OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Sem coerência

Há um enigma qualquer rodando feito piorra sobre a minha cabeça grande e chata. Ando desconfiado até de reza braba. Apesar do progresso verdadeiramente sustentável que temos alcançado, ainda há os sicários e aplaudidores do atraso que teimam em querer mal a esta terra e a esta gente. Por que os acreanos não podem brilhar? Dêem-lhes uma estrela apenas e aí vereis quantos talentos temos, de Francisco Mangabeira a Sérgio Souto.

É preciso ver que abaixo do sol de Deus, todos são iguais e as diferenças são meros traços físicos, apenas, até porque aos negros e mulatos de cá e de lá só faltam as oportunidades. Dêem-lhes uma boa instrução e aí vereis muitos Tiões Vianas reverberando no céu dos astros tornados presidentes de não sei quantos senados desta república índia tupiniquim.

Eis, então, que o repórter chegou, conversou direitinho, foi cortês a perder de vista, serviram-lhe café, suco e tapioca. Aí, enfim, o foca acercou-se da realidade barata e simples, e gostou do que ouviu e leu.

O Colégio Estadual Barão do Rio Branco, de ensino médio, foi escolhido para representar o Acre nos exames do Fantástico, cujos resultados foram levados ao ar no dia 11 de novembro de 2007, domingo, pela Rede Globo de Televisão. No site Globo.com ainda podem ser encontrados os resultados. Dos vinte e sete representantes de cada estado brasileiro, os alunos do CEBRB ficaram em sétimo lugar na prova de Redação e em décimo quarto na prova de Português. No cômputo geral, o citado colégio ficou à frente das escolas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, de São Paulo e de Brasília. O Mato Grosso foi o grande “lanterna”.

Agora mesmo, tivemos a felicidade de enviar dois alunos a Novo Hamburgo, RS, onde participaram de uma amostra de pesquisa científica denominada MOSTRATE. É realmente bom fazer parte da história dos meninos e meninas pobres das periferias de Rio Branco. Eles têm, sim, um ideal grandioso a cumprir.

Mas o moço, bom escriba, até que se prove o contrário, escreveu no título da sua matéria que o desenvolvimento do CEBRB foi pífio, apesar de, no meio do texto, reconhecer os fatos e dados acima descritos. E nós, agora, não sabemos se faltou a coerência, irmã da coesão, ao texto, ou se o moço leu erroneamente os resultados, ou se há a intenção deliberada de tão somente denegrir imagens de gente simples que faz do dia-a-dia, na escola, uma batalha constante na busca do bem comum que é a felicidade geral dos nossos garotos e garotas destes subúrbios nossos de meu Deus.

Viver em paz com os outros deve ser até muito bom, e eu aconselho. Ruim é não viver em paz consigo próprio por causas tão esdrúxulas quanto um preconceito ridículo ou um lamber de botas sujas quaisquer.

* Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp

 

 
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Rio Branco-AC, 25 de novembro de 2007
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