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| Suando a camisa
O repórter Leonildo Rosas, 41, e o fotógrafo Regiclay Saady, 32, ambos do jornal Página 20, produziram bom trabalho jornalístico sobre os seringueiros brasileiros que vivem na Bolívia sobressaltados com a política nacionalista do presidente Evo Morales. A reportagem “Guerra na fronteira é pela sobrevivência”, que trata do assunto, foi publicada na edição de domingo, 17, merecendo caderno central com quatro páginas coloridas. A matéria serve de estímulo aos jovens estudantes de comunicação que, há duas semanas, participaram de uma conversa com o experiente jornalista e escritor Ricardo Kotscho (que passou pelas principais redações de jornais e revistas do país e foi correspondente de uma delas na Alemanha). Kotscho esteve em Rio Branco pelo projeto Sempre um Papo e deu um conselho aos novos comunicadores da capital: “Parem de reclamar de censura e procurem desenvolver boas pautas”! Àquela altura, Leonildo e Regiclay já estavam com seu material em mãos. Eles viajaram por conta própria no dia 6 de setembro e passaram o feriado (7) caminhando nas matas bolivianas. O repórter disse que gastou 400 reais do próprio bolso enquanto o fotógrafo teve que se virar com equipamento de poucos recursos disponível no jornal. Os dois saíram de Rio Branco no carro de Leonildo percorrendo 350 km da BR-317 até a cidade de Brasiléia. De lá, atravessaram a fronteira para Cobija, capital do Departamento de Pando, onde reabasteceram o carro com gasolina barata (a 1 real o litro) e conversaram com o alcaide (prefeito) Luiz Adolfo Flores Roberts, 33, com a ajuda do vereador do lado brasileiro Raimundo Lacerda: “O alcaide foi muito atencioso com a gente”, disse Léo. Ainda no dia 6 a dupla rodou mais 57 quilômetros da BR-317 (no trecho Brasiléia –Assis Brasil) e 24 km de ramal até uma colocação onde os aguardava o guia Toquinho (Evaldo dos Santos Mesquita) que os levou aos seringueiros brasileiros no país vizinho. O próprio Toquinho é um deles que se antecipou e veio para Brasiléia com a mulher esperando o pior das autoridades bolivianas. Durante a caminhada de quatro horas pela mata os repórteres se depararam com um bando de queixadas. Toquinho matou um dos animais e o cobriu com folhas para apanha-lo na volta. Sua habilidade chamou a atenção de Leonildo: - Quando voltávamos, cansados, Toquinho que já transportava 15 quilos de milho amarrou o “porco do mato” com uma envira e o colocou às costas como se fosse uma mochila. Leonildo e Regiclay são dois premiados profissionais do jornalismo regional. O primeiro abocanhou o prêmio José Chalub Leite em 2002 com uma matéria sobre a colônia Souza Araújo, dos hansenianos; e em 2003 sua reportagem sobre um caso de talidomida recebeu Menção Honrosa. Regiclay, por sua vez, acumula três prêmios de fotografia, um deles do Sebrae sobre agro-negócio.
Muitas viúvas... No começo dos anos oitenta do século passado o confronto entre fazendeiros e seringueiros tornara-se tenso na até então pacata cidade de Xapuri. Um seringalista amigo dos fazendeiros havia anunciado pela emissora de rádio local que haveria muitas viúvas no Acre. De fato, foi desencadeada uma série de emboscadas e assassinatos de lideranças sindicais como Ivair Igino, Wilson Pinheiro e José Ribeiro em 1980, e Chico Mendes em dezembro de 1988. Ivair foi a primeira vítima dos pistoleiros comandados pelos irmãos fazendeiros Alvarino e Darli Alves. Ele era monitor da uma comunidade de base da igreja católica e se tornara membro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Com 26 anos, inteligente e dedicado, ganhou confiança na organização comunitária e foi indicado candidato a vereador pelo PT de Xapuri. O sindicalista vivia com os pais José e Luzia (foto), a mulher Neusa Costa e um filho com 38 dias de vida na BR-317, no km 27 km na direção de Brasiléia. Pela manhã saia para ordenhar umas vacas do vizinho ganhando em troca o leite para a família. Às 5h30 do dia 18 de junho de 1980, entretanto, foi morto por dois tiros de espingarda calibre 12 e seis de revólver 38, de tocaia.
