marido conseguiu emprego de motorista na prefeitura, foram economizando dinheiro e um ano depois conseguiam seu primeiro lote no ramal Mendes Carlos I. “O lugar era bonito, mas a terra não era boa e o ramal muito ruim, não dava condições de escoar a produção e agente perdia o que colhia. Então nos mudamos para o quilômetro oito da antiga Ac-401 que liga Plácido de Castro a Acrelândia. Lá a terra era boa e o ramal também era melhor”. Na bicicleta - Mas a luta de Maria Margarida só estava começando porque passou a dividir o trabalho da colônia, todo dia ia e voltava os oito quilômetros até Plácido de Castro numa bicicleta para poder completar o primeiro grau, sonho que carregava desde a meninice e que não pôde ser realizado porque tinha de trabalhar na roça. Em 1981 só com a quarta série ela foi convidada a trabalhar como alfabetizadora do Mobral na comunidade usando primeiro um chapéu de palha que foi transformado numa escolinha de paxiúba construída pelos produtores da Associação Raimundo Melo e na qual começou a trabalhar como professora leiga em 1984. “A escola pegou fogo durante o governo de Iolanda Lima, em 1986. O Wildy Viana era secretário da Agricultura e apoiou nosso pedido, então o governo mandou construir a escola Nossa Senhora do Carmo, onde continuei trabalhando”, recorda. Completou o ginásio, fez o supletivo do primeiro grau em 45 dias. Nesse meio tempo,o marido começou a apresentar problemas no coração e já não podia mais se esforçar tanto no trabalho pesado da roça e das derrubadas, por isso, em 1990, venderam a colônia e foram morar na cidade de Plácido de Castro. Arrependimento - “Os meninos já estavam grandes e a gente queria que eles estudassem, mas nenhum deles quis estudar. Se arrependimento matasse eu tinha morrido por ter vendido a colônia e os meninos não aproveitarem a oportunidade. Não desanimei, em Plácido pude fazer o magistério também pelo supletivo”. Uma série de infortúnios marcou essa época na qual perdeu uma das filhas que morreu de hepatite com sete meses de grávida. Os filhos espalharam-se, um trabalhando com compra de gado e assim por diante. Universitária - “Em 1996 fiz vestibular para pedagogia em Plácido de Castro. Nem queria fazer porque não via condição, mas o marido incentivou e eu tive sorte, passei. Me formei em 1999 e vim trabalhar como diretora aqui da escola do T da Enco, onde estou até hoje. Aqui atuei como tutora do pró-formação para 18 professores”, relata. Nova chance - Ao serem selecionados para ocupar 300 hectares do Incra na Gleba Belo Monte, em Boca do Acre, Maria viu a oportunidade de finalmente realizar o sonho de conseguir sua própria terra para morar e produzir. “A gente que foi criada na roça nunca perde essa ligação com a terra, esse desejo de viver lá. Ainda não tenho tempo nem idade pra me aposentar, mas assim que der eu vou pra lá”. Mas o sonho tem seu preço e mais uma tragédia marcou a vida da família quando seu filho mais velho morreu fazendo a derrubada no Belo Monte. “Aquilo desequilibrou a gente, mas não desanimamos. Minha filha está morando lá, já derrubamos mais de dez hectares para fazer pasto e meu filho o Luiz Carlos está fazendo o curso de gado leiteiro. Lá tudo é mais difícil, ainda tem muita malária, mas é minha última chance e vai ter que dar certo”. Adeus com amor - Apesar das dificuldades da luta que teve de enfrentar para sobreviver no Acre, Maria Margarida se declara agradecida pelo muito que aprendeu e que pretende levar para onde for. “O Acre foi uma mãe pra nós, tudo o que temos foi graças a esta terra. Quando chegamos aqui a gente não conhecia nada, foi o pessoal da região que nos ensinou a cortar borracha e colher castanha, tirava 50 quilos de látex por semana e mais de 140 latas de castanha na safra, isso nos ajudou muito”. Leva daqui o aprendizado da florestania: “Hoje estamos abrindo terra nova no Amazonas, mas já vamos com outra visão, não é mais aquela de derrubar tudo, mas de aproveitar a madeira, proteger as nascentes e igarapés, cuidar da terra, da natureza e tornar a produção mais eficiente. A gente não vai cometer lá os erros que cometeu aqui. Sei que vai dar certo”. |
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