OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Ayahuasca (IV)

Hoje a segunda e ultima parte do texto sobre a trajetória de Daniel Pereira de Mattos, um dos principais fundadores da doutrina do Daime. Um homem que depois de ter experimentado as alegrias e agruras da vida se dedicou integralmente a obras de caridade e amor ao próximo e com isso deixou marcas profundas na cultura acreana.

Eu vi o Acre nascer (II)

Por quais ruas andou Daniel Pereira de Mattos nos primeiros anos da grave e alarmante crise acreana. Talvez não saibamos nunca (...). Mas podemos supor, com certa margem de segurança, mas também de ousadia, que certamente Daniel deveria estar entre os muitos que ficaram indignados com o exílio para o Acre de criminosos que superlotavam as cadeias Rio de Janeiro, então Capital da Republica, ou dos marinheiros condenados pela Revolta da Chibata. Em especial, para ele, já que este segundo caso dizia respeito a companheiros de farda que tão somente queriam tratamento digno na marinha. Afinal de contas, Daniel deve ter sentido na própria carne o peso do tratamento que era reservado aos negros na aristocrática marinha brasileira. Devia saber que a chibata dos almirantes feria não só as carnes dos marujos, mas principalmente a dignidade de homens que amavam a vida no mar.

Do mesmo modo é legitimo imaginar que Daniel também tenha sofrido com as conseqüências do surto de Gripe Espanhola que atingiu duramente Rio Branco e outras cidades acreanas. Uma epidemia letal trazida pelos mesmos vapores que transportavam notícias e mercadorias do mundo lá fora e que foi especialmente grave entre os moradores do final da Rua Seis de Agosto e da Rua África, segundo os jornais da época. Até porque era na Rua Seis de Agosto que Daniel mantinha sua barbearia de 3ª classe, segundo a classificação de seu estabelecimento nas tabelas de impostos municipais do principio dos anos 20. E mesmo que não tenha contraído a gripe, não pode ter escapado incólume, já que todos sofreram suas graves conseqüências nas cidades acreanas já combalidas por uma grave crise econômica que parecia não ter fim.

Por outro lado, como Daniel era músico, poeta e boêmio. Não devem ter sido poucas as noitadas em que as dificuldades da vida perdiam seu sentido e eram amortecidas pela musica animada nos forrós do Quinze e da Seis. Como não devem ter sido poucas, nem breves, as noites em que o jogo, o álcool e o tabaco eram preferíveis àquela dura realidade em que o pouco dinheiro disponível permanecia nas mãos dos poderosos de plantão e a cidade estava ainda mais dividida com a separação do “lado de lá”, a margem esquerda onde moravam as autoridades do Acre, e o “lado de cá”, a margem direita onde as pessoas viviam a vida real.

O rio Acre - que até então havia sido o caminho, a ligação e o contato com o mundo fora da floresta - agora parecia servir só à separação, ao isolamento, à condenação inexorável de que não havia mais motivos para permanecer no Acre. Uma realidade que aprisionava e não mais libertava como nos idos da fortuna da borracha. “Um igapó de rios e almas que perderam seus destinos” (A Represa, de Océlio de Medeiros), lugar dos esquecidos e abandonados por sua própria pátria.

É difícil imaginar onde terminava a crise social acreana e onde começavam as crises pessoais dos acreanos, entendidos como todos aqueles que escolheram essa terra como sua. Mas é possível imaginar que todas as crises aqui vividas naqueles anos difíceis fossem como os rios e levassem ao mesmo lugar: para o mar, agora uma lembrança tão longínqua quanto o próprio Acre.

Exemplos não faltam. A começar pelo afamado poeta Juvenal Antunes que em seus primeiros anos era gratamente reconhecido nos saraus, nas récitas e nas reuniões promovidas pela elite de Rio Branco. Período em que Juvenal era frequentemente convidado para conferencias sobre temas inusitados, como a que versava sobre “as diferentes formas de amar”, e causava impressões contraditórias nas tradicionais famílias dos coronéis decadentes e comerciantes empobrecidos pela crise.