O crime permanece insolúvel até hoje, apesar das fortes suspeitas sobre quem seriam o mandante e os assassinos. Cícero Tenório Cavalcante, candidato a vereador pelo PMDB foi apontado como mandante mas, como álibi, participou do velório e ajudou a carregar o caixão no enterro de Ivair. Em sua casa, localizada junto ao local da emboscada, teriam permanecido na noite anterior os pistoleiros Cearazão e Tilinho, este filho de Alvarino Alves, O advogado Gomercindo Rodrigues atua como assistente de acusação no processo movido pelos pais de Ivair e acredita que o crime teve duas finalidades: uma de caráter político, para afastar o sindicalista da disputa eleitoral facilitando a eleição de Cícero Tenório Cavalcante; a segunda seria alimentar o clima de terror prometido pelos fazendeiros como reação aos “empates”. A ação dos pistoleiros iniciara em maio de 1980 com o atentado aos seringueiros acampados na sede do IBDF (hoje Ibama), em Xapuri, como protesto a decisão do órgão de autorizar desmatamento no seringal Equador. Dois jovens foram atingidos por balaços na perna. disparados por jagunços da família Alves.Em junho, mataram Ivair; em julho o presidente do sindicato de Brasiléia, Wilson Pinheiro; e em setembro o ex-seringueiro José Ribeiro, que durante uma festa ousou tirar a namorada do pistoleiro Jadeir, o Mineirinho, para dançar. A denúncia judicial contra os matadores de Ivair Igino só aconteceu em 1994, ou seja, 14 anos após o crime e por causa da repercussão que teve o assassinado de Chico Mendes em 1988. Com todo esse atraso, segundo Gomercindo, ficou mais difícil condenar os culpados. Os pais de Ivair, entretanto, ainda esperam justiça. José Igino de Almeida e Luzia Maria Siqueira, 69 e 64 anos de idade, moram hoje na Vila Acre nas proximidades de Rio Branco. O casal veio de Minas Gerais para o Acre em 1985, com seis filhos, hoje crescidos e casados. Um tornou-se padre em Rondônia. Seu Zé Igino afirmou quinta feira que, apesar da perda de Ivair, gosta cada vez mais do Acre. “Na verdade, me arrependo de não ter vindo antes para cá”. Dona Luzia fala a mesma coisa.. Receita contra “panema” O seringueiro Otávio Luciano da Silva, 76 anos, nascido no seringal Restauração, alto rio Tejo, no Vale do Juruá, cortou seringa durante 57 anos a partir dos nove de idade. Agora vive aposentado pelo Funrural na cidade de Thaumaturgo. Em fevereiro, eu o entrevistei e quis saber se conhecia algum remédio contra “panema” (má sorte na caça). Ele respondeu que sim e fez questão de ensinar: “Pega-se o rabo do quatipuru roxo e o chifre esquerdo de um veado; nove penas da nhambu azul, da asa esquerda; a segunda malha da jabota; cinco penas do mucumbu (rabo) do jacamim; nove pimentas malagueta; nove ramos de tipi da mata e três catingas de caititu. Pega-se tudo isso e põe numa vasilha. Num dia de sexta-feira em que o cabra for pro mato, ele deve levantar às seis horas sem falar com ninguém. Deixa tudo preparadinho no lado que ele vai pra mata. No dia seguinte leva a vasilha com os ingredientes, toca fogo e põe umas palhinhas da palmeira Jarina que é pra fazer fumaça.Então ele defuma a arma, a roupa todinha, aí deixa lá a vasilha sem olhar para trás. Se ele não matar numa primeira vez, no outro dia ele mata. A receita serve pra todos os bichos: do miúdo ao grande”. |
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