OPINIÃO
   OPINIÃO


Marlúcia Cândida *


Marcelo Murilo**

Para que arquitetos?

O Acre vive um momento pleno de transformações com perspectivas positivas para um desenvolvimento sócio-econômico que, se Deus quiser, será sustentável e prosperará. Os benefícios deste desenvolvimento serão ainda maiores se houver a participação ativa da população local. Portanto, é imprescindível que nos preparemos para sermos partes importantes desse processo. As nossas cidades precisam de profissionais para manusear as peças que movem o seu dia-a-dia. Profissionais hábeis para projetar os edifícios, o sistema viário, as praças, os parques, os equipamentos urbanos, enfim tudo aquilo que é necessário para o bem -estar dos seus usuários.

No texto Cidade brasileira: uma ou muitas, Raquel Rolnik fala que o campo da pesquisa sobre as cidades brasileiras nos dias de hoje é multidisciplinar mobiliza geógrafos, urbanistas, economistas, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, administradores e historiadores. Eu acrescentaria que o urbanista deve ser também um agente da arquitetura. Pois, ao longo da história, todo processo de transformação sócio-econômico, toda grande idéia de construção e de revitalização das cidades, até mesmo as mudanças que implicam no comportamento humano, também se faz presente a figura do arquiteto. O arquiteto foi e sempre será aquele que tem olhos para enxergar e mãos para desenhar.

 

A arquitetura sempre se fez presente ao longo do desenvolvimento das sociedades humanas. Sua presença se faz perceber pelo resultado do trabalho do arquiteto e pelo significado que cada obra arquitetônica traduz. Talvez seja por isso que a arquitetura sempre esteve relacionada às concepções de mundo e sociedade vigente em cada época. Ora, o mais antigo modelo de pirâmide, a “Pirâmide de Degraus”, erigida ainda no início da III dinastia egípcia, durante o reinado de Djoser, fez conhecer o nome de Imhotep como inventor da “arte de construir em pedra talhada”. Após a frustrada tentativa de invasão persa à cidade de Atenas, no século V, os templos gregos renasceram pelas mãos Ictino, a quem Péricles confiou o planejamento e o traçado dos templos que tinham sido incendiados e saqueados pelos persas. É nesse contexto que o Partenon, situado na Acrópole de Atenas emerge. É claro que a autonomia e a relativa liberdade de criação presente na arte grega, colaboraram para que se pensasse a arquitetura da Antigüidade clássica em termos estéticos; mas tamanho avanço não pôde ser verificado entre os construtores da era medieval que a precedeu. O construtor passou a ser visto não na dimensão da força de sua obra, mas sim como um mero artesão a serviço da igreja. As basílicas e catedrais construídas ao longo dos séculos VI, XII e XIII contribuíram para a solidez, a militância e triunfo da igreja cristã católica, numa época que antecede ao movimento reformista de Lutero. A busca pela criação de novos modos de harmonia e beleza resultou na instauração de uma nova atitude frente aos processos de criação que o século XV inauguraria: o estabelecimento do diálogo entre antigos e modernos. A adoção dessa nova postura trouxe à cena novamente a figura do arquiteto. Quando Filippo Brunelleschi aceitou o desafio de construir a Cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiori, em Florença, seus olhos voltaram-se para Roma. O resultado disso foi o surgimento de um estilo renascentista de construção; cuja riqueza foi se consolidando em função das contribuições de outros artistas de sua época, tais como Leone Battista Alberti, responsável pela Igreja de Sant` Andréa, em Mântua, projetada no início da segunda metade do século XV e Donato Bramante, criador do Tempietto de San Pietro in Montorio. Quando Luís XIV resolvera que o grande projeto de seu reinado seria a conclusão de seu palácio, teve que convocar um grupo de arquitetos capazes de relacionar a imagem do rei à personificação da glória, esplendor e poder, típicos das monarquias absolutistas do século XVII. Enfim, mergulhar no mundo da arquitetura seria, em linhas gerais, iniciar-se no mundo da criação. Os sonhos, vontades e desejos humanos ainda hoje, também ganham materialidade por meio da ação de arquitetos, pois a arquitetura é uma das marcas da dimensão material da arte. Ela mergulha no mundo concreto revelando cada sociedade como sendo rica em significado e cultura.

