ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Cartas do poeta Juvenal Antunes

Lucia Pereira*

De aparência franzina, grande agilidade e eterno bom humor, Juvenal Antunes era o poeta das mais belas inspirações! Isso foi se propagando e tornando-o conhecido, sobretudo, como poeta parnasiano,
Escrevia cartas memoráveis, cheias de lirismo, humanidade, ironias e profunda inteligência. Entre tantos manuscritos guardados por vovó Madalena, deixados em poder do meu pai (Abel Antunes Pereira), ficou desse poeta maravilhoso, um universo cultural de absoluto valor.

Transcrevo, abaixo, trechos de cartas de tio Juvenal, datadas de 1924, com imagens grifadas por vovó e papai:

“Até nas frias estepes russas, após séculos de opressão, germinou e floresceu a planta da liberdade”.

“Os operários de amanhã serão a força viva das nações, porque já vão compreendendo que a maior potência do mundo é o cérebro, a cujo serviço e a cujas conquistas hão de submeter-se os braços robustecidos e as mãos calejadas pelas rudezas do trabalho”.

“Quanto às minhas farras, só podem pesar no espírito dos bodegueiros atarracados ou de velhos hipócritas e invejosos. Não posso ter com o meu nome o cuidado que têm as donzelas com sua honra convencional, nem o desvelo que têm os cisnes com as suas penas”.

Adquirindo fama de boêmio inveterado e namorador, logo cuidaram de enviar cartas aos familiares de Juvenal. Diante dos “escândalos” sobre o relacionamento com Laura. De Porto Acre / Acre, ele escreveu à irmã, em 1933, para que o defendesse perante a mãe. Nessa carta (apenas um breve trecho), ele não perdeu a oportunidade de extrapolar leve ironia:

...“Diz-lhe que ainda estou longe de viver embriagado como falam. Bebo, apenas, regularmente. Neste exato momento, sob o pretexto de que está fazendo frio, tenho diante de mim uma garrafa de “macieira”, o imortal conhaque que se intitula “fine eau - de - vie” (fina água da vida). Mesmo assim, não deixo de cumprir meus deveres de funcionário público”.

Juvenal era Promotor Público em Rio Branco / Acre. Em 1929 o poeta vivia como solteirão, bebendo, fumando, versejando, pilheriando e cada vez mais apaixonado por LAURA!

Teve alguns amores “profanos”, como a relação com Zefa, dona de uma pensão em Natal-Rn, que lhe fazia “agrados” na hora do pagamento da hospedagem. Na verdade, amava uma única mulher - LAURA! Amor esse decantado em versos até o seu último suspiro.

No Amazonas, Pará e Acre, Juvenal ganhou popularidade pelas qualidades da inteligência, pela efervescente oratória e os belos sonetos. Seus versos eram declamados nas escolas, calçadas, praças e bares.

À guisa dessas informações, um acreano daquelas décadas - Antônio Simplício - que se correspondia com Madalena Antunes, contava as peripécias do poeta e boêmio. Numa de suas cartas ele descreve uma acirrada discussão na rua, sobre o estado de miséria do Acre, comentando-se a desvalorização da borracha. Foram surgindo diversos questionamentos: “Buscar a independência do Acre? Incorporá-lo ao Amazonas? Deixá-lo na tutela da União”?

Juvenal interrompeu as “baboseiras” dizendo: “Nada disso tem remédio. O melhor seria devolvermos o Acre à Bolívia e pedirmos desculpas pela demora”... Fez-se um longo silêncio seguido de boas gargalhadas pelos participantes das discussões e o assunto foi encerrado.

Certa vez, entre os amigos: Almeida Couto, Sérvulo do Amaral, Normando Monte, Epitácio Guerreiro e Geraldo Ramos (todos da área jurídica do Norte), discutindo-se o inoportuno hábito de se levar crianças para festas de adultos, Juvenal, irreverente, espirituoso e fingindo-se um novo Herodes, l saiu-se com essa pilhéria: “Odeio crianças! São um grande problema a resolver. Nelas tanto pode haver o embrião de um Rui Barbosa, como o germe de um Lampião. Imagine-se quanta ternura não desprendeu a mãe de Antônio Silvino embalando-o nos braços? E a pobre mãe de Virgolino? E a mãe de... e de”... e lá saiu-se Juvenal pronunciando nomes de desafetos seus.

