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A última fronteira Partir do Acre para Cusco pela estrada já é uma viagem possível a quem estiver disposto a encarar uma aventura radical |
![]() Marido ara a terra enquanto a esposa prepara os canteiros com torrões para cultivar o alimento |
Juracy Xangai Quem decide partir de carro desde Rio Branco no Acre até a antiga capital imperial de Cusco, no Peru, imagina partir para uma viagem quase interminável, cheia de imprevistos e surpresas. E é isso mesmo o que vai encontrar. Belezas de encantar os olhos, precipícios de gelar a barriga, cachoeiras para refrescar a alma, a pureza branca da neve, o sorriso sincero dos nativos, o sabor marcante das comidas e frutas típicas e curiosidades de toda sorte. Mas só vive a aventura quem se expõe aos riscos dos imprevistos sempre presentes. Saindo de Rio Branco pela BR-317 asfaltada e policiada, o viajante passa pela histórica Xapuri de Chico Mendes e Nazaré Pereira. Chega às cosmopolitas Brasiléia e Epitaciolândia, cidades que se fundem com a boliviana Cobija para formar um núcleo urbano movido pelo comércio, fronteiriço com sua zona franca e sacoleiros à parte. Uma passada na Delegacia da Polícia Federal para registrar sua saída do país, além de dar uma conferida para ver se não esqueceu a carteira de saúde, amarela, da Anvisa confirmando que tomou as vacinas exigidas internacionalmente. A carteira de identidade é suficiente para viajar pelo Peru, mas se quiser dar uma esticadinha a outros países andinos vai precisar do passaporte. Dali chega-se logo a Assis Brasil, onde a aventura de passar com carros e caminhões por dentro do rio Acre para chegar à cidade peruana de Iñapari já não existe mais - terminou quando foi inaugurada pelo governador Jorge Viana, o presidente Lula e o ex-presidente peruano Alejandro Toledo a ponte da integração, pérola de boa vontade para a união dos povos latino-americanos e, com certeza, oportunidade para bons negócios nos campos do comércio e turismo esportivo e cultural. Ali se trocam reais por dólares ou soles - o ideal é fazer uma reserva das duas moedas, já que as pequenas localidades nem sempre recebem pagamento em moeda americana. Passe pelas oficinas da imigração e da Polícia Nacional, se vai de carro uma cópia dos documentos dele devem ser entregues no posto da aduana. Pronto. Toma-se uma inca-cola ou cusqueña antes de seguir viagem rumo a Puerto Maldonada passando por várias cidades e vilarejos como Ibéria onde está o acampamento principal do consórcio Conirsa que constrói a Estrada do Pacífico ou Carretera Interoceanica (ligação do Pacífico ao Atlântico) como preferem dizer os peruanos. Trinta quilômetros mais adiante e está o povoado de San Lorenzo pouco antes da graciosa ponte de concreto construída sobre o rio Tahuamanu. Dali vem Alerta, Alegria, Planchón, Mavilla até chegar a Puerto Maldonado. Ali os mais arrojados encaram o desafio de descer o barranco para embarcar seus carros nas pequenas embarcações, ou espera uma das grandes balsas para atravessar os 700 metros do rio Madre de Dios é o mesmo Madeira que passa em Rondônia. Um guindaste localizado a pouco metros do porto e os operários confirmam o trabalho de construção da ponte metálica que logo estará facilitando a passagem por sobre o rio. Ecoturismo Todos os dias desembarcam em Maldonado turistas vindos de todas as partes do mundo, com destaque para os Estados Unidos, Itália e Japão. Eles vão se acomodar nos hotéis de selva e viver dias de aventura nos bosques, rios e lagos da região, especialmente no Parque Ambiental de Tambopata. Ali eles se abrigam e pousadas feitas de paxiuba e cobertas de palha que contam com banheiros e cozinhas modernamente limpas. Escolhido o tipo de passeio ou animais que pretendem observar no ambiente, sejam macacos, araras ou ariranhas, partem orientados pelos intérpretes e nativos que moram e tudo conhecem da região. Pagam de 300 a 500 dólares por dia de visita à floresta onde se arranham, caem e levam picadas de insetos, mas partem levando felizes recordações. Dá para aproveitar a noite nos bares, restaurantes e pizzarias, principalmente nas boates onde há muita animação e belas “chicas”, conforme a preferência. Saindo cedo de Puerto Maldonado há um longo trecho com poucas vilas ou cidades, mas a viagem é tranqüila sobre uma pista de cascalhos soltos, rodeada por florestas preservadas. Passados três ou quatro vilarejos chega-se ao sopé da primeira serra, a partir daí a buzina é o instrumento mais tocado para evitar “encontros” desagradáveis na pista estreita com suas curvas fechadas ladeadas por altos barrancos. Transpondo pela ponte estreita a garganta del diablo, do outro lado está a capelinha do Señor de la Cumbre onde, por tradição e fé, os viajantes oram pedindo proteção durante a viagem. Está num alto mirante tendo aos pés a floresta verdejante a perder de vista, oportunidade para belas fotografias. Um pouco mais acima está o rio Dois de Maio cujas águas murmuram por socorro enquanto passam por entre as pedras. É que logo acima, à esquerda se vêem imensos montes de cascalho com mais de 30 metros de altura. São retirados pelos