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Casa de Leitura do bairro Chico Mendes completa três anos

Uma idéia simples se torna um espaço de saber e abrigo para crianças que viajam pelo mundo mágico da leitura

Regiclay Saady
Crianças participam de atividades comemorativas aos três anos de fundação da instituição


Tião Maia

O senador Tião Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado, participou ontem, em Rio Branco, das comemorações do terceiro ano de implantação da Casa de Leitura Chico Mendes, situada na rua Gregório Filho, no bairro que homenageia o líder sindical assassinado em 1988, na periferia da capital. O projeto foi implantado por iniciativa do teatrólogo Gregório Filho - o mesmo que empresta seu nome à rua numa homenagem dos moradores -, ex-presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour, em parceria com Tião Viana e empresários locais. O que antes era apenas uma casinha acanhada e cercada de mato hoje é um espaço visitado diariamente por 76 crianças e adolescentes com idade média de quatro a dezoito anos, dos quais pelo menos 16 estão se transformando de leitores a potenciais escritores.

A experiência alcançou tanto sucesso que vem se expandindo para outros bairros e deverá atingir o interior do Estado ainda este ano com pelo menos mais 63 casas no mesmo padrão. Além da casa no bairro Chico Mendes, foram criados outros dois espaços - no bairro Bahia, a Casa de Leitura Matias, e a outra no segundo distrito de Sena Madureira - e até o fim de 2008 deverão ser construídas as outras 63 casas semelhantes, “do Alto Acre ao Alto Juruá”, conforme anunciou o senador Tião Viana.

A implantação das novas casas será possível, segundo ele, graças a uma parceria articulada entre o governo do Estado, através da Fundação Elias Mansour, e a Caixa Econômica Federal (CEF), que deverá financiar 50 casas. “As outras 13 são objetos de emenda de minha autoria que estou alocando no orçamento para este ano”, anunciou Tião Viana ao falar às crianças que se reuniram para agradecê-lo e homenageá-lo como parceiro. “O senador sempre nos apoiou para que conseguíssemos fazer de uma idéia algo forte e em vitrine do que há de mais belo, a capacidade de convivermos em harmonia com o imaginário e a realidade. Graças ao apoio que estamos recebendo, estamos conseguindo fazer desta casa um espaço que abriga e acolhe os sonhos”, disse a coordenadora da casa, Maria Antônia Oliveira.

O poeta e ativista cultural Assis Pereira, falando em nome da presidência da Fundação Elias Mansour, também lembrou que Tião Viana tem sido um aliado da cultura. “Não é sempre que a gente encontra políticos com agenda e disponibilidade para atender os pleitos da cultura. Felizmente, o nosso senador Tião Viana e seu gabinete mantêm suas portas abertas para atender nossos pleitos”, considerou.

De acordo com Assis Pereira, a meta do governador Binho Marques é zerar, até 2010, o déficit de bibliotecas públicas no Estado - o índice estabelecido como ideal pela Organização das Nações Unidas pela Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) é de 5 mil habitantes por biblioteca. O estudo “Bibliotecas que atendem a comunidade”, realizado pelo Instituto Ecofuturo, uma organização não-governamental que atua nas áreas de educação e meio ambiente, revela que o Brasil tem 14 mil bibliotecas “abertas à comunidade”, mas só há no país 5.035 bibliotecas públicas catalogadas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas da Fundação Biblioteca Nacional.

O Acre dispõe, na capital, de duas bibliotecas públicas - uma mais antiga e a Biblioteca Ministra Marina Silva ou Biblioteca da Floresta, criada no fim do governo Jorge Viana, duas em Cruzeiro do Sul, uma em Plácido de Castro, Acrelândia, Assis Brasil, Epitaciolândia (a única de âmbito municipal), Porto Acre, Sena Madureira e Tarauacá.

O estudo do Ecofuturo cruzou informações do Ministério da Ciência e Tecnologia com as das Coordenadorias Estaduais de Bibliotecas, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), da Fundação Biblioteca Nacional e do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e concluiu que, dos 5.560 municípios brasileiros, 4.603 têm bibliotecas. O déficit, portanto, é de 957 municípios sem bibliotecas.

Tião Viana é autor de emenda que permitirá construção de bibliotecas em mais de 400 municípios brasileiros

Preocupado com o déficit, o senador Tião Viana apresentou, ainda em 2005, emenda de comissão ao Orçamento Geral da União (OGU), no valor de R$ 24 milhões, para a construção de bibliotecas em treze municípios acreanos e em outros 400 municípios brasileiros. “Pela primeira vez, um parlamentar brasileiro teve essa preocupação com a cultura”, destacou, na época, o jornalista Galeno Amorim, coordenador do programa Fome de Livros, do Ministério da Cultura. Os municípios acreanos a serem beneficiados são Bujari, Brasiléia, Capixaba, Feijó, Jordão, Mâncio Lima, Manuel Urbano, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Santa Rosa, Senador Guiomard e Xapuri.

