ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Poesia machucada

Pequeno, magro e feio. O promotor e poeta Juvenal Antunes já nem se incomodava do perfil que lhe traçavam os que não conheciam sua alma. De fato, o corpo desajeitado abrigava enorme inteligência e poesias que lhe faziam levitar. Mas somente Laura, musa e eterna amante, o tinha como príncipe encantado.

O poeta nasceu no dia 29 de abril de 1883 no engenho Outeiro, próximo à vila Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte. Faleceu em 1941, a bordo de um navio que chegava a Manaus, no dia em que completava 58 anos de vida. Era filho do tenente coronel José Antunes de Oliveira e tinha três irmãos: Maria Madalena (escritora), Exequiel (médico do Exército) e Etelvina Antunes (poetisa).

A sobrinha-neta Lúcia Helena Pereira (62), que vive em Natal, tornou-se sua biógrafa. Ela foi descoberta para o Acre pela novelista Glória Perez, que pesquisou para obter informações sobre o “poeta inolvidável” da minissérie Amazônia. Já está no prelo uma segunda edição revista e ampliada, do livro em que Lúcia narra sobre a vida, as obras, o grande amor (Laura) e a morte de Juvenal.

Tenho conversado com a escritora via Internet. Ela gostaria que o governo acreano assumisse a edição e lançamento da biografia de Juvenal Antunes. Afinal, ele produziu o melhor de sua poesia em Rio Branco na década de trinta. Embora tenha lançado apenas dois livros: “Cismas” (em 1909) e “Acreanas” (1922), o poeta deixou obra densa, grande parte em manuscritos enviados à irmã Madalena.

Recentemente, perguntei a Lúcia Helena como Juvenal teria reagido em vida, ao gesto do jovem Eyner José Andrade Almada Júnior, o Maromba Júnior, de 18 anos, que montou na estátua feita em sua homenagem, e em fevereiro publicou uma foto de proeza no Orkut, gerando polêmica que ainda está rolando, inclusive com a condenação do jornalista Altino Machado que publicou a bravata em seu blog:

Lúcia respondeu:

- Ele amava tanto a juventude! Certamente o perdoaria.

Mas poderia também, penso eu, puxar a orelha do jovem “playboi” através de seus versos, como fez com um sobrinho que lhe escreveu uma carta de Ceará-Mirim (RN) cheia de erros e preconceitos, para “desacatar a inteligência do tio” - como escreveu Lúcia Helena.

Na carta-poema resposta, escrita em 8 de julho de 1928, Juvenal diz em tom brincalhão:

Eu, Juiz, te trancaria na masmorra;
Que poeta, assim tão ruim, nas grades morra!
Violante da poesia, o santuário...
És um bandido, Abel, és um cicário!
És muitíssimo pior que o mais ladrão,
Mais bandido que o próprio Lampião!

Juvenal trocou as comodidades e prestígio do Solar dos Antunes em Ceará-Mirim, do qual chegou a ser herdeiro, pela vida boêmia no Acre. De certa forma, foi forçado a isso por um tio militar que considerava seu espírito anárquico e irreverente prejudicial à imagem da família em Natal. O militar o levou para Belém, mas de lá Juvenal escapou com a nomeação para o cargo de promotor de Sena Madureira. Em 1913, se transferiu para Rio Branco onde exerceu a função de secretário de Segurança Pública. E finalmente, permaneceu como promotor pago por exercícios findos, poeta e boêmio hóspede do Hotel Madrid, no segundo distrito.

A sobrinha-neta Lúcia Helena que aguarda notícias do presidente da Fundação Cultural, Daniel Zen, sobre a edição e lançamento de seu livro em Rio Branco, mandou-me de presente essa foto rara do tio-avô famoso, feita em 1937 durante um passeio de Juvenal à praia de Muriú, no Rio Grande do Norte.

“Pai anti-herói”

Com esse título a revista Veja da semana passada comenta, em sua seção de livros, o romance autobiográfico “O Filho Eterno”, que considera “belo e áspero”. O autor, Cristóvão Tezza, 55 anos, é um velho conhecido dos acreanos: é irmão do advogado João Tezza e tio do produtor de vídeos para Televisão, Zé Paulo, dono da Trilha Ambiental.

Na segunda metade dos anos setenta, Cristóvão lecionou na UFAC e já preparava seu primeiro livro. Este é o 14º. de sua carreira, e trata da relação do autor com o filho Felipe, de 25 anos, vítima da Síndrome de Down.

