ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Continuem invisíveis


No dia 2 de maio o sertanista José Carlos Meirelles fez um sobrevôo nas cabeceiras dos rios Envira, Tarauacá e Purus, no vale do Juruá, obtendo 1.200 fotos dos índios isolados que ocupam a fronteira do Acre com o Peru. Os chamados “invisíveis” foram vistos pela primeira vez, do alto, e reagiram retesando seus arcos contra o avião monomotor que voava sem portas (para facilitar o trabalho do fotógrafo Gleílson Miranda) sobre suas malocas.

Mesmo com a experiência de vinte anos no comando da frente de proteção aos isolados na região, Meirelles ficou surpreso com o que viu: 75 malocas onde, supostamente, vivem 500 a 600 indivíduos, com roçados de mandioca, milho, banana, algodão, urucum, amendoim e batatas em volta delas As fotos mostram que os índios ocupam a área há muito tempo sem nenhum contato com outras tribos ou com os não índios.

Para Meirelles, manter essa situação favorável aos isolados é que são elas. Após o sobrevôo, o sertanista armou barraca na Biblioteca da Floresta pedindo ajuda para analisar o material e pensar numa maior proteção a esse povo. Ele reuniu muitas horas com o secretário para Assuntos Indígenas Francisco Pinhanta, líder ashaninka cuja aldeia no rio Amônia já sente a pressão dos madeireiros peruanos na fronteira, o antropólogo Terri Aquino e o coordenador geral da biblioteca, biólogo Edegard de Deus. Como resultado saiu a proposta de criação de uma nova frente de vigilância no rio Santa Rosa, ponto da fronteira mais ameaçado.

Pelo lado da Fundação Nacional do Índio até que as coisas caminham bem, embora devagar. A Fundação reconhece a necessidade de demarcar três áreas contíguas somando 600 mil hectares nas cabeceiras do Envira, Tarauacá e Purus, mas o trabalho ainda nem começou, enquanto cresce rapidamente a pressão dos madeireiros peruanos e a presença de caçadores não índios no lado brasileiro.

A Funai mantém apenas dois postos de vigilância na região: a base do Xinane no rio Envira, chefiada pelo Meirelles, e a base do Douro no Rio Tarauacá, pela qual responde sua filha Paula. Cada uma delas conta com uma equipe de seis trabalhadores que monitoram as terras indígenas Kampa e Isolados, do Envira e do Tarauacá. Onde não existe o monitoramento a área dos isolados é invadida e eles são empurrados para terras de outros grupos já contatados no lado brasileiro.

Em 2005 Meirelles foi atingido por uma flecha disparada por um deles, cuja ponta penetrou seu rosto e saiu no pescoço. A filha Paula Meirelles também foi atacada em outra ocasião. A situação poderia ser atenuada, segundo o sertanista, com a instalação de um terceiro posto de vigilância no rio Santa Rosa, mas a Funai não planeja isso alegando falta de recursos.

Por isso a proposta foi levada diretamente ao governador Binho Marques, do Acre, que imediatamente autorizou a construção e manutenção do posto. A decisão foi anunciada esta semana e representará para o Estado um desembolso anual de R$ 268 mil no primeiro ano, podendo cair para metade nos anos vindouros.

A situação na fronteira do Acre com o Peru lembra o tempo da descoberta das Américas pelos europeus a partir do século XV. Os invasores atacavam os “isolados” da época matando-os e saqueando seus bens. Pior: espalhavam doenças como a varíola e o sarampo entre os nativos, o que provocada mais danos que os cavalos e os aços que usavam com superioridade bélica.

Como se vê, a modernidade não aplacou a maldade humana e a situação dos isolados em nossa fronteira não difere dos tempos chamados medievais. Rezo para que nossos amigos “invisíveis” escapem das mil e uma doenças que nos afligem nestes tempos frios e sombrios da vidinha urbana que levamos.

 

CORREIO

Noivado à distância
Pode ter surpreendido a alguns leitores do jornal Página 20, na edição de ontem, a notícia do noivado entre o sub-secretário geral da ONU, Carlos Lopes, que visita o Acre neste fim de mês, com a jornalista amapaense que atua em Rio Branco, Maracimoni de Oliveira. A notícia saiu na coluna social Giro Geral, assinada por Moisés Alencastro.

Carlos participará dia 30 às 19 horas, no auditório da Biblioteca da Floresta, do programa de debates “Sempre um Papo”, que tem trazido de outras regiões do país personalidades do meio cultural. Desta vez, o palestrante lançará duas obras recentes: Cooperação e Desenvolvimento Humano, e Desenvolvimento para Céticos, das 20 que escreveu ou coordenou a partir dos 22 anos de idade.

Africano da Guiné – Bissau, Carlos é sociólogo e historiador, daqueles que se preocupam com o futuro e com a qualidade de vida no planeta, apontando caminhos sustentáveis para a redução da pobreza.
No prefácio do livro Cooperação e Desenvolvimento Humano, Alberto da Costa e Silva escreveu sobre o autor:

“Ao rememorar os sucessivos estágios da cooperação internacional para o desenvolvimento, a redução das diferenças entre as nações e a erradicação da pobreza, ele nos propõe que repensemos o assunto com imaginação e audácia. E começa por fazê-lo ele próprio, com o rigor de um estudioso maduro e o entusiasmo de um jovem. E é isto o que se vai ler nesta espécie de longo e bem fundamentado manifesto, no qual o guineense de Canchungo, com o coração para sempre em sua terra, nos fala do que é e do que pode ser o mundo”.

Voltando ao noivado: como amigo e editor da Mara na Folha do Amapá, jornal que montei em Macapá nos anos noventa, pensava anunciá-lo em primeira mão, e esclarecer que o romance não é súbito como parece. Na verdade, começou durante uma entrevista que ela fez com o sociólogo e historiador em Macapá, em 2002, no famoso bar do Maguila (ver foto) na avenida “Beira Rio” diante do majestoso rio Amazonas.

Por se sentir insegura, presumo, ao entrevistar um representante da ONU, ela me pediu que a acompanhasse. Fui, bati a foto, tomei um copo de cerveja e saí, após assegurar-me que ela estava em boas mãos.

Desde então e mesmo se transferindo para o Acre em 2004 - onde exerceu a função de editora do jornal Página 20 e durante um ano produziu comigo o semanário Meu Lugar, da Prefeitura de Rio Branco - Maracimoni encontrou tempo para fazer longas viagens internacionais nos feriados, Cidades como Paris, Bruxelas, Lisboa e outras da África do Sul entraram no roteiro dessa caboclinha amazônica corajosa, inteligente e sonhadora que merece ser feliz mundo afora.

Vida longa e muito sucesso ao casal.

Nota do editor: desculpa Alencastro, por invadir sua seara. Eu não tinha como não fazê-lo!

 
 
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Rio Branco-AC, 25 de maio de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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