COTIDIANO

Clube do Talento

Crianças e jovens descobrem uma nova maneira de encarar a vida com responsabilidade, disciplina e diversão

Juracy Xangai
Crianças participam do coral rural


Juracy Xangai

Com 4.130 crianças e adolescentes atendidos, o Clube do Talento apresenta um afinado coral rural, meninada concentrada disputando partidas de xadrez, fazendo dança, teatro, capoeira e uma banda de percussão que pela qualidade até foi convidada para apresentar-se no concurso nacional de bandas e fanfarras, previsto para o mês de outubro, no Rio de Janeiro.

Atividades como estas até há bem pouco tempo eram totalmente inconcebíveis para crianças e jovens de baixa renda, mas foram tornadas realidade pelo Clube do Talento. Esse programa é destinado a atender preferencialmente aos clientes do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e que vem sendo executado pela Secretaria Municipal da Cidadania e Assistência Social da Prefeitura de Rio Branco.

Iniciado há dois anos, hoje atende 4.130 crianças e adolescentes com idade entre sete e 17 anos, que estão aprendendo percussão, violão, xadrez, teatro, dança, coral, capoeira e informática. Quem tem de sete a dez anos participa das atividades de leitura e escrita, já os pertencentes à faixa etária entre 11 e 17 praticam atividades esportivas e culturais.

Repercussão da percussão

“Eu saía de casa pra vir à escola, mas passava direto para a locadora de videogame que tem ali atrás, gazeteava as aulas da escola e também as de informática. Minha mãe vivia brigando comigo e as notas estavam muito baixas”, relata Matheus Freitas de Melo, 11, estudante da 5ª série da escola Berta Vieira, no bairro São Francisco, como era seu comportamento antes de entrar para a Banda de Percussão só Para Crianças (Banpec), da qual participam 45 estudantes.

Matheus fala empolgado sobre o que motivou sua mudança de comportamento. “Quando me convidaram para participar da banda, vim, achei legal, é uma coisa mais segura, que tem futuro, mas para participar dela eu tenho que vir às aulas. Agora eu venho, as notas estão começando a melhorar”. Quanto aos planos para o futuro, ele confidencia: “Quero ser tocador de bateria, acho que vou conseguir. Para chegar até aqui minha mãe me ajudou muito insistindo para eu estudar, mas eu a aborreci muito”, reconhece.

Gerancley Cavalcante de Oliveira, 25 e que há dez se dedica à música, especialmente a percussão e bateria, é quem orienta os 45 alunos que nunca haviam tido contato com a prática da música entes de entrar para a banda, que tem em seu repertório cinco peças musicais prontas, mais o Hino Acreano.

“No começo, para eles, era uma brincadeira animada, mas quando foram representar a escola no Campeonato Regional de Bandas e Fanfarras, ganharam oito troféus, ainda o de melhor banda infanto-juvenil e o segundo lugar geral. Eles ficaram orgulhosos da conquista e se sentiram muito mais valorizados”, afirmou Gerancley.

O grupo foi convidado para representar o Acre no Concurso Nacional de Bandas e Fanfarras, que acontece em outubro, no Rio de Janeiro, mas não tem as passagens nem como custear as despesas.

Pequenas histórias

Roberto Albuquerque de Oliveira tem oito anos, está na primeira série do ensino fundamental e freqüenta a sala de leitura que funciona no Centro Comunitário do Mocinha Magalhães. “Eu gosto de tudo que a professora lê para nós, mas prefiro as histórias de animais, especialmente as que têm gato, porque eles são muito espertos. Lá em casa eu leio para minha irmã que é maior do que eu, e ela também gosta de ouvir as histórias”. E adverte: “Quando crescer, eu vou escrever um montão de histórias!”

