OPINIÃO
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Sandra Starling *

 


O gosto do eleitor

Nesse último domingo pude fazer uma caminhada no Parque da Cidade, em Brasília. Para quem não conhece, o lugar é deveras bonito: pistas para pedestres e ciclistas, barras para a prática de qualquer tipo de esporte, campos de tênis, vôlei e futebol. Tudo cheio de árvores e com aqueles canteiros que só vejo nessa cidade, dentre as capitais no Brasil. Canteiros luminosos no meio da grama seca e das árvores retorcidas, autênticos exemplares da flora do cerrado. E as pistas rodeiam um lindo lago, onde patos e gansos nadam placidamente.Todos os dias há muita gente caminhando, mas aos domingos o parque fervilha de famílias.

Naquela dia ocorreu um fato novo: um punhado de pessoas carregando bandeiras do candidato a governador pelo PFL, o hoje deputado José Roberto Arruda. Entre os que carregavam bandeiras (de seda!), certamente alguns eram cabos eleitorais pagos. Mas alguns, pelo jeito, eram militantes partidários. Meu primeiro susto: nunca em minha vida vi candidato de partido tradicional tendo militantes voluntários. Segundo susto: nenhuma bandeira do PT, partido que sempre conseguiu mobilizar apoiadores para ocupar tudo quanto era espaço disponível. Terceiro susto: o tanto de apoio ao Arruda, que foi um dos partícipes de um dos mais deploráveis episódios da vida parlamentar brasileira. Falo do episódio da violação do painel de votação do Senado Federal, no processo de cassação do Senador Luiz Estevão. Aí me lembrei da explicação que ouvi quando ele foi eleito deputado, logo depois. Disseram que sua humildade, indo à tribuna confessar, sob lágrimas, o erro e renunciando ao mandato, teria sido a razão para sua vitória posterior. Mas aí me lembrei também que Antônio Carlos Magalhães, envolvido no mesmo episódio, não se mostrara arrependido de nada e só renunciou para evitar a cassação e a pena de ficar inelegível. E ele voltou lépido e lampeiro, com o balaio cheio de votos... Aliás, lembro-me que seu falecido filho, Luiz Eduardo Magalhães, uma vez me contou que para ele próprio ser eleito, bastava o pai pegar o telefone e dizer a “seus” prefeitos quantos votos cada um teria de dar a seu filho.

Não dá bem para entender. Ulysses Guimarães conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, Presidente da Câmara dos Deputados, Presidente da Assembléia Nacional Constituinte e Presidente do PMDB. Isso tudo entre 1987 e 1988, quando o PMDB surfava no prestígio do Plano Cruzado. Um ano depois, nas eleições para Presidente da República, em 1989, não obteve mais que 4% dos votos.

Já vi candidato eleitíssimo ser derrotado e candidato desconhecido acabar sendo eleito. Mas o que mais me intriga é saber o que leva o eleitor a não punir com a derrota aqueles que foram execrados, por ofensa ao decoro parlamentar, ou aqueles que foram péssimos mandatários, merecendo, por exemplo, a frase gritada nas ruas, de tempos em tempos: “é nisso que dá, não saber em quem votar”... Falo isso agora, porque inúmeros parlamentares da atual legislatura, tanto no Senado quanto na Câmara (principalmente nesta) foram processados por desvios éticos, e, embora não tenham perdido seus mandatos, as provas contra alguns deles são contundentes. Estão todos – ou quase todos – voltando a se candidatar. Para não falarmos nos casos abafados. Então quero ver em que vai dar o chamado julgamento das urnas. Espero mesmo que se faça justiça e que só venham de novo os que não foram realmente culpados de falcatruas. E que se renove o Parlamento brasileiro que anda muito pior, muito pior mesmo, se comparado com os tempos em que eu lá pude, com muita honra, representar o povo brasileiro.

* Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC)

 

 
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Rio Branco-AC, 26 de julho de 2006
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