Àquela época, com a mudança dos Ministros de Portugal, Juvenal aproveitou-se da eloqüência dos comentários para aconselhar o português Manuel Garcia que sempre o molestava com idiotices: “Ah! Seu Garcia, se eu fosse o senhor não perderia mais tempo por aqui. Iria ser Ministro em Portugal”...

Juvenal tinha um afeto especial por Abel Antunes Pereira (pai de Lúcia Helena), filho da irmã Madalena Antunes, a quem considerava o “sobrinho dileto”. Quando escrevia à irmã, sempre perguntava: “Como vai o Abel? Continua triste por se parecer comigo? Lembre-lhe que a nossa semelhança deve ser-lhe antes, motivo de orgulho. O mal é que anda produzindo versos horrorosos só para me irritar e assassinar a divina arte de Bilac. Há poucos dias (deliberadamente) enviou-me uma carta indigna, com erros propositais para atiçar-me os nervos. Por essa última carta segue a resposta, a quem afrontou-me escrevendo Hacre em vez de Acre:

Abel:

A tua carta é sifilítica,
Muito abaixo de toda e qualquer crítica.
Só tem de bom aquele verso em ante
Em que rimas purgante com gigante.
No mais, rimas cachorro com cadela,
Bem como paliteiro com panela.
E, para zombar de mim,
Ainda escreves Acre com H!
Já tenho o braço exausto de dar bolos
Nos poetas selvagens e nos tolos.
Mas, afinal, empunho a palmatória,
Para ativar-te a ação circulatória.
És a boçalidade mais egrégia,
A negação poética mais régia!
O Parnaso vestiu luto fechado,
Por ver na terra tanto verso errado”! (J.A.)

*Lúcia Helena Pereira é sobrinha neta de Juvenal Antunes. Como o tio avô é poeta de boa safra. Vive em Natal, Rio Grande do Norte, onde é muito reconhecida e estimada. O texto é parte do 2º. capítulo da biografia de Juvenal Antunes que ela, gentilmente, está disponibilizando no site da Biblioteca da Floresta. Este capítulo será postado no site (bibliotecadafloresta.ac.gov.br) segunda-feira.

CORREIO
Tempo, tempo, tempo...
Olá, Elson: Estou às voltas com o Congresso Poetas Del Mundo (em maio - de 24 a 31), a ser realizado em Natal. Também mil coisas: serei madrinha (próximo dia 18) de minha linda sobrinha Débora e tem sido um vai e vem para Recife com ela e sua mãe (minha sobrinha Marília). Encontros, simpósios, vida social...diria tio Juvenal: ‘tudo isso não passa de asneiras, coisinhas para desviar a atenção da nossa inteligência e nos tornar burros, jumentos velhos’...
Lúcia Helena Pereira –Natal

Varal
Amigos e amigas: Adoraria uma visita de vocês ao meu blog: www.varaldeideias.com
Um espaço de Filosofia, Cultura e Política. Um Varal de Idéias onde se preserva e promove a vida. Muito agradecido e grande abraço,
Marcos Afonso- Rio Branco.
P.S: o Varal de Idéias é atualizado todos os domingos, quando é publicado também em forma impressa no jornal Página 20.

Ave, Elson Martins!
Folheando alguns exemplares da Folha do Amapá que guardo em minha estante, lembrei-me de você. Do jornalista guerrilheiro dos grandes temas e notícias publicados na Folha e que sinto muitas saudades.(...) Eu continuo por aqui, tocando o Vanguarda como posso. E parece que foi ontem que ele surgiu. No próximo 1º de maio o Vanguarda chega aos 5 anos. E é também por essa razão que lhe escrevo: gostaria imensamente de ter um texto seu sobre o Ano de 1968 em nossa edição especial.
Um grande abraço.
Aroldo Pedrosa – Mcp (P)

Rei da Bélgica
Caro Elson: Uma sugestão para o Almanacre. Depois da barba do Che, a visita do Rei.
Nos início da década de 1970 morei alguns anos no Juruá. Na época sempre ouví histórias da visita do Rei da Bélgica - Não tenho certeza, talvez o Balduíno ou o todo poderoso Alberto? Talvez um rei aposentado, mas sempre um rei. Os mais antigos de Cruzeiro do Sul devem saber dessa história. O Arquilau não vale, é muito novo.
Um abraço,

Alceu Ranzi -Florinópolis

 
 
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Rio Branco-AC, 25 de abril de 2008
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