Violão da esperança

Quem anda toda empolgada com o fato de os três filhos - Vanclésio, 15, Vanderson, 13, e Verdson, 10 anos - estarem aprendendo violão no Cras do Eldorado é a dona de casa Zuleide Bezerra de Souza, 30. “O mais velho sempre quis aprender violão e é justamente ele quem dedica mais tempo a aprender, por isso está amais adiantado que os outros. Notei que depois que eles começaram a estudar música o comportamento deles melhorou bastante, ficaram mais calmos, mais atenciosos e têm mais compromisso com as coisas. Agora até ouvem mais os conselhos da gente.”

Charles Félix de Oliveira é o professor dos três que fazem parte de um grupo de 75 alunos, que são divididos em quatro turmas para facilitar o aprendizado. “O sucesso desse tipo de trabalho está na participação dos pais em todas as atividades. Zuleide acompanha os filhos. Vai lá saber o que andam fazendo, busca informação e participa. Os três fazem parte da primeira turma que começamos em julho do ano passado, eles já me ajudam a orientar os novatos, foi assim que eu aprendi há oito anos, tomei gosto e estou aqui fazendo a minha parte.”

No Cras do Eldorado, além das aulas de violão, os jovens mantêm a Banda de Percussão só Para Crianças (Banpec), que funciona na escola Berta Vieira, fazem teatro e estão organizando uma cooperativa de jovens.

Dança com amor

Valdeci dos Santos Souza, 14, está na oitava série e, junto com outros 24 adolescentes, freqüenta as aulas de dança no Cras do Santa Inês há cinco meses. “Aprendi jazz, calipso, forró, dança de salão e muito mais, mas o meu estilo preferido é o calipso. Com a dança aprendi a ficar mais descontraída, presto mais atenção nas coisas, conheci mais pessoas e fiquei mais disciplinada”, declara.

Exemplo da importância da participação da família no processo de formação educação dos filhos é o agricultor Valdemiro Teles de Souza, 50 , 8 filhos e pai de Valdeci. “Ela ouviu falar dos cursos, foi uma oportunidade que surgiu, então fui com ela, tinha aula de capoeira e de dança, ela preferiu a dança. É uma boa menina, muito bem comportada, ficou muito satisfeita com a dança que é do agrado dela”, disse.

Coral de sacrifícios

Pedalando sua bicicleta, a professora Ivanilce, que vai da Sobral para a escola Ruy Azevedo, no ramal do Gurgel, zona rural do Amapá, mas vê, ou melhor, ouve seu sacrifício compensado a cada ensaio do coral para o qual ela e o marido Charles (professor de percussão) até compuseram o hino do Clube do Talento cantado com empolgação nas sete regionais.

Maria Dilcineida dos Santos, 38, mãe de Alberto Júnior, 16, aluno da oitava série, um dos integrantes do coral do Amapá, explica: “Ele sempre gostou de desenho, tem dificuldade com português, mas de música eu não sabia que ele gostava. Ele e a irmã participam, ela falta bastante, mas ele faz questão de participar de todas as aulas, ficou menos arengueiro. Meu marido é diarista e eu recebo R$ 95 por mês do Bolsa Família, isso já ajuda muito a gente, mas a música e os ensinamentos que eles estão aprendendo vão ficar para o resto da vida”.

Crianças no Xadrez

Marcos Vinicius Correia, 17, concludente do ensino médio, é um exemplo vivo dos resultados que programas como o Clube do Talento conseguem oferecer como orientação de vida para jovens carentes. Mestre em xadrez reconhecido pelo Ministério da Educação, ele aprendeu o jogo aos 13 anos no Centro da Juventude do Aeroporto Velho e hoje, junto com outro professor, ensina suas técnicas às crianças que freqüentam o Cras da Sobral.

“Tive muitos problemas na infância e adolescência, mas o xadrez deu um novo rumo à minha vida e hoje ganho dinheiro fazendo isso. A maioria dessas crianças, assim como eu, é de famílias carentes, o xadrez ensina disciplina, exige concentração e planejamento. Com ele aprendemos a analisar melhor as coisas e a tomar decisões importantes”, enfatizou.

 

 
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