O mesmo Juvenal Antunes alguns anos depois já era tratado como um boêmio inverterado e poeta maldito. Mesmo sendo funcionário público, recebia por exercício findo (só no final do ano, quando recebia), e por isso dependia da boa vontade do proprietário do Hotel Madrid e de outros estabelecimentos do Bairro Beirute para garantir o pão de cada dia.

Enquanto vendia poesias feitas de encomenda para os passantes que ousavam cruzar a rua 17 de novembro (atual Eduardo Assmar) em frente a “banca do Juvenal”, situada estrategicamente à sombra das mangueiras da beira rio.

Junto com o Acre as pessoas também estavam perdidas numa crise sem fim e sem perspectivas de futuro que, ao fim dos anos 20, parecia ter chegado ao seu auge, mas ainda se estenderia por toda a década de 30. Chama-me muito a atenção, e não consigo deixar de relacionar o fato de que o ano de 1937 marcou não só a morte do casal Cicarelli, depois de uma longa trajetória de prosperidade e decadência em Rio Branco, como o ano mais crítico enfrentado por Daniel Mattos em relação a graves problemas de saúde e de equilíbrio emocional.

Isso tudo torna muito difícil avaliar com segurança o que representou para Daniel seu casamento no religioso, em 1928, com a também maranhense Maria Viegas. Teoricamente esse evento poderia significar um novo alento para Daniel. Até porque nos oito anos em que permaneceram casados, tiveram quatro filhos: três meninas (Ormite, Creusolina e Nazareth) e o menino Manoel.

Entretanto, as coisas parecem não ter melhorado tanto assim, pelo menos não de forma permanente. Até onde foi possível descobrir, nos anos 30, Daniel se tornara freqüentador da “Bagunça” da Anália, no Papouco e tinha cada vez mais dificuldade de manter sua família ou mesmo sua saúde. É possível, embora não seja seguro, imaginar as dificuldades vividas por toda a família então. Depoimento de uma de suas filhas coletado pelos pesquisadores do Centro de Memória Daniel Mattos dá conta de brigas e de situações criticas de sobrevivência.

Mas talvez não seja tão importante saber o porquê. O certo é que os acontecimentos se precipitaram de tal forma que Maria Viegas não resistiu. Decidiu deixar o Acre e voltar para o Maranhão com seus filhos. Sem que Daniel pudesse ao menos desconfiar de que aquele vapor insuspeito que deixava o porto de Rio Branco, num dia qualquer de 1936, e para o qual ele acenara seu lenço, como sempre fazia para todos os vapores que passavam pela cidade, estava levando embora, para sempre, sua esposa e seus filhos, a quem nunca mais veria nessa vida.

Assim, como já disse antes, em 1937, Daniel Mattos parece ter chegado ao fundo do poço em sua trajetória acreana. E foi seu conterrâneo, Raimundo Irineu Serra, de quem era muito amigo, que o socorreu para evitar sua morte iminente.

Na verdade, Daniel parece mesmo ter morrido naquele ano de 1937. O homem que emergiu de um longo tratamento físico e espiritual, mesmo não tendo sido capaz de evitar uma recaída, parecia outro. É como se, de todo seu sofrimento interior, tivesse surgido um novo Daniel Mattos. Um homem que pôs todos os seus talentos de musico, de poeta, de marinheiro, de negro, de maranhense e de acreano a serviço da cura, da caridade e do trabalho espiritual. Um novo homem que soube se tornar mestre fundador de uma das mais importantes doutrinas do Santo Daime criadas aqui no Acre. Escriba de uma nova religião e de uma nova história.

Só uma coisa parece não ter mudado nunca em Daniel Mattos: o sentimento que cultivava em relação ao lugar que escolheu para viver. Afinal de contas foi ele próprio que afirmou com orgulho em carta enviada ao então Deputado Federal Guiomard Santos, em 1956, “... fiz minha moradia aqui com prazer e amor como se fosse na terra que me viu nascer, ‘o Maranhão’... eu sou um que conheço desde a pedra ou tijolo que foi colocado nas primeiras paredes deste castelo místico e de riquezas invejadas... Eu vi o Acre nascer”.

*Artigo publicado originalmente no Álbum “Mestre Daniel – História com a Ayahuasca” do Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus – Fonte de Luz, Rio Branco, Fundação Garibaldi Brasil, 2005.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 25 de maio de 2008
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 NACIONAL
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A