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Magia dos Andes peruanos fica mais próxima do Acre Em viagem de mais de 5 mil km entre o Brasil, o Peru e a Bolívia, jornalistas mostram o que espera o Acre nos próximos anos |
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Para viver a sensação do inverno europeu ou a grande aventura da escalada dos Alpes suíços, o turista acreano não precisa mais pegar um avião, atravessar quase a metade do planeta e gastar até dias de vôos enfadonhos e de longas esperas em aeroportos. Para fazer isso na época do verão amazônico, que vai de agosto a novembro, basta apenas ele dispor de um bom carro de passeio, rumar para a cidade de Assis Brasil e adentrar o vizinho Peru. No máximo em um dia e meio depois de cruzar a fronteira, o mesmo turista vai estar frente a frente com um dos maiores e mais fantásticos monumentos da Terra. Trata-se da Cordilheira dos Andes, cuja subida dura em torno de quatro horas de carro por sobre grandes cadeias de montanhas que chegam a uma altura de mais de 5 mil metros acima do nível do mar. Ali, a extrema beleza da paisagem formada pelos inúmeros rios e riachos de água gelada e pelas gigantescas montanhas de floresta, de vegetação de brotos, de gelo e de neve nada deixa a desejar a qualquer importante ponto turístico do planeta. Essa foi uma das muitas visões privilegiadas que tive durante recente viagem de carro que fiz ao Peru e à Bolívia para conhecer de perto o processo de integração econômica, social e cultural que começa a se sedimentar entre os três países a partir do Acre. Estado cujo governo tem apostado muito na formação de um comércio comum aos três países, que reúne hoje um contingente de mais de 30 milhões de consumidores numa região formada de florestas, montanhas, desertos e costa marítima, e, por isso, detentora de imensas potencialidades para o turismo internacional. A viagem foi compartilhada com uma equipe de jornalistas da Radiobrás, que se interessou em fazer uma ampla reportagem, de âmbito nacional e internacional, sobre a nova rota que une o Acre à costa do Peru a partir da BR-317, a chamada Rodovia do Pacífico. Será por essa rodovia que o Estado deve, em futuro próximo, integrar uma rota internacional de ecoturismo e exportar parte dos produtos que pretende extrair de forma sustentável de sua rica florestal tropical. A reportagem da Radiobrás, com o título “Da Amazônia ao Pacifico”, feita pela repórter Cristina Lino, o produtor Eduardo Fittipaldi e o cinegrafista acreano Josenir Melo, foi veiculada recentemente em todo o país pela TV Nacional e está sendo transformada num documentário que será exibido em breve na França e em todos os países de língua portuguesa. A nossa viagem começou em Rio Branco no dia 26 de julho passado, quando eu, o fotógrafo peruano-brasileiro José Diaz, o motorista Jorge Roberto e a equipe da Radiobrás embarcamos rumo ao Pacífico peruano em duas caminhonetes - uma Ranger e outra Hilux -, que nos permitiram percorrer mais de 5.300 quilômetros nos três países. A nossa extensa jornada terrestre, que consumiu 26 dias, partiu da capital acreana, passou pelas cidades fronteiriças de Brasiléia e Assis Brasil, seguiu pelas cidades peruanas de Puerto Maldonado, Cuzco, Lima (a capital peruana), Matarani, Ilo, Arequipa e Desaguadero, no Lago Titicaca, e terminou em La Paz, com retorno pelos 1.200 km de montanhas geladas e de selva que separam a capital boliviana da cidade fronteiriça de Guajará-Mirim, em Rondônia, de onde retornamos para Rio Branco pela BR-364. Essa primeira parte da série de reportagens “Do Acre ao Pacífico” trata dos 1.130 quilômetros que separam Rio Branco de Cuzco, considerada hoje a quinta cidade mais visitada por turistas do mundo inteiro, todos ávidos por conhecerem as fortalezas sagradas construídas em suas redondezas pelo grande império dos índios Inca, um dos maiores que já passaram pela Terra. Saímos de Rio Branco por volta das 15 horas e já no entroncamento da BR-317 entre Plácido de Castro e Xapuri demos a primeira parada para o governador Jorge Viana falar, em entrevista, da “extrema importância” para o Acre, a Amazônia e o Brasil, da Rodovia do Pacífico, já totalmente asfaltada do lado brasileiro. Na ocasião, o governador nos adiantou o que significaria a passagem do presidente Lula dias depois por Brasiléia, onde inaugurou a ponte internacional com a cidade boliviana de Cobija, e por Assis Brasil, onde lançou a pedra fundamental da bela ponte de 240 metros que será construída até o fim do próximo ano ligando o Brasil ao Peru.
