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José Cláudio Mota Porfiro * |
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A falsa modernidade Em épocas tão drásticas, findo por afirmar que os últimos sábios já se vão. O saber já não é imprescindível, como há três ou quatro décadas. Na modernidade, a sabedoria perdeu o sentido. Os homens cultos morrem hoje e daqui a pouco. Aqueles primeiros capítulos de Provérbios, do livro sagrado, não mais têm interpretação acurada, uma vez que ter conhecimento real do mundo e das suas vicissitudes e alternâncias significa quase nada. Pior é que aqueles poucos que lerão estes escritos hão de achar-me ultrapassado, caindo pelas tabelas. Em verdade vos digo: nós nos temos empanturrado da falsa cultura hodierna. O paradigma cultural, nos dias que correm, vem sendo sobrepujado pela indústria do entretenimento e pela propaganda de ponta. Adquirir a recém lançada bugiganga eletrônica virou necessidade premente, pelo menos para a pequena burguesia aparvalhada que se acotovela no shopping com a mera finalidade de apenas adquirir o último celular que lhe deixa a vida atônita e espantosamente devassável. Nicolau Sevcenko, o crítico, diz-nos que essa cretinização coletiva pode ser chamada, em bom português, de mediocracia pluripartidária ao aliar os conceitos de mídia e de mediocridade. Soberbo! Observemos que, há um tempão, investimentos maciços vêm sendo feitos em favor da área científica em detrimento das humanidades. Quiseram acelerar o desenvolvimento e reinventaram essa geringonça chamada futilidade humana. Eis a representação distorcida da cultura na modernidade. Nos anos sessenta e setenta do século passado, ocorreu o gigantesco ataque contra as ciências humanas. Não mais se viu utilidade alguma no estudo das línguas clássicas, da filosofia, da literatura greco-romana, da estilística, da filologia românica, da música... E foram sendo formados profissionais “de nível superior” pensantes tão somente neles próprios; o humano que vive ou vegeta ao seu lado que coma poeira. Eis então que, passados poucos anos, a cólera dos extremistas que ditam as regras da era do consumo guloso se volta contra as universidades. É, sim! Os grandes mantenedores da instrução das nações periféricas - FMI e Banco Mundial - não querem ver o terceiro mundo competindo com as nações que devoram as demais. Aos pobres restam apenas as migalhas do banquete dos ricos. Se negros e mulatos tiverem educação de qualidade, não será difícil, em pouco tempo, sobrepujarmos os tigres asiáticos, os ursos da América do Norte e o preconceito europeu. Conheci meus velhos mestres, muitos deles já mortos, através das aulas na Academia, através dos livros. Insuspeitos, houveram por bem dizer a mim que a função inalienável da instituição universitária é impedir o monopólio do saber por qualquer linha de pensamento ou doutrina. E o crítico nos diz que é papel da Universidade “manter a cultura como espaço de debate aberto, arejado e fluído.” Ora, todas as contribuições são analisáveis. Nenhum conceito está pronto, posto que todos têm amadurecido desde sempre. O muro ruiu, é certo, mas o marxismo, por exemplo, não morreu e, ao contrário, rejuvenesce a cada dia, a cada tese, porque ainda há os que fazem o certo quanto partem da teoria sólida que enseja a prática produtiva. Buarque, ex-ministro, calou os desavisados ao dizer que, hoje em dia, a juventude que habita os campi universitários não mais debate, não mais reivindica. Os nossos futuros homens de ciência perderam, inclusive, a fímbria contestatória tão natural aos mais moços. Se hoje houvesse um golpe de estado, sequer teríamos a força dos audazes que um dia foram às ruas para apanhar ou morrer nas mãos dos tiranos. Ademais, é como disse Sócrates aos sicofantas: “Creio no mesmo que vocês, só que diferentemente e noutro sentido”. Condenaram-no! * Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp; pesquisador do DFCS/UFAC |
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