OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Educação e relativismo

Para os estudantes de filosofia, há dois problemas frente aos quais apenas os diletantes permanecem indiferentes: o relativismo da verdade e a conseqüência desse relativismo para o desenvolvimento pessoal. Por ter sido caudatária de uma visão etnocêntrica de cultura, a filosofia, primeiro na idade média com uma filosofia que não podia deixar de rebater uma imagem moralizante na natureza, em especial na natureza humana, depois com a filosofia moderna que buscou um alicerce no sujeito e sub-repticiamente numa imagem correta de cultura, moralidade e estética, quase se esqueceu da enorme diversidade de correntes que fazia da filosofia grega uma diversidade muito maior do que os nossos estudiosos poderiam sonhar. Mas hoje vivemos uma época em que vai longe o tempo em que nossos avós ainda esfregavam os olhos frente a essa “morte de Deus”. O fim da segunda guerra mudou irreversivelmente esse quadro: a última peça do edifício metafísico, que teimava em não cair, é afastado e todos se envergonham de um dia ter sonhado também com ele.

Com que novos problemas a filosofia deve se deparar? Não existe um único modelo, mas então passam a ser vergonhosos o ensino e o aprendizado, uma vez que nenhum conteúdo é mais necessário? Mas para os povos que não tinham ainda conseguido alfabetizar de fato (para a real utilização da língua) a maior parte da sua população, a festa parecia ter acabado antes da sua entrada. Claro as idéias são perigosas! Mas essa não é uma história alemã que para nós não passa de história e não lembrança? Talvez exista uma instância atávica como causa do holocausto e que deva ser sufocada e, portanto, mesmo que discutível, é compreensível, lá, o medo das idéias. Tendo essa história em mente, alguns consideraram mais prudente a não inclusão do ensino de filosofia no segundo grau, em especial da filosofia alemã. Da mesma forma, esse medo é o motivo pelo qual alguns defendem a “humildade” e a “caça” de toda a diferenciação e vontade de ser diverso, apartado, pois, dizem eles, “essa vontade de ser mais foi uma das causas”. Tudo isso é muito discutível, ou seja, nenhum povo europeu sozinho pode ser dito culpado, nem nenhuma cultura causa única. Mas o que nos parece curioso é que esse discurso se preste aqui a uma apropriação conservadora.

Um país com uma auto-estima muitas vezes baixa no que diz respeito às letras e à produção teórica não tem a menor necessidade dessa dúvida a mais. As idéias são perigosas? Então, se nega educação? Então, a filosofia vira moral? Então a inteligência se torna uma pecha? E não é isso o que se tem feito? Há dois anos numa reunião de capacitação de professores em São Paulo, um palestrante disse a uma platéia de professores de ensino médio que, caso algum aluno demonstrasse inclinação para a leitura muito freqüente de livros clássicos de literatura ou filosofia, esse aluno deveria ser considerado um problema. Como, ler é crime e perigoso mesmo para a própria pessoa? Da mesma forma, toda reunião era iniciada com a frase “eu não quero ensinar ninguém a dar aulas”. Claro, respeitar as diversidades, a individualidade do professor...que devia dar sessenta aulas por semana e ainda avaliar, planejar e pensar cada aluno... Mas o curioso é que aqueles que criavam essas diretrizes tinham os seus filhos em escolas onde não havia nenhuma dúvida quanto ao valor da cultura, de um plano de aula, de um modelo flexível de aula. Para quem conhece a estrutura de ensino público do estado de são Paulo, os últimos acontecimento são apenas uma tímida algazarra perto do que pode ser toda uma geração alijada das condições mínimas de desenvolvimento.

Claro que, depois de alguns anos nessas escolas de mentira, o resultado deve estar bem a contento para alguns: uma “animalização” que ajuda a dar força ao discurso silencioso que diz “eles não gostam de estudar” e ainda “não se deve gastar mais dinheiro com a educação”. Às vezes em que se tenta dar uma educação de qualidade com prédios descentes (como os que nós temos aqui com auditórios e escolas bem cuidadas) e com professores bem pagos uma parcela diz “é desperdício de dinheiro” ou ainda “é falta de responsabilidade fiscal”. Toda vez que se pretende dar ou tentar dar condições iguais, na forma de uma educação de mais qualidade, os representantes nos meios e comunicação daquela parcela dirá que é “farra com dinheiro público” e tentará detratar essa força política como “a pior coisa que já aconteceu” ou “devemos cuidar para que essa raça nunca mais chegue ao poder”. Mas é com segundas intenções que devemos lê-los, no caso de devermos lê-los.

O centro da educação é o professor e o aluno. Mas um prédio bem cuidado, um auditório, instalações dignas são instrumentos imprescindíveis para que essa relação se dê. Para um professor que tenha tido contato com o ensino médio público de São Paulo e se depare com a estrutura mais bem conservada, daqui do Acre, não poderá nutrir dúvidas quanto ao fato de que existem forças conservadoras que se utilizam do relativismo de forma muito maliciosa. Não é possível para esse professor não concordar com a firmação de que aquele descaso é fruto não de alguma impossibilidade material ou orçamentária, mas da falta de vontade política e da intenção deliberada de negar acesso e oportunidades para a maioria da população daquele estado. O pior é que esse referido estado funciona como modelo para muitos estados: se São Paulo não faz.... Quem pode negar que aqui tem sido diferente e que houve muitos avanços?

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 25 de junho de 2006
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