OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Memória e saudade

- Você não é besta não, menino. Eu quero lá saber de neto meu metido em jogo, com o Stélio ou com qualquer outro cabra. Ora muito obrigado, só me faltava essa!

-Mas vô, é aqui perto, no campo do Rio Branco, e só de tardezinha, o sol já tá frio. E lá só tem gente conhecida. De manhã, eu vou sempre pra aula.

-Só se for mesmo. De tardezinha, eu quero você é banhado, cabelo bem penteado, como um doutorzinho, pode até sentar ali na lanchonete, pedir uma fanta, todo mundo vai ver e dizer: ‘olha lá o neto do velho Lauro, menino distinto, chega dá gosto’. E esse negócio de fanta é agora, no meu tempo era garapa ferrada. Deixa esse negócio de futebol pra lá, isso não dá camisa a ninguém. Você ainda tá muito verde para compreender o mundo. Quando pensar que não, já passou da hora. E o mestre mundo não brinca, presta bem atenção. Teu amigo sou eu. E puxa daqui!

-Tá bom. Então o senhor deixa eu ir ali na praça, só um instantinho?

-Olhe lá, não vá se meter em camisa de onze varas ... Mais tardar sete horas eu quero você aqui, seu Sacana Branco! Se o comissário aparecer, diga que é meu neto e venha embora, sem dar conversa a ninguém. Muito cuidado!

-Tem um dinheirinho aí?

-Hum ... Pera aí ... Eu vou te contar uma coisa, viu menino. Olhe, a Dona Maria me disse que você estava fazendo arte lá no quintal dela, lá pela pitangueira, lá no terreiro das galinhas, me conta aí essa história, que eu já tô pra não deixar você arredar daqui. V’ambora logo!

-Que nada, vô. Foram só umas pitanguinhas. Eu tava mesmo era com a baladeira atrás de calango. E ela tava lá no quarto das rezas, aquele da frente, cheio de santo e de vela. A Edine até falou comigo, me chamou de Guguto ...

-Olhe lá, hein ... Vem cá, me dá um cheiro no cangote. Tá vendo aqui, o barbeiro me cortou com a navalha. Depois vá buscar a Água Velva, a Seiva de Alfazema. Taí cinco contos. E não me passe da hora! Não esqueça que mais tarde vamos comer as esfihas aí do turco. Cuidado com os carros na esquina!

-Que nada, eu vou devagar ...Não vou nem de bicicleta.

-É, mas ainda não esqueci daquela história dos barbeiros, que você ía sendo atropelado aí no Cine Acre. Você nasceu de novo naquele dia. Olhe que nem todo dia é dia santo. Lá na Radional só vive virando carro. E o Severino me disse que tem muito motorista tonto por aí, parece que andam com o bicho na capação.

-Ora, vô, aqui quase nem tem carro. Fora os de praça, só tem mais é Jeep e Rural, aqui e acolá é que aparece um Aerowillys, um Itamaraty. Novo, só um corcel ou dois, o resto é fusca, igual àquele do professor Pojucan, só que o dele é 66 mas parece 69, a diferença tá nos pára-choques.

-Pois bem. Conversa mole é pra quem tem dinheiro, é pra pai da moça. Capina, puxa daqui! Mas olhe lá, vou marcar o tempo, hein! E não pense em tomar rumo, nem pras bandas do Bosque, adiante do Meu Cantinho, nem lá para baixo, no rumo do Municipal e do Cine Rio Branco. Do lado de lá do rio, nem invente. Olhe o que eu disse do mestre mundo. E venha logo, eu vou marcar o tempo!

-Ta bom, vô, pode deixar comigo.

E o vô deixou mesmo, muita saudade, um grande exemplo, o eterno sentimento. Tomou rumo em 1979, quase com 77 anos de vida. Destemido e obstinado, viveu menos do que poderia, porque sempre teve vida dura, mas sempre viveu com prazer, sem grandes ilusões nem fantasias e de forma útil.

Seu amor disfarçado em conselhos e em preocupações até hoje emociona. Seu jeito simples e decidido, seu olhar terno e firme, seu gesto resoluto e carinhoso, sua disposição constante para trabalhar, produzir, encarar desafios e vencer, constituem modelo incomparável para a gente levar a vida, para ir seguindo.

Sua história o revela como desbravador do Chandless, de grande parte da região de Manoel Urbano, de grande parte do Purus, como regatão, delegado, juiz de paz, coronel de barranco, seringueiro e seringalista.

Em Rio Branco, fez política e exerceu o comércio, quando tudo estava por fazer e a cidade era pouco mais que uma aldeia. Ajudou a fundar a Teleacre e várias associações e empreendimentos. Cravou marco histórico no comércio do centro, com estabelecimentos diferentes, atuando em vários ramos, como gêneros de alimentação, tecidos, material de construção, eletrodomésticos e produtos de perfumaria, tendo ainda deixado pronto um empreendimento para hotelaria. Foi pioneiro na Estação Experimental, que ajudou a desenvolver e expandir, também atuando em vários ramos comerciais.

Grande pai, bom homem, querido amigo. Sua vida também o revela como parte da história do Acre. E como fundamento das principais histórias que tenho vivido e contado. Com efeito, ele marcou mesmo o tempo. Conhecia bem o mestre mundo, assim como conhecia os estirões dos rios, as colocações das estradas de seringa, as esquinas das ruas e da vida e os mistérios dos varadouros que percorreu, sem jamais perder a imponência simples de castanheira. Seu Lauro, coronel Lauro, velho Lauro, só mesmo o mestre mundo para calejar a gente com o sentimento, enquanto a marca do tempo segue tomando rumo. Agora, só conversa mole e saudade.

 

 
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Rio Branco-AC, 24 de outubro de 2004
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