COTIDIANO

Um povo cheio de fé


Edmilson Ferreira

A fé no improvável é uma das marcas do povo acreano. Padres, pastores e demais líderes religiosos colecionam milhares de testemunhos de milagres ocorridos nas matas e nas cidades, confirmando a grande devoção da população às causas espirituais. Há alguns anos, o padre Luiz Ceppi, da Diocese de Rio Branco, deu início a um levantamento que mostrou, ainda que parcialmente, a profundidade da fé dos moradores colônias e seringais: pelo menos 50 pessoas foram “santificadas” pela crença popular, por algum ato de piedade ou milagre mesmo, tornando-se “santos da floresta”. Esses “santos” conforme testificou Ceppi, eram pessoas comuns que morreram em circunstâncias de heroísmo pela fé.

Foi a partir de dois milagres, um deles ocorrido no Acre, que o Brasil passou a ter uma santa. A Santa Madre Paulina, cujo nome verdadeiro é Amábile Lúcia Visintainer, nasceu em Vígolo Vattaro, diocese de Trento-Itália, no dia 16 de dezembro de 1865. Durante a emigração sul-tirolesa de 1875 para o Brasil, a família de Napoleone Visintain deixou a Itália. Santa Paulina passou a viver em Nova Trento, em Santa Catarina. Santa Paulina curou a menina Iza Bruna, que já tinha sido desenganada pelos médicos.

PROMESSAS – Votos e promessas são feitos diariamente, dirigidos principalmente aos santos tradicionais. A comunidade católica dedica o mês de outubro a São Francisco, protetor dos animais, e um dos santos que mais têm devotos em Rio Branco. Entre eles, a família do vendedor ambulante Fausto Nascimento, que prometeu não cortar o cabelo do filho Bruno Batista dos Santos antes dos sete anos. Bruno tem seis anos e terá o cabelo cortado somente no dia 19 de setembro de 2005 depois de ter sido agraciado com um milagre franciscano. Com quatro meses de vida, Bruno sofria de uma doença terrível - cujo nome e sintomas o pai não gosta de lembrar - e estava desenganado nos hospitais. Fausto foi à igreja e fez o voto: “Se meu filho ficar curado, só cortarei o cabelo dele aos sete anos”, disse Fausto a São Francisco. O menino sarou e a promessa está prestes a se cumprir. Quando fizer o corte, o cabelo será levado à igreja de São Francisco, no bairro homônimo.

História: milagre no Acre santificou Madre Paulina

Em 9 de junho de 1992, a cura da menina Iza Bruna Vieira de Souza, Rio Branco, foi confirmada como o segundo milagre de Santa Paulina. A avó de Iza colocou uma imagem de Paulina nas mãos da menina enquanto era levada para a sala de cirurgia do hospital Santa Juliana. Iza Bruna nasceu em cinco de junho de 1992 com parto cesariana porque era portadora de uma grave má formação cerebral, diagnosticada como “encefalocele occipital de grande porte”. No quinto dia de vida, foi submetida a uma cirurgia e, depois de 24 horas, apresentou crises convulsivas e parada cardio-respiratória. A criança foi colocada num balão de oxigênio e, temendo-se a morte, foi batizada. Depois das crises convulsivas, da parada cardíaca e do batismo, o quadro clínico se modificou rapidamente sem complicações e, ao contrário do quanto se previa segundo o prognóstico infausto, a recuperação foi surpreendente, com ótimo desenvolvimento psico-motor conforme a idade da criança e, pela ausência de seqüelas, o caso foi considerado excepcional. Iza, segundo se provou, estava sob cuidados de Santa Paulina a partir de intercessões de Zaira Darub de Oliveira, sua avó.

 

 
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Rio Branco-AC, 24 de outubro de 2004
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