Viandante
O bonde do destino, da vida,
percorre trilhos gastos
pelo tempo implacável,
resoluto, eqüidistante.
Ameaça de fome,
ameaça de frio.
Verões cinzentos,
noites quentes,
diálogos ambíguos.
Viver não é melhor que sonhar.
Viver é viver, e pronto.
Lastimável é este torpor
que invade a alma atônita
em noites tórridas
para corações pequenos, gelados.
Ind’agora abstive-me,
por precaução.
Insanidade insossa.
Calmaria invulgar.
Quase não tenho pressa,
mas vivo porque gosto
e porque preciso
e porque devo.
A labareda intensa, antes,
fez-se assim fugidia, tênue.
Pensamentos que já não voam
pousaram no tenro galho do ingá.
Estar e não estar, agora,
é estar só, incrivelmente só,
apesar da companhia suave, macia,
de quem está ao lado
e pensa na felicidade,
apesar dos pesares.
Então, caminhante devasso,
É hipócrita que teima em divagar
ao redor de si mesmo...
Infelizes são aqueles mais afoitos
que buscam na liberdade
a forma única de estar só,
muito embora acompanhado...
O trem da vida passou lotado.
Foi...
Flores tristes no jirau.
Pássaros sombrios.
Pegadas de um ontem.
Rastos da meninice.
Manhãs de inverno.
Para mim, sorriu o passado.
De mim, duvidou o futuro
que se pergunta:
onde estás, ó Zé?...
Já te foste, tão cedo?
Passagem comprada.
Destino incerto.
Cadê você?
Ninguém te viu.
Ninguém te vê.
Poucos te respondem...
Vai, Zé!
Busca a essência
do que o tempo te deu de graça.
Barcos e velas.
Vidas e vindas
de um destino maduro.
Devir que se esparrama
ou se dependura cerca afora
e quase a tocar o chão...
E foram tomando corpo e mente
feito roupa no varal.
Volumosos e abundantes.
Vi e senti espasmos de felicidade.
Uma pena!
O velho urso hiberna
e dá quase a entender que
o sentido da vida é viver ao léu
feito nau desgovernada...
E cadê o trem?
Talvez um outro apanhe
o viandante vagabundo
no meio de um dia frio
que há de ser, mais tarde,
de incrédula beleza.
E as nuvens? Cadê as nuvens
da fumaça do trem da vida, o outro,
o novo, que já chegou...
Mas a fila é imensa...
E a breve e última quimera
Findou por perder-se
No fio da parca memória... |