garimpeiros que destroem os morros, poluindo as águas com mercúrio enquanto o cascalho aterra, mais abaixo, o povoa de Huepethue, que miseravelmente, ostenta o título de capital do ouro no Peru. Paisagens Apesar de tudo, o rio continua encantador. Dali a uns quatro quilômetros chega-se a Mazuko, onde há hotel, pizzaria e polleteria para o viajante descansar e refazer as energias. Ali está o segundo acampamento da Conirsa que constrói a Cerretera Interoceanica. Com as obras em andamento, os próximos 60 quilômetros entre Mazuco e Quincemil só está liberado ao tráfego entre as seis da noite e as seis da manhã. É um dos trechos mais encantadores da viagem, com muitas cachoeiras à beira da pista que corta as serras escarpadas. A partir de Quinze mil a floresta vai encolhendo em tamanho até ficar assim com metro e meio ou dois, as montanhas cada vez mais altas e os precipícios também. Aos poucos da mata vai raleando para dar lugar à grama e líquem que recobrem as montanhas onde pastam ovelhas, vacas, cavalos e as encantadoras lhamas, camelos da América do Sul. Lá não há árvores nativas. Vales profundos e montanhas que arranham o céu convidam a fotografias junto às lhamas e aos moradores nativos, sempre sorridentes, mas nem todos falam espanhol, só dialetos locais, então retribua a simpatia que eles demonstram para com os brasileiros e, se tiver lembrado, distribua alguns bom-bons (caramelos) e biscoitos (galletas) aos adultos e, principalmente, às crianças. Águas quentes Uma subida quase interminável leva à cidade de Marcapata, capital da pimenta, onde igualmente quentes existem três banhos públicos com a água fervente que brota das rochas, um atrativo à parte. A simplicidade dos nativos, com suas roupas típicas, e a igrejinha construída de barro e pedra, a pracinha com a estátua da tourada andina marcada pela luta entre o touro e o condor, da qual um deles sai morto. Tudo emoldurado pelas montanhas escarpadas que teimam em barrar as nuvens. O mercado, em frente à praça é uma boa pedida para comer antes de seguir viagem, isto se não for seduzido por tomar um confortante banho em águas aquecida pelo coração da terra. Señor de la Cumbre - Continue subindo e o deserto estará cada vez mais presente. Tome seu chá de coca ou um dos comprimidos contra o mal das alturas, pois estará chegando a Huallahualla, a 4.785 metros acima do nível do mar, onde há pouco ar, o que impede movimentos rápidos. Tonturas, enjôos e falta de ar são comuns. Não se assuste. Beba água e aproveite para reforçar sua fé orando no santuário do Señor de la Cumbre (Cristo das Alturas) e, como os nativos, empilhe algumas pedrinhas pedindo proteção para a viagem e à família que ficou em casa. Uma olhada nas montanhas cobertas de neve e na chácara que fica logo abaixo, porque há quem viva ali em condições tão inóspitas. Agora é só descida passando por vários povoados, outras fontes de água quente, paisagens estonteantes até chegar a Ccatcca onde está outro acampamento da Conirsa, mais máquinas e homens trabalhando apressados na construção de pontes e asfaltamento da pista. Daí chega-se a Urcos e, pouco mais de 50 quilômetros depois estará entrando na magestosa cidade de Cusco, patrimônio histórico da humanidade. A cada passo há uma história relacionado aos feitos do império Inca ou da colonização espanhola. A superioridade técnica dos incas sobre os espanhóis no que diz respeito às construções é marcante. Contudo, é impossível ficar insensível à beleza estonteante das igrejas coloniais contruídas umas junto às outras com o objetivo mesmo de ofuscar a glória do antigo império. Mas isso é uma outra história. Ao chegar, descanse para refazer-se da viagem e adaptar-se à altitude, no hotel peça informações sobre alguma agência que faça um city tour, é a melhor maneira de ter um primeiro contato pela cidade ao invés de sair batendo cabeça. O Vale Sagrado de Urubamba, a cidade perdida de Machu Picchu, ruínas de templos e balneários de águas quentes são uma boa pedida. Em tudo há beleza e história. Vale encantado Na volta para o Acre, convêm passar pelo acampamento da Cinirsa em Catcca para saber se está livre a passagem pelo vale de Ausangate, por onde será desviada a Carretera Interoceanica para facilitar o tráfego. Suas altas montanhas e vales cobertos de neve e gelo encantam o viajante acostumado ao calor tropical. Homens aram manualmente a terra em parceria com as esposas que vão arrumando o torrões para formar canteiros onde além de verduras variadas, cultivam uma diversidade de batatas, frutos como o tomate cola ou os pepinos doces, grãos como o trigo, a cevada, habas e a quínua hoje o único alimento do mundo comparado ao leite materno. As casas feitas de pedra ou adobe (tijolo de barro cru) são cobertas de palha e cercados de apriscos com as pedras juntadas nos campos onde pastam ovelhas e lhamas. Os rostos queimados pelo frio seco tornam-se morenos, mas não atrapalham o sorriso sincero com que os nativos acolhem os visitantes brasileiros. Mostram assim sua esperança na integração de nossos povos que há 500 anos tem vivido tão próximos e tão distantes. |
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