Lula vai asfaltar até próximo à Cordilheira Tão importante quanto a obra binacional da ponte entre Assis Brasil e Iñapari, que vai custar cerca R$ 25 milhões, foi o anúncio do compromisso firmado pelo presidente Lula de financiar, através do BNDES, a pavimentação da chamada carretera peruana até a cidade de Quince Mil, que fica no pé das Cordilheiras, já bem próximo de Cuzco, onde começa o deslumbre da magia de subir uma das maiores cadeias de montanha da Terra. A pavimentação dessa parte da rodovia vai permitir que os acreanos alcancem de carro Cuzco, Lima e os demais países do Pacífico durante todos os meses do ano, percurso hoje limitado apenas ao período de três a quatro meses do verão amazônico. Isso significa dizer que, a qualquer momento do ano, vai se poder sair tranqüilamente de carro de Rio Branco rumo aos países sul-americanos da costa do Pacífico e, daí, aos países da América Central, aos Estados Unidos e até ao Canadá. Já passava das 19 horas, quando chegamos em Brasiléia, onde paramos na Polícia Federal para carimbar passaportes de saída do Brasil e comprar, em Cobija, alguns equipamentos e apetrechos necessários à viagem, como lanternas, aparelho de comunicação para os veículos, CDs, pilhas, entre outros. Deixamos Brasiléia por volta das 20h30 e uma hora e 20 minutos depois já havíamos percorrido os 110 km da bem pavimentada e bem sinalizada rodovia de acesso a Assis Brasil, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia. Já no primeiro dia, havíamos percorrido 376 km desde Rio Branco. Na cidade que virou o mais novo portal de entrada no Brasil, resolvemos parar para dormir no hotel-dormitório do seu Bebé, um dos mais tradicionais de Assis. Antes, o cinegrafista Josenir Melo, que também pilotava uma das caminhonetes, e o motorista Jorge trataram de preparar os veículos para adentrar o Peru, identificando-os em todos os lados com adesivos da Radiobrás e da bandeira acreana. Devidamente energizados pelas tapiocas quentinhas, acompanhadas de saborosos mingaus de milho, café com leite e pãos macios da pensão vizinha ao dormitório do Bebé, seguimos bem cedo para atravessar o rio Acre e alcançar a cidade peruana de Iñapari. Alguns companheiros passaram antes no Mercadinho da Tana para comprar água mineral e trocar alguns dólares e reais pelos primeiros exemplares da moeda peruana, o “nuevo sol”, cuja paridade com o real era de 1,4 para 1. Nem bem atravessamos o rio Acre e chegamos na entrada de Iñapari, o que vimos pode ser considerado um dos bons desafios para a chamada integração apregoada há anos pelos dois países. Um ônibus lotado de estudantes membros da fanfarra da escola municipal Lourival Sombra, de Rio Branco, estava retido desde as 12 horas do dia anterior por problema de documentação de entrada em território peruano. Convidados oficialmente a se apresentarem em Puerto Maldonado durante as festividades de comemoração da data da Independência do Peru, que seria comemorada no dia seguinte, 28 de julho, os estudantes e os professores simplesmente estavam dependendo de “uma ordem” do Ministério das Relações Exteriores do Peru para adentrarem o país. “Se ficar esperando quase 24 horas para entrar no país pode ser chamado de integração, estamos todos mal”, esbravejou a professora Jocélia Moreira, que acompanhava os estudantes, só liberados para seguir viagem por volta mais duas horas depois, portanto, quase 24 depois de dormirem mal, sem banho e sem alimentação adequada. Além da demora, as próprias instalações dos escritórios onde são recebidos os brasileiros em Iñapari também deixam muito a desejar a um país cujo povo, particularmente o de fronteira, anseia muito e não vê a hora de se integrar econômica, social e culturalmente ao Brasil. O escritório onde se faz o registro de entrada dos veículos, por exemplo, é pequeno e muito calorento, só funcionando a partir das 9 horas. A mesma coisa ocorre com a sede da Imigração peruana, que funciona também como residência do funcionário e de sua família, abrindo apenas no meio da manhã, retardando todos aqueles que pretendem viajar logo cedo para Puerto Maldonado.