Embora membro de uma família de fazendeiros, Cristóvão costumava freqüentar a redação do jornal Varadouro (1977/1982) e dialogar com os editores. A mim, mais de uma vez, pediu que moderássemos com a expressão “Nós e Eles”, carregada de rejeição aos forâneos.

O então jovem professor informava que nos fins de semana o bairro Habitasa, onde vivia a maioria das famílias de fazendeiros, apos algumas rodadas de uísque se transformava num “vale de lágrimas”.

Parabéns, Cristóvão, por sua carreira de escritor, e nossa solidariedade pela sua condição de pai de uma criança Down.

Baderna consentida

Célia Pedrina *

São quase quatro horas da manhã de sexta-feira. Gostaria muito de estar dormindo (quem me conhece sabe o quanto gosto e consigo dormir muito, a qualquer hora), mas nos últimos tempos isso tem se tornado impossível para quem reside nas imediações do Parque da Maternidade. Tão somente por que meia dúzia de jovens desocupados, porém ricos, acham que todos nós, moradoras e moradores desta redondeza também somos obrigados a ficar acordados, durante a madrugada, para testemunharmos seus atos de puro vandalismo.

Ou não? Como podemos nomear a atitude de um pequeno grupo de pessoas que se julgam melhores que as outras, e se dão ao direito de passar todas as madrugadas com o som de seus carros disputando quem tem a melhor aparelhagem? E que para isso precisam deixar o som ligado em um volume que nos perturba?

Pior ainda, as músicas escolhidas pelos baderneiros são de péssimo gosto: tipo bate-estaca, às vezes variando para aquelas que muitos consideram “sertanejas high tech”, ou sei lá que nome se dá a estas composições. E quando eles mesmos (os bóis), se cansam da algazarra, partem para um outro tipo de disputa: testar a potência de seus carros através de “rachas” como se as vias do Parque fossem pistas de corrida.

Agora já são 03h57: ligo novamente para a PM, para o famoso 190, e tento saber se a ocorrência que registrei às 03h13 não vai ser atendida. Há quase um ano ouço as mais diferentes respostas, tipo:

1 – “Minha senhora, questão de som é com o IMAC, e a senhora tem que falar com eles durante o dia” - quando sabemos que desde a metade do segundo mandato do Jorge Viana, poluição sonora é com a SEMEIA;

2 – “Minha senhora, sua ocorrência foi gerada, mas acontece que as viaturas estão nos bairros periféricos atendendo casos mais sérios etc, etc, etc”.

A segunda resposta é a que mais me irrita, pois há um preconceito implícito de que a violência mais grave é aquela que ocorre somente na periferia. Como se meia dúzia de jovens ricos , que se acham no direito de perturbar o sono de quem trabalha honestamente, não devam também ser considerados “marginais” a partir do instante em que não respeitam as regras da convivência em sociedade.

Finalmente, para que não haja nenhuma outra interpretação deste relato, gostaria de registrar também que já conversei com o Artur, Secretário Municipal de Meio Ambiente que me informou da sua incapacidade de controle sobre esta questão, uma vez que o órgão não tem um número de fiscais suficiente para atender as demandas e que também, se entendi direito, houve uma ação judicial que deu ganho de causa para estes jovens; e que qualquer ocorrência considerada como “perturbação da ordem” pode ser pré-resolvida pelo pessoal do 190.

Também quero esclarecer que já cheguei a apelar, por telefone, ao comandante Romário, da PM, uma autoridade muito solícita e gentil, mas que também tem suas limitações uma vez que não é possível manter uma viatura, por toda a madrugada , vigiando o Parque.

A mim, como cidadã comum, não responsável por soluções, mas com direito a reclamar e dever de contribuir, pediria apenas que houvesse, quem sabe, uma campanha de esclarecimento sobre os limites aos quais um cidadão pode se valer para fazer o que bem quer. Ou então, punir exemplarmente, aqueles que dão um péssimo exemplo de abuso de seu “status”.

São 4h16 e eles continuam tomando cervejinhas, ali próximo da Casa do Artesão, conversando num tom de voz que daqui de casa posso ouvir com nitidez, fazendo do espaço do Parque um bar aberto e transformando nós em companheiros e companheiras de mais uma noitada.

* Militante e membro da direção regional do PT no Acre

 
 
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Rio Branco-AC, 26 de agosto de 2007
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