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Maria Cristina Fernandes * |
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Por onde se cruzam Lula e Aécio O Nordeste ruma para dar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma reeleição tão consagradora quanto Minas a Aécio Neves. Lula caminha para ter a mais acachapante votação dos nordestinos desde a redemocratização, assim como o governador mineiro é a maior unanimidade já produzida pela política eleitoral de seu Estado. Dos que pretendem validar seu voto, de sete a oito eleitores pretendem escolher Lula, no Nordeste, e Aécio em Minas. As razões da popularidade de Lula entre os nordestinos são conhecidas. O Nordeste, com 28% da população do país, tem a metade dos beneficiários do Bolsa Família. É lá também que mora metade das famílias com rendimento de até um salário mínimo que alcançou seu maior poder de compra dos últimos 40 anos. As razões por que apenas 8% dos mineiros dizem que não votariam de jeito algum em Aécio parecem ir além da aritmética. O favoritismo da reeleição não é explicação suficiente. O senador Eduardo Azeredo, outro tucano que também governou Minas Gerais, foi derrotado em sua tentativa de recondução em 1998. A docilidade da imprensa mineira ajuda antes a entender por que o valerioduto nunca teve os ramais de Furnas devidamente radiografados, do que a justificar a quase unanimidade do governador tucano. É certo que seu governo é bem avaliado, mas os governadores Roberto Requião (PR) e Paulo Souto (BA) também o são e nem por isso reproduzem a mesma trajetória fulminante de Aécio nas pesquisas de intenção de voto. É seu modo de governar que abre mais portas à explicação. Para reverter a penúria financeira de Minas, Aécio reduziu drasticamente os investimentos no Estado. Em compensação, acoplou sua agenda à de Lula de maneira tão hábil que nenhum dos dois se ocupa, por exemplo, em disputar a titularidade do programa de eletrificação rural do Estado. Criou uma Secretaria do Vale do Jequitinhonha de desempenho mediano, mas a região tornou-se uma das prioritárias do bolsa família. Carlos Ranulfo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, explica por que Aécio difere de seus antecessores: “O de Itamar foi um governo político e um desastre técnico; o de Azeredo, um governo técnico e um desastre político; o de Hélio Garcia não foi um desastre por completo. Aécio fez um governo politicamente hábil e cercou-se de uma assessoria competente”. O governador de Minas deixou, definitivamente de ser chamado de Aecinho, como era conhecido quando assessorava o avô, quando arquitetou a manobra que lhe deu a presidência da Câmara dos deputados em 2001. O feito jogou por terra a tradição da Casa de levar o partido com a maior bancada - o PFL - ao comando da mesa diretora. Atribui-se àquele episódio não apenas o início das dificuldades da aliança PSDB-PFL-PMDB para a sucessão de 2002, mas o rompimento da tradição de acordos consuetudinários que esteia a crise por que passa hoje passa o Congresso . Ao candidatar-se ao governo de Minas em 2002 deu a vice ao PFL e mostrou porque é antes pelas habilidades políticas que pela esperteza que costuma ser definido. Na chapa da reeleição, acomodou o PFL no Senado e tratou de pôr na vice, o mais aplicado de seus assessores, Antonio Anastasia, que deverá, de fato, tocar o Estado se Aécio for reconduzido ao cargo. Os políticos mineiros costumam se considerar a síntese da política nacional, mas nunca foram capazes de chegar ao poder sem uma aliança para muito além da Serra da Mantiqueira. Para se transformar no nono mineiro a ocupar a Presidência. ainda falta muito para poder contar, como seus antecessores da República Velha, ou como o avô Tancredo Neves, com o apoio de São Paulo. Aécio tem sido alvo de homenagens de circuitos empresariais do Estado, mas dificilmente realizará seu projeto de candidatar-se à Presidência por um partido paulista como o PSDB. Alimenta a cobiça do PMDB com a mesma habilidade com que mantém a política de boa vizinhança com os petistas da Presidência da República e da Prefeitura de Belo Horizonte. Seu futuro vincula-se intimamente ao desempenho eleitoral de Lula no Nordeste. A se confirmarem as atuais tendências de voto, a disputa política nacional estará marcada pelo embate entre políticas públicas que desconcentrem o poder econômico de São Paulo. É uma disputa que mobiliza as elites locais porque trata da capacidade de investimento do Estado. É em nome de uma aliança política que viabilize esse projeto em 2010 que o eleitorado mineiro ruma unido para eleger Aécio e empossar Anastasia no Palácio da Liberdade. Aécio vai encontrar uma montanha de adversários pela frente. José Serra é apenas o mais óbvio. No Ceará, numa campanha tão surpreendentemente silenciosa quanto sua passagem pelo governo Lula, está o mais perigoso deles, o ex-ministro Ciro Gomes. No Palácio do Planalto, num silêncio maior ainda, está a ministra Dilma Roussef. * Jornalista, jornal Valor Econômico |
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