OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Educação e história

O feminino no Brasil não pode ser apenas, como pressupõem alguns, a derivação da imagem que nos foi legada pelo ocidente. Que nós somos ocidente não há dúvida e que aqui nós experimentamos muitas coisas que fazem parte do passado do núcleo original do que hoje se chama ocidente e que antes se chamava cristandade também não deve ser objeto de dúvidas. Mas nós somos sem dúvida muito mais do que isso pela forte e inconsciente herança indígena que nos foi legada e que se apresenta de forma quase granítica nas relações sociais, conjugais, sexuais, pela consciente e dominante herança africana de que alguns se orgulham, de que outros se sustentam e de que alguns padecem. No Brasil mais profundo, ou seja, que não quer gastar dinheiro com pó-de-arroz para branquear a pele, seja ele africano ou indígena ou os infinitos matizes desses elementos com os portugueses, italianos, japoneses, alemães, etc. ainda vale uma instituição indígena: o cunhadismo. Para estabelecer relações com um povo, um homem deve estabelecer relações conjugais, sexuais com uma mulher desse povo, por isso era uma afronta não se “deitar com as índias” quando elas eram oferecidas pelos seus irmãos, pais, tios...
De posse dessa compreensão, não deve causar surpresa o fato de que a descendência africana brasileira se distinga daquela da América do norte justamente nesse fato. Lá os afro-descendentes se casam preferencialmente com outros de sua própria origem e com isso se comportam da mesma forma que todas as outras comunidades que lá se estabeleceram. Aqui, de forma contrária, existe uma tendência à mistura, mas essa mistura longe de ser um branqueamento, como queriam alguns no século XIX, é justamente a possibilidade inconsciente de ter acesso a um mundo que não o que lhe foi legado por nascimento, mas que lhe pode ser aberto pelo casamento e, principalmente, pelo nascimento de uma prole mestiça. Essa alternativa é aberta nos dois sentidos, ou seja, para os que não são considerados brancos como os seus “opostos”. Os portugueses, mestres na arte de dominar sem superioridade numérica e de força, rapidamente se aperceberam disso e fizeram da miscigenação uma “obrigação”, sempre nos dois sentidos: acesso do mestiço aos escalões mais altos da cultura e da administração coloniais (fato que é esquecido muitas vezes); acesso do branco a uma rede de solidariedade não-branca; mas também e principalmente essa mesma relação entre negros e índios. Por isso não deve causar espanto os hábitos sexuais de uma parte da nossa população, pois esse é o ponto final de uma troca de elementos culturais (mais invisível e também muito mais vigorosa que a experimentada entre brancos e não brancos) entre negros e índios que nos leva a perguntar: quanto de indígena há em tudo que nós conhecemos de afro-descendente no Brasil?

A Rainha Nzinga deveria ser mais estudada pelos alunos de segundo grau. Uma rainha guerreia. Mas muitas rainhas européias também foram de guerra, poderá ser objetado. Sim, mas ela era guerreira não apenas nas intenções do estado que ela liderou, mas também nos seus dotes físicos, habilidade de luta e combate. A primeira vez que ela se encontrou com o governante português em Luanda, ela causou furor. O governador a esperava sentado numa mesa com uma série de subordinados em pé. Na frente da mesa, como um lugar que era reservado para ela, estava uma almofada. Não havia nenhuma outra cadeira e ela estaria na contingência de ficar numa posição inferior na conversa, ou seja, falando de baixo para cima. Sem perder a majestade, ela ordena com gestos seguros e firmes que uma das damas de companhia presentes se ajoelhasse para que ela pudesse se sentar na mesma altura que o governador. Para espanto de todos, ela se expressou primeiro, num português correto (ela nunca tinha tido contato com os portugueses) com uma agilidade de expressão e uma firmeza de idéias que fizeram com que ela arrancasse um acordo amplamente favorável ao seu irmão, que na época era o rei, acordo que nunca foi ratificado pela coroa portuguesa.

Negar educação pública de qualidade é na verdade negar a ascensão de todos esses humores aos mais altos escalões da vida nacional. Se nós pressupusermos que o baixíssimo nível da educação pública não é mera obra do acaso, mas algo que foi construído para acalmar as sucessivas classes dominantes que se viam alijadas do poder no momento de uma quartelada qualquer (1889, 1930, 1945, 1964, etc) e que se acalmavam quando percebiam que seus adversários políticos não permitiriam a ascensão “daquela gente”, então, deveríamos perguntar: o que significaria ter 5 % das escolas públicas (supondo que 100% seja utópico de imediato) em pé de igualdade com as melhores escolas particulares, cuidando para que nessas escolas aja cotas e um trabalho de serviço social que garanta um sucesso equivalente entre os remanescentes das diversas classes? Em cinco anos haveria uma mudança no perfil dos alunos que têm acesso aos cursos de ponta e em vinte a mudança da classe de altos funcionários. Se não é o acaso, então, é justamente isso que se tem tentado evitar em todo o território nacional desde a abolição (nesse ponto as elites de todo o Brasil se entendem muito bem e sem precisar de nenhuma palavra). Na verdade a grandeza de um José do Patrocínio, de um Machado de Assis, de um Anacleto de Medeiros foram perdidas, pois suas idéias ainda estão apenas na cabeça de cada vez menos gente...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 25 de março de 2007
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