O arquiteto e urbanista é importante para planejar e organizar os espaços que são usados pelo homem. O que seria das cidades sem o arquiteto? Como seria Brasília sem os ideais de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer? É admirável o traçado urbano da capital brasileira, assim como as super-quadras residenciais com os edifícios destinados as moradias servidos por edifícios comerciais – super-mercados, padarias, farmácias, lojas, bancas de revistas, posto de gasolina, prestadores de serviços, igrejas ou templos, escolas, academias, restaurantes, parques, clubes. Ou seja, tudo o que é necessário ao dia-dia dos moradores de cada super-quadra, com as vias de pedestres que interligam uma super-quadra a outra e uma arborização que parece até invadir os prédios, que proporciona uma qualidade de vida umedificando o ambiente árido de uma cidade construída na região de clima muito seco do Brasil.

Outro exemplo de cidade cuja intervenção dos arquitetos agregou grande valor a qualidade de vida com estética é a bem sucedida é Curitiba. Na década de 60, o plano Preliminar de Urbanismo proposto pela Sociedade Serete e por Jorge Wilheim Arquitetos, apresentou um plano de melhoria da qualidade de vida urbana da cidade (www.ipucc.org.br). Curitiba sempre mantém este padrão vida porque conta com o zelo dos arquitetos. Um nome respeitável por isto, é o do arquiteto, urbanista e ex-prefeito Jaime Lerner.

E, o que dizer das obras governamentais e não-governamentais bem sucedidas no nosso estado se não fosse o olhar e o traço do arquiteto? E ainda, como se buscaria recursos para implantação dessas obras se não fossem os projetos elaborados e assinados com a ajuda dos arquitetos?

Olhando para o presente e para o futuro, muitos parques semelhantes ao da Maternidade poderão surgir, assim como os teatros, os novos traçados viários com duplicação de avenidas decoradas com equipamentos urbanos - floreiras, luminárias, bancos, jardins, paradas de ônibus, passarelas e outros equipamentos. A sociedade vai continuar demandando escolas, praças, mercados, prédios residenciais e comerciais, hotéis, centros de lazer e cultura, shoppings centers, cinemas, bares, restaurantes, indústrias e até mesmo novos aglomerados urbanos e rurais. O nosso patrimônio histórico e cultural precisará dos arquitetos para preservá-los. As nossas áreas de preservação na floresta também precisam do olhar e das mãos do arquiteto para preservar não só a fauna, a flora e o homem, mas a sua maneira correta de habitar a floresta. Eu digo, valorizando o rico conhecimento das construções tradicionais dos seringueiros e ribeirinhos, que é o objeto de estudo da minha dissertação de mestrado.

Portanto, precisamos formar arquitetos e urbanistas. Profissionais capazes de confrontar o contemporâneo com o regional. Isto é, olhar para o regional e propor intervenções para o homem contemporâneo. Profissionais comprometidos com o meio ambiente, ou seja, arquitetos ambientalistas, paisagistas e amazônicos. Formar profissionais para iluminar e decorar o micro e o macro ambiente, projetar objetos como mobiliário, utilitários e peças de decoração com a nossa matéria prima as madeiras, as palhas, as raízes, as sementes, etc. Arquitetos escultores, pintores, gourmerts, por que não? Tudo é possível ficar belo e bem planejado nas mãos do arquiteto.

O Acre precisará de arquitetos e urbanistas que conheçam a nossa história, o nosso clima e a nossa gente para ajudar os prefeitos acreanos a implantar o Estatuto das cidades, os Planos Diretores de Desenvolvimento Urbano, os Códigos de Obras, os Códigos de Posturas, enfim tudo o que visa o bem comum dos cidadãos.

O arquiteto tem o compromisso de proporcionar beleza, harmonia e organização no cotidiano do povo acreano.

O curso de Arquitetura e Urbanismo da UNINORTE termina no final do mês o primeiro semestre das primeiras turmas. Queremos e faremos de tudo para que o Acre seja visto como um estado planejado e cuidado por arquitetos formados também por nós. Faremos parte da construção da nossa história. E, se depois de sermos arquitetos acharmos que o que foi dito foi pouco, a nossa formação nos permite visão ampla para continuarmos sonhando com a edificação multidisciplinar de um mundo melhor e mais agradável para todos sem deixarmos de ser arquitetos.
Portanto, eu falo sobretudo de um promissor mercado de trabalho.

* Marlúcia Cândida de Oliveira Neves é arquiteta e mestre em arquitetura pela UNB, trabalha como coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNINORTE.
** Marcelo Murilo é historiador e mestre em Educação, professor de Estética e História da Arte no curso de arquietura e urbanismo da UNINORTE.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 26 de junho de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A

 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE 20
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL