OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Da natureza dos potes (e seu miolo)


Índio Cacharari contando histórias da floresta

Urna funerária encontrada no Sítio Lobão (Sena Madureira)

Botijas de ouro

Em todas as partes da imensa floresta acreana existem histórias que são contadas há muito tempo, sem que seja possível saber se são verdadeiras ou não. Mas parece que isso não importa muito. O que interessa é que muitos contam e, portanto, devem ter algum fundamento.

Uma dessas histórias diz respeito a uma tal botija de ouro encantada que algum seringueiro de sorte já encontrou por ai. Eu mesmo nunca conheci nenhum que tenha de fato encontrado essas tais botijas. Mas o povo conta que em noites sem lua é possível encontrar vagando pelas matas ou pelo aceiro dos roçados uma luz que voa. Como se fosse uma bola de fogo (às vezes é dourada, outras vezes azul...) flutuando sem direção. É preciso então seguir a bola de fogo pra onde ela for até que entre no chão, mas com muito cuidado porque dizem que essa bola de fogo é encantada e pode enlouquecer quem a segue. Ao amanhecer o seringueiro deve cavar no lugar onde a bola de fogo entrou no chão porque ali é o esconderijo de uma botija cheinha de ouro até a borda.

Eita seringueiro de sorte! Enricou graças a tal botija encantada, que eu nunca vi, nem conheço quem tenha visto, mas dizem que existe... Vai saber... Só sei que tenho medo desses encantes... Vai saber...

Urnas arqueológicas

Cada diferente povo desse vasto mundo tem jeitos diferentes de compreender a vida e explicar aquelas coisas que precisamos entender. A isso chamamos cultura.

É o caso, por exemplo, da morte. Cada povo tem sua própria maneira de explicar o que acontece com o espírito das pessoas depois que morrem. Por isso, dependendo de sua cultura, existem muitos jeitos distintos de tratar os mortos. Nós, por exemplo, enterramos nossos mortos em um caixão de madeira, com as mãos cruzadas sobre o peito, debaixo de sete palmos de terra, em um lugar especialmente destinado pra isso por nossa religião.

Existem outros povos que queimam os corpos dos mortos e jogam suas cinzas no rio (como acontece na Índia), ou misturam as cinzas do morto com mingau de banana e comem como fazem os Ianomâmi. Mas existem muitas outras maneiras, tantas quantas culturas diferentes existam neste vasto mundo, porque cada uma tem que inventar seu próprio jeito de acordo com o modo como compreende o mundo espiritual.

E mesmo que a gente não entenda porque faziam isso, sabemos que muitos grupos indígenas do Brasil e da América enterravam seus mortos dentro de grandes potes de cerâmica, que os cientistas chamam de urna funerária. Alguns desses povos colocavam o morto direto dentro dessas grandes urnas e enterravam no chão com vários potes menores em volta com oferendas para que os deuses recebessem bem o morto (esse tipo de enterro direto os arqueólogos chamam de enterramento primário em urna).

Outros grupos faziam um ritual mais complicado. Quando alguém morria enterravam seu corpo dentro de casa (lembrar que o chão das malocas indígenas normalmente era de terra) e ficavam regando com água a sepultura durante alguns meses. Depois de certo tempo as pessoas sabiam que a carne já tinha se acabado e desenterravam os ossos do morto. Aí arrumavam esses ossos, junto com pertences do morto (colares, armas, etc.), dentro de uma urna grande de cerâmica e voltavam a enterrar em um lugar especialmente definido para isso (esse tipo de enterro os arqueólogos chamam de enterramento secundário em urna).

No Acre encontramos diversos cemitérios indígenas que eram locais escolhidos pelos povos indígenas para enterrar seus mortos dentro das urnas funerárias. Esses locais são muito importantes para os arqueólogos porque nos dão muitas informações sobre a cultura desses povos desaparecidos. E como os povos indígenas antigos não tinham documentos escritos essa é a única forma de conhecermos sua cultura e sua história.

Urnas e botijas

Este texto é só pra explicar que muitas vezes as pessoas acham urnas funerárias enterradas no chão e ficam loucas achando que são botijas de ouro. E pensando assim se põe a cavar pra desenterrar a urna encontrada pensando que vão enricar. Mas apenas recolhem a decepção de achar dentro dos potes de cerâmica terra ou, no máximo, alguns pedaços de ossos. O problema é que fazendo isso elas findam destruindo os vestígios arqueológicos que nos contam as histórias de povos muito antigos e desaparecidos que habitaram o Acre a milhares de anos atrás.

É importante saber, portanto, que os índios do Brasil não conheciam metais e por isso nunca vamos encontrar ouro, prata, ou qualquer outra coisa que tenha valor financeiro dentro das urnas funerárias. Essas urnas tem grande valor sim, mas é pro conhecimento e isso, todo mundo sabe, não dá pra vender ou comprar.

Se um dia você encontrar uma bola de fogo por ai flutuando e tiver coragem, siga-a e depois que ela entrar no chão, cave. Pode ser que neste lugar você encontre uma botija cheia de ouro. Mas se estiver abrindo um roçado, um ramal ou simplesmente caminhando pela mata e encontrar meio enterrada um pote de cerâmica grande, deixe ele no lugar e comunique as autoridades (IPHAN, Museus, Prefeituras), porque você acaba de encontrar um caixão de índio.

Do Blog - 21/11/2007 - Sinais do tempo

Anteontem

Nesta boca da noite tive um encontro extraordinário. Encontrei, me olhando da prateleira da estante o “Livro dos Abraços” do Eduardo Galeano. Bastou abrir o pequeno livro e logo entendi que a minha solidão não é tão completa como sempre julguei... Não sei como não tinha percebido isso antes. Talvez até tivesse, mas existe uma imensa distancia entre a percepção e a consciência e mesmo que já tivesse entendido, ainda não sabia.

Explico, Galeano me mostrou que não estou sozinho nesse gosto pelas histórias que nascem do coração e mesmo que passem pela razão elas sempre findam voltando ao coração. Estou mais calmo agora. As histórias entredentes de Galeano me abriram um enorme horizonte onde encontrei também Julio Cortazar, Gabriel Garcia Marques, Mario Vargas Llosa, entre tantos outros mestres do realismo fantástico, ou como no caso mais agudo de Galeano, mestre das histórias que guardam esse travo, ao mesmo tempo doce e amargo, do sangue latino-americano.

Por isso, é preciso reconhecer, sem nenhuma pretensão, ou como diriam os acreanos, sem nenhuma “foba”, que quero ser como eles quando crescer.

Obs.: Por que o Brasil se acha mesmo diferente (melhor) que o restante da América Latina? Não posso disfarçar meu pesar diante de nossa absoluta ignorância em relação a tudo que diga respeito aos hermanos (com exceção das estatísticas e rivalidades do futebol) nem deixar de lamentar o mútuo empobrecimento que essa ignorância nos lega... Veias escancaradas de uma Latin’América que ainda não se ama o bastante pra fazer sentido...

Ontem

Nesta outra boca da noite (sempre ela querendo me engolir) um novo encontro extraordinário. Contrariando minha natureza (bem como a lógica desses tempos de pirataria internética) comprei um CD que não tinha e nem havia ouvido antes... Trata-se do “Uma outra estação” da Legião Urbana (podem me chamar de desatualizado, mas como já expliquei não gosto muito de comprar cds) e me surpreendi de novo.

Explico, a dor de Renato Russo era tão completa e tão profunda que sempre me surpreende. Mesmo quando reescuto as músicas que escuto desde a época que estava na universidade (e tem tempo isso!)... E não consigo deixar de sentir como minha também a dor que esse cara sentia diante da iniqüidade de nossa vida pós-moderna...

Veias esvaziadas de quem ainda não ama o bastante para fazer sentido...

Hoje

Não tive nenhum encontro extraordinário, também ainda não chegou a boca da noite, mas, mesmo em meio a tanto cansaço, tenho que reconhecer que sem livros e canções talvez a vida não tivesse mesmo sentido...

Nessas horas de encontros inesperados acho que a humanidade vale a pena e nunca irá se acabar, mesmo que os seres humanos sejam varridos da face da terra por sua insensatez, ainda assim a humanidade (a pouca que ainda há em nós) não irá se acabar, porque algo há de extraordinário nela...

Memoriacre.blog.uol.com.br

 

 
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Rio Branco-AC, 25 de novembro de 2007
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