| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
Francisco Gregório Filho * |
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O nascimento das estrelas Há muito tempo... Na época dos avós de nossos avós... Numa aldeia na região central do Brasil... As mulheres reunidas... Decidiram preparar aquela comida que só os homens podem comer... Decididas saíram atrás do milho... Milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podem comer. ...as mulheres carregando seus vasilhames vazios andaram... Andaram... Andaram e não encontraram nenhuma espiga de milho... Sequer um grão de milho... Milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podem comer... Retornaram as mulheres com suas panelas, potes, mochilas, peneiras, bacias, malas, baldes, jamaxins vazios... ... Reunidas, as mulheres decidiram convidar aquele menino da comunidade, o mais peralta, o mais travesso, o mais traquino, quem sabe ele não as traria sorte... Convidaram e o menino topou! As mulheres e o menino, mais os vasilhames vazios saíram atrás do milho, milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podem comer... ... Andaram... Andaram... E chegaram a um milharal... As mulheres e o menino encheram os vasilhames vazios com as espigas de milho. Milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podem comer. Carregados foram para a casa de uma das mulheres e descarregaram as espigas de milho no assoalho da cozinha. As mulheres debulhavam... E as mulheres ralavam... E as mulheres mexiam... ... E o meninos com o dedo pelas beiradas dos vasilhames tentava provar... Experimentar... Aquela comida que só os homens podiam comer. E as mulheres batiam com as mãos nos dedos do menino e diziam: - Sai menino!... Sai menino... Sai menino... Que menino só serve pra atrapalhar... Na hora de dar sorte menino serve, mas na hora de experimentar, provar aquela comida que só os homens podem comer... Menino só serve pra atrapalhar... Menino saiu... Menino pensou... Pensou... pensou ... Menino foi ter com os colegas. ... Menino convidou os outros meninos para buscarem o milho... Milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podem comer... Os meninos toparam e foram até um bambuzal e cortaram as canaletas ocas de bambu e carregados saíram atrás do milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podem comer... ... Logo, logo os meninos alcançaram um milharal e encheram as canaletas ocas de bambu com as espigas de milho... Milho tão necessário para o preparo daquela comida que só os homens podiam comer... Regressaram carregados com as canaletas cheias e chegaram à casa da avó... A avó sentada à porta da cozinha olhava... Olhava... Olhava... Mirava. Os meninos despejaram as espigas de milho no assoalho da cozinha da casa da avó e correram a pedir: - Vó, prepara aquela comida que só os homens podem comer!? Prepara pra nós, vovó!? A vovó pensou... Pensou... Pensou... Pensou e respondeu: - Faço, faço, faço! O papagaio no ombro da avó repetiu: - Faço, faço, faço! A avó e os meninos foram para a cozinha e... Debulharam as espigas de milho... A avó debulhava... E os meninos debulhavam... A avó ralava... E os meninos ralavam... E a avó mexia... E os meninos mexiam... E a avó mexia... E os meninos comiam E os meninos comeram... Comeram... Comeram... A avó sentou-se novamente a porta da cozinha e olhou... Olhou... Olhou... Os meninos perceberam, a avó contaria o ocorrido na cozinha da casa às mulheres... As mães quando essas chegassem. Então, os meninos pensaram... Pensaram... Pensaram... E decidiram cortar a língua da avó. Por sua vez a avó assustada gesticula desesperadamente... E foi ai que eles intuíram: - A avó vai contar com os gestos, com os braços e as mãos! Então os meninos cortaram os braços da avó! O papagaio gritou: Eu vi, eu vi, eu vi... Os meninos não tiveram dúvidas: Cortaram a língua do papagaio! E o papagaio movia as asas... E os garotos cortaram as asas do bicho e correram para o quintal da casa da avó e assobiavam... Assobiavam... Assobiavam... E veio do céu um pássaro esbelto e colorido... E veio vindo... E veio vindo... Até ficar bem próximo... E eles pediram: - Passarinho pegue a ponta desse cipó e leve bem no alto, lá no céu... Ao encontrar uma árvore frondosa do tronco grosso... Amarre com um nó bem forte a ponta do cipó! O passarinho subiu... Subiu... Subiu... Com o cipó preso no bico e chegou ao céu... E viu uma árvore robusta e amarrou o cipó de maneira segura envolta do tronco grosso. Os garotos do quintal da casa da avó começaram a subir pelo cipó... E os meninos subiram... Subiram e as mulheres vindo... E as mães chegando... Chegaram... E tomaram conhecimento do ocorrido na cozinha rapidamente saíram atrás dos filhos e os avistaram subindo o cipó. Furiosas gritaram: - Desçam já daí que já vamos castigá-los! Vamos desçam já! Desçam que vamos castigá-los... Os meninos apressaram a subida e as mulheres, as mães gritaram ainda mais: - desçam já que vocês serão castigados! Desçam... Desçam! Mas os meninos subiam com mais pressa... Elas perceberam então, que eles não desceriam e chorosas pediram: - Desçam daí que nós queremos vocês...desçam...desçam... Nós amamos vocês... Nós amamos... Os meninos já estavam pertinho do céu... e não ouviram as mães pedirem, não ouviam as vozes das mulheres... E na beiradinha do céu olharam para baixo e viram as mães, as mulheres que subiam pelo cipó atrás deles Então os meninos pensaram... Pensaram... Pensaram e não tiveram dúvidas... Cortaram o cipó ! ... E as mulheres... As mães despencaram na selva transformadas em feras... Os meninos olharam... Olharam... Olharam... Olharam... Cerraram os olhos, abriram... Tornaram a cerrar... Abriram... Cerraram os olhos... abriram E até hoje, estão no céu piscando. Perplexos e piscando, piscando indicando nossos caminhos... (mito contado pelos povos Bororo no território do Estado do Mato Grosso) |
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