COTIDIANO

Peso cultural do Acre é zero

Estado recebe apenas R$ 330 para produzir audiovisuais. Dinheiro dá apenas para comprar uma TV de 15 polegadas

 


Montezuma Cruz
montezuma@agenciaamazonia.com.br

Brasília - O Orçamento Geral da União para 2008 dará apenas R$ 330 para a produção de audiovisuais no Acre em 2008, o valor de uma TV de 15 polegadas, dividido em prestações mensais. Pela Lei Rouanet, o estado receberá R$ 1.307, também insignificantes. Ao todo, R$ 1.667. Os projetos culturais do estado que sediou até uma minissérie da Rede Globo de Televisão passaram ao largo do balcão. Enfim, foram ignorados. O Estado de São Paulo receberá R$ 235,3 milhões do total; o Rio de Janeiro, R$ 376,1 milhões. Na região norte, a maior fatia do bolo coube ao Amazonas, que receberá R$ 8,5 milhões.

Assessores do Ministério da Cultura (MinC) informam que os valores destinados pelas leis Rouanet e do Audiovisual aos estados da região norte no Orçamento são “previsões de renúncia fiscal, baseadas na série histórica da renúncia fiscal destes estados”. Traduzindo: são valores que os contribuintes acreanos deixaram de recolher por terem investido em projetos culturais”. Ainda segundo o MinC, o investimento em projetos culturais nos estados “depende da demanda da população, que está mais concentrada na região sudeste”.

“De fato, isso é uma migalha. Fosse mesmo para adquirir uma pequena TV, os artistas poderiam recorrer ao Bolsa-Família, que vem melhorando o poder aquisitivo da população carente”, comentou à Agência Amazônia um deputado acreano.

Para esse mesmo parlamentar, não basta fazer o comparativo de população - como ocorreu também com Roraima míseros R$ 814 -, mas sim reconhecer a qualidade da produção e o interesse do País “pelas coisas da Amazônia”. O MinC discorda. Acredita que a análise de dados deve considerar a capacidade dos profissionais do setor na captação de recursos da iniciativa privada e, ao mesmo tempo, do interesse empresarial em investir na cultura com vontade.

Chico Mendes

O Acre conta um ponto positivo, conquistado pelo Comitê Chico Mendes e pela bancada. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), autorizou a publicação dos anais do julgamento do assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. No entanto, a luta dos seringueiros, a diversidade étnica dos povos indígenas, suas reservas extativistas e seus músicos vão esperar mais tempo para ser contemplados pela cultura.

No cômputo do MinC, o nordeste teve aumento de recursos de 287,5% de 2001 a 2008, enquanto o aumento para o sudeste alcançou 447,3%. Este ano, a Lei do Audiovisual receberá R$ 141,2 milhões, provenientes do incentivo fiscal, por isso, não conta no orçamento direto do ministério. A Lei Rouanet receberá R$ 856,5 milhões. Em 2007 foram R$ 661,2 milhões, dinheiro que também não entra no orçamento da casa. Na estatística do MinC, o nordeste obteve um aumento percentual de 95% na Lei do Audiovisual, justificando-se que iniciou com um valor muito baixo; o sul aumentou 130,2%; o sudeste, 162,4%; o centro-oeste, 50,7%. E o norte, 1.115%. Ou seja, não foi o norte o dono desse aumento, mas o Amazonas.

Usina de Olhares sonha com o cinema

Rio Branco – Ao montar o blog Usina de Olhares (endereço no final deste texto) na capital acreana Rodrigo Savazoni reuniu uma equipe eclética para produzir uma oficina sobre informação interativa. Em duas horas nasceram as idéias. “É um site que já nasce importante, porque essa turma é pioneira no cinema acreano”, comentou. Segundo Savazoni, a primeira geração da Usina de Arte vai expor seus projetos, sonhos e realizações.

O que se pretende fazer? Primeiramente, ser um espaço para expressão dos núcleos do curso de cinema da Usina e a organização da produção dos estudantes. Usina de Olhares quer difundir os traillers dos filmes que foram feitos no primeiro módulo do curso; debater o que já foi feito no curso, com críticas e sugestões; ser um ambiente para os professores falarem sobre a experiência na Usina.

Cidade em discussão

No entanto, entre os objetivos maiores da entidade alinham-se a discussão da cidade, seus problemas e soluções, seus mitos e suas lendas. Por exemplo, descrever, descrever ou filmar a Rio Branco, tarefa que competiria a cada um dos estudantes. Disse competiria? Sim, não se garante ainda aquilo que só será feito com incentivo financeiro. Tudo tem um custo.

Finalmente, a equipe prevê a participação na agenda cultural do Audiovisual do Acre, paralelamente a um trabalho jornalístico com os outros estudantes da Usina; o registro das experiências do Cineclube Aquiry; produção e roteirização de filmes e críticas de cinema. Como se vê, um longo chão pela frente.

A história da produção audiovisual do Acre surgiu entre as décadas de 1960 e 1970 com a criação do Cine Clube Aquiry, formado por um grupo de jovens que se dedicou à produção de filmes de ficção e documentários em 8mm. Em 1982, fundou-se a se a Associação Acreana de Cinema, que congrega e representa os interesses audiovisuais no estado e que tem voltado a sua atenção para a produção, exibição de boa qualidade, qualificação e difusão do cinema e do vídeo. O estado também possui a Associação dos Documentaristas do Acre.

Até então, organizações não-governamentais têm colaborado muito, entre as quais o Centro de Antropologia e Antropofagia do Cinema, fundado em 2001 com o objetivo de desenvolver ações culturais voltadas para as linguagens do teatro e do cinema como meios de formação e informação de público. Destaca-se ainda o Circuito Documentário, numa parceria da associação com o Governo do Estado, por meio da Fundação Elias Mansour. Iniciado em 2005, o projeto leva a linguagem do cinema documentário aos mais variados públicos, com sessões semanais no Theatro Hélio Melo.

“Cinema acreano vai crescer”

Em 2007, a diretora, pesquisadora e produtora Beth Formaggini ministrou oficinas de produção e pesquisa em cinema na Usina de Arte João Donato, promovida pela Secretaria Estadual de Educação ea Fundação Elias Mansour. Atuante no Rio de Janeiro, ela esteve pela segunda vez no Acre, oportunidade em que apresentou seu documentário que retrata os 21 anos de trabalho do Grupo Tortura Nunca Mais.

Em entrevista à Agência Acre ela lembrou da análise de roteiros produzidos nas oficinas anteriores e transmitiu aos alunos a linguagem do cinema. Como está sendo a experiência de trabalhar cinema no Acre? “Uma experiência muito rica: primeiro que a Usina de Arte João Donato é um espaço maravilhoso para criar, discutir e produzir. Uma turma muita interessada tem trazido muita coisa, porque você ensina a partir da experiência dos alunos. É uma interação entre o que você, como formador, conhece, e o que os alunos trazem de conhecimento. Eles têm exposto projetos muito bons”.

Sobre o audiovisual no Acre, Beth defendeu o direito de “todo mundo produzir imagens, contar suas histórias”. Também justificou a necessidade de acesso a um equipamento de qualidade, a capacitação e a instrumentos. “Já existe um cinema local. Na minha primeira vinda ao Acre eu trabalhei com esses profissionais que desenvolvem cinema no Acre. O Acre vive um momento muito bom, e uma das matérias-primas do cinema é a cultura local. Aliando a essa cultura local a novas tecnologias e a capacitação isso vai gerar um bom caldo. O cinema acreano vai crescer muito”. (M.C.).

 

 
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Rio Branco-AC, 26 de março de 2008
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