De acordo com o projeto, as bibliotecas serão instaladas com dois mil livros de literatura, literatura infantil, obras de referências e outras obras literárias em geral, além de DVD e computador com acesso à internet, a rede mundial de computadores. Solicitados na Comissão de Educação do Senado, os recursos da emenda do senador já estão sendo usados pela Biblioteca Nacional para adquirir livros, computadores, equipamentos eletrônicos e mobiliários, como mesas, cadeiras e estantes, que irão se transformar bibliotecas nos municípios que ainda não dispõem desse tão importante instrumento de elevação educacional das pessoas. A emenda de Tião Viana tem abrangência nacional porque vai atender também as necessidades de leituras de grande parte dos 14 milhões de brasileiros que não dispõem hoje, em seus municípios, de livrarias, bancas de jornais, revistas nem postos de Internet.

“Tenho uma admiração e um carinho especial pelo senador por ele ter agido dessa maneira. Acredito que ele pode fazer ainda mais nos próximos anos e o Brasil inteiro terá mais gratidão ainda por tão elevado gesto. Acho que outros parlamentares poderiam seguir esse exemplo”, disse o teatrólogo Gregório Filho ao lembrar as parcerias mantidas com o gabinete do senador Tião Viana, inclusive para a instalação da Casa de Leitura Chico Mendes.

Crianças têm espaço para sonhos e criação

De volta ao Acre para sua terceira vez na presidência da fundação de cultura do Estado, Gregório Filho soube que, no Chico Mendes, uma área invadida por pessoas sem-teto, haviam-no homenageado colocando seu nome numa das ruas do bairro. Ele foi conferir a homenagem de perto e concluiu que queria retribuir com uma ação de cultura. “Foi quando vi, lá dentro do mato, uma casinha de madeira, quase caindo mas à venda. Procurei o senador e falei do meu projeto, que ele o abraçou como seu”, contou Gregório Filho. “Nós fomos jantar juntos e eu então liguei para um empresário amigo, que comprou o terreno - a casinha praticamente não tinha mais estrutura - e o doou ao Estado para que o espaço fosse transformado num ambiente de leitura.”

Ali, as crianças vão além da leitura. Brincam, divertem-se, improvisam teatro, cantam, encenam pequenas peças de teatro, driblam a desesperança, mas, sobretudo, lêem. E mais: num espaço ao lado, outra casa está permanente aberta, com cadernos com páginas em branco à espera daqueles leitores que agora se aventuram a escrever. É a Casa do Escritor, um projeto embrionário que visa descobrir novos talentos na literatura acreana. E eles existem. Gente como Romário Souza Oliveira, 12, aluno da quinta série da escola Lindaura Leitão, ou Romero de Souza Oliveira,13. Tatieli Gonçalves, também de 12 anos, já escreveu inclusive versos que foram musicados por seu amigo Geliard Gavilam sobre a Casa de Leitura.

“Estamos enviando uma bela mensagem para o futuro”

O senador Tião Viana reencontrou os pequenos leitores ontem à tarde, acompanhado dos três filhos - Mariah, Catarina e Virgílio -, e disse ter ficado satisfeito com o que viu. “Isso aqui é uma casa de poesia. As crianças se reúnem pelo sentimento, pelo amor como elo de integração da vida, pela relação de respeito com os outros, pela alegria, sonhos e pelas brincadeiras. Aqui é um ambiente próprio para criança. Eu tenho uma enorme esperança de que em breve nós vamos ter centenas de casas de leitura em todo o Acre”, disse o senador.

De acordo com Tião Viana, o Acre, lamentavelmente, ainda lê muito pouco. “O Acre precisa ler muito mais e aqui está plantada uma semente desse sonho. Quem consegue levar para a vida seus sentimentos de criança, quem consegue traduzir em palavras suas emoções, construindo isso em coisas bonitas, será capaz de construir um mundo novo e melhor. A casa de leitura é um grande ambiente de acolhida dessa possibilidade para o futuro”, disse. “Aqui há 76 crianças que antes não tinham aonde ir, não tinham onde nem como refletir sobre seus sonhos, sobre seus sentimentos, sobre o amor e a poesia, que são imprescindíveis à vida. É uma bela mensagem que estamos enviando ao futuro. Nossa luta agora será para a ampliação disso para outros bairros e para o interior.”

 
 
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Rio Branco-AC, 25 de janeiro de 2008
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