Muita chuva e muito frio no fim do inverno Meia hora depois de deixarmos Iñapari fizemos a primeira parada para acompanhar, no Distrito de San Lorenzo, província de Tahuamanu, departamento de Madre de Dios, a parada dos estudantes peruanos em homenagem ao Dia da Independência de seu país, que seria comemorado no dia seguinte. Cerca de 220 km depois de Iñapari e da pequena cidade de Ibéria, chegamos no início da tarde em Puerto Maldonado, considerada a capital da biodiversidade do Peru. Para ali, se dirigem diariamente grande parte dos turistas do mundo inteiro que saem de Cusco e descem a Cordilheira de avião ávidos para conhecerem e desfrutarem dos mais de 10 hotéis de selva instalados ao longo do rio Tambopata, mais precisamente nos lagos de Valência e Sandoval, situados no Parque Nacional do Manu, declarado pela Unesco como Reserva da Biosfera e Patrimônio Natural da Humanidade. Junto com a reserva de Tambopata e o Parque Nacional Bajuaha, o Parque do Manu forma uma área contínua de três milhões de hectares de floresta andina, considerada pela organização não governamental Conservation-International detentora da maior biodiversidade de aves, animais e plantas de todo o planeta. Puerto Maldonado se encontra às margens do rio Madre de Dios, que no Brasil vira o rio Madeira, afluente da margem direita do grande rio Amazonas, cujas águas se originam também dos milhares de filetes de água que descem dos cumes gelados das grandes montanhas da Cordilheira dos Andes, por onde passaríamos mais à frente. Com cerca de 40 mil habitantes, Puerto Maldonado é uma cidade com ruas bem traçadas, pavimentadas com concreto, sendo a maioria de mão dupla, que aglutina um trânsito intenso, formado principalmente de coloridos triciclos, veículo de transporte muito comum em todas as pequenas e médias cidades peruanas. Encravada no coração da selva tropical peruana, a cidade apresenta clima e temperatura iguais aos das cidades da Amazônia brasileira, com muitos meses de chuva e, no máximo, quatro ou cinco meses de estiagem. Puerto Maldonado também nasceu nos tempos áureos da borracha, a matéria-prima que no início do século passado gerou muita riqueza ao longo de toda a Amazônia sul-americana. Na década de 60, a cidade voltou a crescer a partir do surto do ouro que brotava abundante do rio Madre de Dios e de seus afluentes. Hoje, Maldonado vive basicamente do comércio de roupas e de calçados, além do turismo alimentado por estrangeiros do mundo inteiro, que vão a Cusco conhecer a cultura Inca, mas fazem questão de conhecer a rica floresta peruana. Os roteiros turísticos de selva, a exemplo do que ocorre em Manaus, no Amazonas, podem ser conhecidos em qualquer uma das muitas agências de viagem espalhadas no centro da cidade ou pelo telefone do Serviço Nacional de Informação e Assistência ao Turista (5748000), ou ainda pelo endereço eletrônico “iperu@promperu.gob.pe”. De Puerto Maldonado, nossa jornada para o Pacífico peruano prosseguiu pelos 510 quilômetros de carretera de barro, pedra e cascalho, rodeada de selva fechada e muitas montanhas, até a lendária cidade de Cuzco, situada a cerca de 150 quilômetros depois da subida da Cordilheira andina. Deixamos Maldonado para trás e fomos dormir 50 km depois na pequena cidade de Laberinto, cujos moradores vivem de pequenos garimpos de ouro ao longo dos rios e igarapés das redondezas. Na entrada de Laberinto, encontramos, ao cair da noite, o carioca Juarez Maciel e sua bicicleta enfeitada com as bandeiras do Brasil e do Peru. Ele saíra pedalando há um ano e dois meses do Rio e ainda pretendia percorrer toda a costa do Pacífico peruano, passando pelo Chile, Argentina e Uruguai, de onde regressaria para o Rio, completando o percurso de bicicleta de toda a América do Sul. “Estou fazendo a melhor terapia que alguém pode fazer na vida. Conhecer o Brasil e toda a América do Sul pedalando é um presente de Deus, pois estou tendo a oportunidade de conhecer pessoas e lugares maravilhosos”, disse Maciel, que tem sobrevivido todo esse tempo da venda do artesanato e da ajuda das pessoas que moram e trabalham ao longo das rodovias. Saímos da cidade de Laberinto bem cedo e seguimos debaixo de chuva adentrando cada vez mais a selva peruana. Os próximos 100 quilômetros foram os piores que percorremos durante toda a nossa jornada de mais de cinco mil quilômetros pelos três países.
