ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Elson Martins
Paula Meirelles acha que os índios arredios, que nunca viu, a reconhecem como sua protetora

Menina corajosa

Quando ela apareceu no blog do jornalista Altino Machado com ar de flor agreste, encantou os internautas. Estava vestida de branco, sentada num barranco nas cabeceiras do rio Tarauacá, no longínquo Vale do Juruá. Os olhos azuis e vastos cabelos aloirados realçavam um corpo bem feito, quem sabe de uma princesa da floresta e das águas.

Mas ela mesma tratou de desfazer a miragem, dias depois, durante a homenagem que a Assembléia Legislativa do Acre fez ao pai - o indigenista José Carlos dos Reis Meirelles. Num texto curto publicado no mesmo blog, provou que é real e tem estilo:

- Aproveitando a linguagem do autor da homenagem, o deputado Moisés Diniz, quando fala dos ”homens invisíveis”, também me senti invisível lá na Assembléia. Os jornais me viram como a filha do José Carlos dos Reis Meirelles, o que é uma honra. Mas eu queria ser vista também como a chefe do Posto da Foz D`Ouro, onde procuramos proteger os homens e as mulheres invisíveis de lá. Eles estão vivendo do seu jeito, com a sua língua, costumes, sofrimentos e alegrias.

Os “homens invisíveis” a que se refere podem ser os índios isolados da etnia Maskos, que perambulam pelas cabeceiras dos rios Tarauacá e Envira na fronteira com o Peru. Eles já acertaram o pai dela com uma flecha pontiaguda que lhe atravessou o rosto até a nuca.

Mas Paula Meirelles, 31 anos, mãe de uma garota de 13 que vive com o pai em Manaus e de um menino de 10 que mora com a avó em Feijó, não teme ser atacada. Ao contrário: quando fala, transpira coragem, decisão, escolha.

- Viver no D`Ouro, entre o fogo líquido do dia e a lentidão da noite, com seus sussurros e piados tristes, faz minha alma ficar mais leve, mais próxima do horizonte e mais livre. O D`Ouro é o meu Rio Jordão, a Canaã dos meus sonhos, a terra sem males.

O posto que Paula chefia fica acima da foz do rio Jordão distante sete dias de barco a motor, partindo da cidade de Tarauacá. Lá nesses confins ela tem a companhia de uma cozinheira e mais três funcionários da Funai, dois deles residentes numa pequena comunidade localizada alguns estirões rio abaixo. No posto hágerador de energia, lancha e radiofonia. Mas não tem televisão. Paula dorme sozinha numa casa pequena, a 500 metros da casa dos outros funcionários.

Seu tempo é largo e ela o aproveita bem: embrenha-se na mata para caçar, sobe o rio Tarauacá de canoa, até onde dá, colhe melancias na praia... Já encontrou rastros, cascos de jabuti e flechas esquecidas pelos índios “invisíveis”. E ouviu índios soprar. Mas nada a assusta. Aos domingos, recebe a visita do velho amigo José Sena, de 90 anos, que sai de sua comunidade para jogar baralho com ela. Dele ganhou dois colares com oração que a protegem.

A mãe de Paula, Tereza, aposentou-se como enfermeira da Funai. O tio, Sebastião, também trabalha na Fundação há 30 anos. Até os quatro anos de idade, Paula permaneceu no posto indígena Mamuadate que o pai dirigiu nos anos oitenta, no rio Iaco.Vem daí a atração pela floresta que a fez desinteressada em fazer universidade. Concluiu o antigo segundo grau e se preparou para ser indigenista. Junto com o pai, ela protege os índios isolados dos caçadores brasileiros e dos madeireiros peruanos que invadem a floresta pelo outro lado da fronteira. A fiscalização da Funai se estende da cabeceira do Tarauacá à cabeceira do Envira

Semana passada recebi a visita de Paula em minha casa e lhe oferecei caldo de cana gelado. Fiquei impressionado com sua desenvoltura, mais ainda quando argumentou sobre a importância da floresta em sua vida. Ao encerrar a entrevista mostrei a ela meu escritório, meus livros e arquivos; ela novamente me surpreendeu dizendo:

- Eu faço um diário: escrevo todos os dias, tiro muitas fotos e leio tudo. Também gosto de plantar. Adoro flor. Em redor da minha casa cultivo um belo jardim.

CORREIO


JAPONESES

A foto acima registra o momento (1958) em que o então governador do Território Federal do Acre, Manoel Fontenele de Castro, recebe colonos japoneses que vieram instalar-se na vila do Quinari - hoje município de Senador Guiomard. A foto é do acervo particular do Chico Fontenele, um dos cinco filhos do ex-governador.

Fontenele era cearense. Nasceu em 1898 e veio para o Acre em 1922, tornando-se militar e político. De 1929 a 1945, comandou várias vezes a Força Policial do Território, transformada depois em Polícia Militar. De 1945 a 1958 comandou a Guarda Territorial. No fim dos anos cinqüenta, exerceu o cargo de governador, com Juscelino na Presidência da República. Faleceu em 1965, no Rio de Janeiro.

A colônia japonesa plantou muita hortaliça no Quinari, mas não encontrou mercado em Rio Branco para sua produção. A quase totalidade dos migrantes acabou trocando o Acre pelo município de Tomé-Açu, no Pará, onde fez fortuna com pimenta-do-reino.

CHE GUEVARA

O amigo Carlos Braga - acreano que vive no Rio de Janeiro - enviou a seguinte versão sobre a provável passagem do guerrilheiro Che Guevara pelo Acre:

“A história é que o Che chegou a Rio Branco no antigo vôo da Varig, hospedou-se num pardieiro no bairro do Quinze e foi procurar o Ariosto Miguéis, ex-jogador de futebol e simpatizante do Partido Comunista Brasileiro no passado. Ariosto teria levado Che para fazer a barba com o velho ‘João Barbeiro’, um dos fundadores do PCB, juntamente com meu avô materno. A barbearia ficava numa viela que começava no início da Seis de Agosto e ia desembocar na escadaria. passando pelo bar do Joaquim Pinto.

A barbearia era humilde, com uma porta e uma janela, e o ‘maluco’ do Ariosto a fechou enquanto o ‘velho’ João fazia a barba do Che. Só ao encerrar, Ariosto revelou o nome do freguês, promovendo um ataque de tremedeira no barbeiro.

O Ariosto me contou essa história acrescentando que foi deixar o Che na Bolívia, advertindo-o de que tivesse cuidado com os bolivianos.”

FAMA
oi elson:
não podia deixar de compartilhar com meus amigos o registro desses meus cinco minutos de fama...Recebi nesta semana esta foto. A Leila Jalul disse que se ela fosse minha irmã ou minha mãe, ela me interditava! Um abraço, Célia Pedrina.

(Obs: o par de Célia na foto é o repórter Andryo, da TV Aldeia)

 
 
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Rio Branco-AC, 25 de novembro de 2007
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