OPINIÃO
   PAULO COELHO

Paulo Coelho

 

OS CONTOS DOS PADRES DO DESERTO

Durante o início da era cristã, o mosteiro de Sceta tornou-se o centro de convergência de muita gente que, depois de renunciar ao que tinha, ia morar no deserto que circundava o mosteiro. Muitos dos ensinamentos destes homens foram coletados, e publicados em diversos livros. Nesta coluna (e em outras, no futuro), compartilharemos juntos de alguns destes textos.

O CAMINHO DO MEIO

O monge Lucas, acompanhado de um discípulo, atravessava uma aldeia. Um velho perguntou ao asceta:

- Santo homem, como me aproximo de Deus?

- Divirta-se. Louve o Criador com sua alegria - foi à resposta.

Os dois continuaram a caminhar. Neste momento, um jovem aproximou-se.

- O que faço para me aproximar de Deus?

- Não se divirta tanto - disse Lucas.

Quando o jovem partiu, o discípulo comentou:

- Parece que o senhor não sabe direito se devemos ou não devemos nos divertir.

- A busca espiritual é uma ponte sem corrimão atravessando um abismo – respondeu Lucas. - Se alguém está muito perto do lado direito, eu digo “para a esquerda!” Se aproximam do lado esquerdo, eu digo “para a direita!”. Os extremos nos afastam do Caminho.

A BUSCA DO SÁBIO

O abade Abraão soube que perto do mosteiro de Sceta havia um sábio. Foi procurá-lo e perguntou:

- Se hoje você encontrasse uma bela mulher em sua cama, conseguiria pensar que não era uma mulher?

- Não, - respondeu o eremita, - mas conseguiria me controlar.

O abade continuou:

- E se descobrisse moedas de ouro no deserto, conseguiria ver este ouro como se fossem pedras?

- Não. Mas conseguiria me controlar para deixá-lo onde estava.

Insistiu Abraão:

- E se você fosse procurado por dois irmãos, um que o odeia, e outro que o ama, conseguiria achar que os dois são iguais?

Disse o ermitão:

- Mesmo sofrendo, eu trataria o que me ama da mesma maneira que o que me odeia.

Naquela noite, ao voltar para o mosteiro de Sceta, Abraão comentou com seus noviços:

- Vou lhes explicar o que é um sábio. É aquele que, ao invés de matar suas paixões, consegue controlá-las.

O FATO

Matthew Henry é um conhecido especialista em estudos bíblicos. Certa vez, quando voltava da Universidade onde leciona, foi assaltado. Naquela noite, ele escreveu a seguinte prece:
Quero agradecer
Em primeiro lugar, porque eu nunca fui assaltado antes.
Em segundo lugar,
porque levaram a minha carteira, e deixaram a minha vida.
Em terceiro lugar,
porque, mesmo que tenham levado tudo, não era muito.
Finalmente, quero agradecer.
Porque eu fui aquele que foi roubado, e não aquele que roubou.

A REFLEXÃO

De um explorador do monte Kanchenjunga:

“Eu subi a montanha mais alta da minha terra, e pude ver o mundo todo que a cercava. Enquanto eu estive ali, eu pude ver mais do que consigo dizer, e compreender mais do que sou capaz de exprimir.

“Se, entretanto, eu tivesse que definir melhor o que foram aqueles momentos no alto do Kanchenjunga, eu diria: visto lá do alto, todas as coisas – rios, árvores, neve, erva - pareciam uma coisa só, e meu coração se encheu de alegria, porque eu era parte de tudo aquilo. Quando entendi isso, mesmo sozinho no alto de uma montanha, entendi que estava junto de todas as coisas desta Terra”.

 

 
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Rio Branco-AC, 25 de março de 2007
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