| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
Stella Galvão |
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Barbárie De quem era a vez agora? Ela nem sabia mais, esgotada como estava. Não sentia mais as pernas, não se dava conta das partes todas do seu corpo. Estava à mercê. Por um momento pode respirar fundo. Logo o cordel do fogo abrasador teve reinício. Era preciso pensar em outra coisa porque morrer ela já havia desejado e nada acontecera. Por enquanto, talvez, já que se prestava a alguma utilidade para as bestiais criaturas ali reunidas. Já havia se cansado de gritar nas primeiras vezes que investiram, sem nenhum resultado. E era pior. Se gritava os outros a esmurravam e amordaçavam. Era uma menina ainda, mirrada e mas a brutalidade a tinham transformado em uma adulta. E dessas bem amargas. O olhar vago era ainda mais obscurecido pelo espaço exíguo. Ela preferia fechar os olhos e se deixar recostar em algum canto mínimo. Era assim, quieta e silenciosamente, que a vida acontecia para ela, em meio a lembranças da sua infância. Era bom pensar nas coisas que já tinha experimentado, mas as boas de verdade, como a comida da mãe, a transformação de sabugos de milho em bonecas risonhas, o balanço improvisado pelo pai na mangueira que tomava todo o quintal das casinhas pequenas. A da família dela era das menores, mas a mãe, uma mulher dura, mas ainda afetiva, tratava de deixar habitável. Tudo era muito limpo e organizado, cada coisa no canto que lhe cabia. Naquele cubículo miserável em que se encontrava agora, cercada por aqueles projetos inacabados de gente, a menina chorava em silêncio. No dia do acontecido que a fez parar no meio daquela corja humana, voltava da escola quando o menino mais danado do quintal pegou-a pela mão. Juntos correram até o mercadinho mais próximo e ele já foi enchendo os bolsos com o que neles cabia – chicletes, chocolates, um cortador de unha, leite condensado em saquinhos. Animada com a facilidade aparente, ela fez o mesmo. Na saída, deram com uma parede humana, um segurança contratado para bloquear a saída de mercadoria sem prévio consentimento. O menino se safou, escapando rápido dali. Ela ficou, as pernas bambas, o olhar paralisado. Foi mandada à delegacia mais próxima e já encaminhada a uma cela - não adiantou o pai ir falar com juiz, delegado, escrivão, carcereiro, mostrar as provas da pouca idade da filha. O delegado, o juiz, as autoridades instituídas, todos tinham uma criança crescida daquela idade em suas próprias famílias. Deram de ombros. Quem se importa com os depauperados? Até o dia em que a história chegou aos repórteres. O estardalhaço estava feito, as desculpas esfarrapadas lançadas ao léu, as ameaças de apuração jogadas aos sete mares da incredulidade mundial diante daquela barbárie. Mas o que depurar na vida daquela menina que conheceu tão precocemente o inferno, a tortura, a degradação? Ela olhava aquela moça que a ouvia, entre uma crise de choro e outra, e de repente seu delicado rosto iluminou-se com a visão de algo em cima da mesa da psicóloga. Era a Florzinha, menina superpoderosa que sorria para ela em sua placidez de boneca desgarrada das irmãs Docinho e Lindinha. A boneca logo mudou de mãos e acolheu um sorriso ainda tímido, mas capaz de mudar a expressão de dor e espanto que quase fixou moradia naquele rostinho. Havia vida nele e dali por diante. * Jornalista |
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