OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Floresta Escura

É dia na floresta, na nossa clareira. Mas o céu é escuro, sem o azul nativo.Antes, nem é o céu, só há nuvens de fumaça, nenhuma clara, nenhuma branca, todas feias. O céu saiu para longe, quase mudou-se, e deixou o sol escondido pra lá do horizonte, sem jeito de participar da cena. Na terra é calor, é tudo cheiro de queimada, é tudo um abafado só, que a gente sente nas narinas, nos olhos, no corpo todo, na tristeza de ver, no desgosto de vivenciar.

É dia na floresta, na aldeia que me viu crescer. Mas quase não se vê água no rio, ele está cheio de ilhas. Não se vê caminho para os barcos, para os peixes, para o ir e vir de tudo que dele depende, não se vê água para abastecer, para saciar, para molhar. A manhã perdeu a hora, uma antiga música diz que a seringueira chora. Não há chuva que dê para lavar o enredo, o céu não sorri, o sol é figurante, tudo espera, a flora, a gente, os animais, toda a moldura.

É dia na floresta, no meu lugar. Mas as matas não têm a cor de antes, minha velha conhecida, não têm a umidade que era abundante, não têm a natural originalidade, agora são projetos, certificação, algo mais adiante. O canto dos pássaros ficou distante, a lua escondida, que sai e se põe sem dar notícia aos bichos, aos peixes, aos jeitos matutos. Nesse desencontro, no desentendimento dos ventos e águas sobre a terra em brasa, surgem friagens, escurece mais.

É dia na floresta, na triha do meu caminho. Mas assim que acordo, eu que não queimei nem desmatei nem nada, e que até plantei um pouco, tenho que ver a cinza bem de frente, tenho que respirar e engolir a nuvem negra, tenho que sentir o ardor nos olhos, tenho que ouvir a versão da fumaça que vem de longe, e eu nem entendo de pedágio, muito menos nos ares, apenas conheço meu lugar, só quero navegar meu rio, percorrer meu varadouro, ser do mato.

É dia na floresta encoberta, aviões não pousam, idéias não decolam. Mas não há magia nem véu, é a realidade que escurece. Estou esperando clarear. E sempre bom estar aqui, faço juras de amor desde que nasci, há muito cravei meu varejão neste porto, logo depois que o regatão do meu pai deixou de se aventurar. Vejo tempos mudados, vejo homens que não percebem a situação, sinto o sol e a lua escondidos, mas sei que voltará o dia claro na floresta.

Ainda é dia na minha floresta. Mas eu tenho que tatear as teclas para dizer que logo mais virão as chuvas, que os ipês vão colorir nossa vida, que o rio vai pegar água, no tranco, vai parir peixes, que as matas vão recuperar algo na cor, na fauna, para perder adiante, com o encanto. Eu precisaria entender que com os pastos vêm os lucros, as oportunidades, o desenvolvimento. Que o fogo é passageiro e que respirar vai ser sempre possível, daqui a pouco, é só esperar.

 

 
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Rio Branco-AC, 25 de setembro de 2005
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