| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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José de parca poesia Para Raimundo Porfiro Soares, in memorian José, um cabra do norte E houve por bem dizer Maria José não é um só, nem é tanto. É breu, é cajá, paxiúba, feijão gurgutuba, passoca e mugunzá. Vive de sonhos precisos e reais. Já combateu o bom combate, segundo o livro de Mateus. Clamou contra a injustiça. Testemunhou o auge do tempo da motosserra e participou do ocaso da violência. Sem nenhum temor, foi aos jornais e à tribuna, quando a verdade e a liberdade davam gritos horrendos por estarem sendo tratadas a açoite por estes mundos de Deus. E o Acre? Ah, o Acre!... Talvez poucos o tenham amado tanto com um amor engendrado das mais concretas teias da realidade pulsante dos seringais e colônias, dos rios e barrancos, dos varadouros e estradas, das fontes e das vertentes. José viveu do que lhe proporcionou a força descomunal de Raimundo, o chefe e pai da sua raça, e daquilo que lhe colocou ao dispor a santa mãe natureza do seu doce e cândido e belo Rio Acre. O resto ficou fácil. José tem sangue nas ventas e vergonha para dar e vender... Veio ao mundo na primavera úmida de cinqüenta e sete. Era abril. Com grande sorte, a mãe, Francisca, o deu à luz da pacata Xapuri. Houvera falecido um moço, de nome Cláudio, no Aeroporto do Rio de Janeiro. A asa do Douglas decepara-lhe o pescoço. O tio, José, médico xapuriense, em homenagem póstuma, pediu que o mesmo nome fosse colocado no recém-nascido. É que o rapaz naquele ano concluiria o curso de medicina e a doutrina espírita aconselhava a atitude. A avó cearense, Maria, houvera feito promessa a São José de Ribamar. A parturiente já contava com trinta e quatro de idade... E o parto foi um sucesso, graças ao Criador. Depois, foi só misturar o nome do santo com o nome do morto. Uma beleza! Foi menino doente até os dois anos. Pegava quebranto, vento-caído e toda ziquizira a cada semana que Deus dava. Um dia, uma dessas afoitas valquírias - ou mariposas - que povoam os sonhos e a realidade de homens ditos casados, foi entrando casa adentro, na marra. Queria dizer oi para aquela a quem traía. De passagem pela porta do quarto, estava o Zé, aos três meses, banhado, entalcado, cheiroso. A doidivanas o viu sobre a cama e o achou tão bonitinho. E foi só... Em quinze minutos, não mais que isso, estava o bebê já escangotado e revirando os olhos. A quenga lhe colocara um quebranto tão pesado que foram meses e meses de rezadeira em rezadeira, a cada dia no médico, até que, dois anos depois, fosse-lhe alcançada definitivamente a cura. Passaram-se alguns invernos drásticos. José tinha já a saúde que tem hoje. O lombo já estava praticamente preparado para o sol-a-sol causticante da Amazônia. De manhã, ficava à porta da vivenda, ao lado dos irmãos mais novos, a apreciar o parco movimento da rua ainda não pavimentada. Ou ia para a janela. Num desses dias, ainda manhãzinha, passava pela calçada um bom moço de nome Félix Pereira. O Motinha, irmão do meio da turba, houvera jogado uma casca de mamão segundos antes da passagem do então Prefeito que caminhava e assobiava, romanticamente, apaixonado não sei por qual das divas daquele tempo. O rapaz escorregou de uma forma tão espetacular que foi dar com o lombo no cimento e as pernas para o céu. José não riu. Só lamentou a diabrura do mais novo. À tarde, José seguia os passos de uma irmã adotiva, Regina, bem mais velha, que, na própria sala de janta da velha casa, vendia aulas particulares aos filhos da elite de comerciantes e seringalistas já decadentes. Aí foi alfabetizado e aos cinco já lia de carreirinha e sabia de cor a tabuada de somar, sem titubeio ou gaguejo. Num desses dias de 1962, arregalou os olhos e ficou estatelado ante a cena. A professorinha Regina, antes autorizada por quem de direito, arreou uma vara de bambu verde nas costas de um moleque bagunceiro - filho do Café Dino - que a marca ficou tão nítida em vista dos nós do açoite. O pau bateu e o cabra soltou um berro tão estridente e lancinante que toda a rua ouviu. Aquilo era a forma de educar aconselhada pelos sisudos pais cearenses que não aceitavam mungango de menino sacana. E José, tido e havido pelos de casa como um menino muito sabido, foi adiante, sempre adiante, sem sequer ser notado pelo ocupado e preocupado pai, um caudilho que carregou a história do Acre nas costas, de barranco acima, em formas de pélas de borracha, de sacos de castanha e toras de madeira. Era, sim, um bravo. Nunca aprendeu a ler ou a escrever, mas jamais encontrou quem o embrulhasse nos acertos que envolviam, de vez em quando, consideráveis quantias em dinheiro que passava, inclusive, às vezes, por mãos não tão limpas de seringalistas e comerciantes que não se importavam nem um pouco com os que morriam ou viviam nos autos seringais enfrentando a cobra, a onça, a maleita e a hidropisia. Sem a existência dele, certamente, a saga dos acreanos da raça pé-duro não teria o mesmo brilho nem a mesma galhardia. E já estava bom demais. José já era gente. José ia ser doutor. Já sabia até ler. E Deus já começara a aprumar-lhe os caminhos... * Cronista
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