A extrema beleza da subida da Cordilheira Com a chuva se intensificando, o tráfego na estrada de selva foi se deteriorando cada vez mais. Logo, encontramos atolados os primeiros velhos e surrados caminhões russos, que costumam descer e subir a Cordilheira carregando mercadorias e pessoas de um lado a outro do país. Ali, o jeito foi sair das caminhonetes, enfrentar a chuva incessante e empurrar os veículos mais atolados para conseguir ir em frente. Foram mais de sete horas para percorrer, debaixo de muita chuva, pouco mais de 100 quilômetros de estrada entre Laberinto e a pequena cidade de Sol Naciente. Já no meio da tarde, seguimos viagem pela estrada de terra seca passando pelos pequenos povoados de Nova Arequipa, Santa Rita, Santa Rosa, Villa Santiago, Dos de Maio, Mazuco e Puente Inambari, onde chegamos no fim da tarde. Em Puente Inambari, onde fizemos um rápido lanche à base de bolacha com atum enlatado, dá-se a confluência de duas estradas de grande significado para a integração rodoviária do Acre com os países do Pacífico. A primeira estrada segue para Puno, de onde se vai quase em linha reta para Arequipa e as cidades portuárias de Ilo e Matarani. Por essa estrada, cujo asfaltamento também vem sendo estudado pelo governo peruano, a distância entre Rio Branco e o Pacífico peruano se reduz a 1.500 quilômetros. A segunda estrada, por onde seguimos viagem, vai dar em Cusco, passando por Quince Mil, nos pés da Cordilheira, trecho até onde o presidente Lula se comprometeu asfaltar até o fim de seu governo. Por essa estrada, o trecho entre Rio Branco e a cidade portuária de Ilo, na chamada rota turística rumo ao Pacífico, fica ampliado para cerca de 1.930 km. Depois de Puente Inambari, a carretera passa a ser de subida de selva, que tem de ser percorrida com muito cuidado, pois há tempos que não há melhoramento no local. Seguimos viagem lentamente rumo à cidade de Quince Mil, com quase toda a equipe preferindo entrar pela noite viajando para dormir aos pés da Cordilheira. As chuvas nas montanhas aumentavam e crescia o volume de água dos muitos riachos e igarapés que nesta época do ano atravessam a estrada, dificultando cada vez mais o tráfego dos veículos. A pressa, então, nos pregou a primeira peça da viagem. Há um quilômetro de Quince Mil, uma das caminhonetes “bateu” o motor no meio de um riacho e o jeito foi todos dormirem dentro dos veículos. Em Quince Mil, resolvemos colocar a caminhonete “quebrada” em cima de um caminhão para consertá-la em Cuzco, onde havia recursos mecânicos para tal missão. O motorista Jorge ficou na cidade para seguir com a caminhonete pifada e as duas equipes seguiram no outro veículo para iniciar a grande subida da Cordilheira andina. Foi aí que começou o deslumbre de toda a equipe. Logo apareceram as primeiras grandes montanhas, todas cobertas de florestas densas, que iam ficando mais ralas na medida em que subíamos. Ao cair da noite, em meio a uma forte neblina, resolvemos pernoitar no pequeno povoado de Lima Punco, no sopé de uma grande montanha cortada ao meio por um rio de belas cachoeiras. Logo pela manhã cedo, voltamos a subir novas montanhas até alcançar a pequena cidade de Marcapata, onde o ar já é rarefeito e a paisagem é dominada por montanhas ainda maiores, cujos topos são cobertos durante o ano inteiro por gelo e neve, de onde escorrem a água para formar os rios que mais parecem pequenos filetes de prata vistos do alto dos imensos precipícios que se formam ao lado da estrada. Quando passamos na pequena Marcapata, onde se vende na feira desde sorvete até mate de coca, para combater o mal-estar da falta de ar nas alturas, a temperatura estava beirando os cinco graus negativos. Foi a partir de Marcapata que começamos a perceber que estávamos no Peru das lhamas, das vicunhas, dos carneiros de grossas lãs e dos cavalos peludos, que se alimentam dos brotos da vegetação rasteira das encostas das montanhas, onde também habitam milhares de chôlos peruanos, descendentes diretos dos Incas. Logo alcançamos o topo da Cordilheira, na localidade chamada Hualla-Hualla, onde a altitude ultrapassa os 5 mil metros e a temperatura beirava os 10 graus negativos. Deixamos Hualla-Hualla para trás e uma hora depois alcançamos a cidade de Ocongate, onde dormimos no hotel do senhor Grimaldo Rimenez, presidente do movimento peruano pelo asfaltamento da estrada de Cusco a Iñapari. “Estamos lutando há anos pelo asfaltamento desta carretera, que esperamos que traga muito progresso para a nossa região, que hoje se encontra abandonada”, disse Rimenez, desejando boa sorte para nossa viagem até Cusco, onde chegamos no início da tarde daquele mesmo dia. |
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