OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Os sonhos e a ciência

Na semana passada publiquei nesta coluna um texto chamado “As linhas do sonho” e deixei para hoje a explicação sobre a relação daquela história com a arqueologia acreana. Como promessa é dívida...

Já de saída é absolutamente necessário deixar claro que o texto “As linhas do sonho” é totalmente ficcional. Inventei tudo o que aparece ao longo daquela historinha. Dos nomes dos personagens aos acontecimentos ali narrados, tudo pura imaginação. A única exceção diz respeito à paisagem característica do deserto onde foram riscadas as famosas linhas de Nazca e a forma como provavelmente foram realizados estes desenhos gigantescos.

Para evitar qualquer possibilidade de relacionamento entre o texto ficcional e os estudos que foram ou estão sendo realizados em Nazca deixei mesmo de ler a enorme quantidade de material disponível na internet sobre o assunto, me limitando a buscar algumas ilustrações para compor o texto. Isso porque queria diminuir a possibilidade de que a nossa historinha fosse de qualquer modo confundida com a defesa de uma hipótese científica qualquer.

Mas não deixa de ser uma estranha coincidência o que achei na internet essa semana ao reunir material para compor o texto de hoje. Vejam só que legal...

“Maria Reiche define as linhas como um estranho depoimento e legado das antigas culturas peruanas:
‘As linhas das planícies de Nasca são nada menos que uma história documentária da ciência e dos homens de ciência do Peru pre-hispânico. Nela encontra-se registrada uma tradição científica de onde os antigos peruanos desenvolveram um abecedário para anotar os mais importantes acontecimentos astronômicos dos seus dias e as planícies de Nasca são as páginas de um livro escrito com este estranho alfabeto. Elas são o depoimento gráfico da forma como aqueles seres superiores dominaram a relação entre os fenômenos celestes e nosso planeta.’
O que se se sabe é que os antigos Nascas realizavam estranhas e enigmáticas cerimônias mago-religiosas em diversas épocas do ano. Também é crido que estes povos conseguiram uma maestria em estabelecer a relação cósmica entre os fenômenos celestes e o planeta terra.” (www.mdig.com.br e skepdic.com, dos quais foram retiradas também as ilustrações dessa semana e da passada)

Depois dessa dá até vontade de acreditar na historia que eu mesmo inventei. Mas não posso, eu sei que é tudo mentira (dito assim fica feio), ou melhor, é tudo ficção. Se fosse eu um romancista poderia então acreditar numa certa paranormalidade inerente à literatura, mas como sou arqueólogo, não posso me dar a esse luxo, apesar de adorar as coincidências da vida e achar isso tudo muito fascinante...

Na verdade as misteriosas Linhas de Nazca constituem um importante conjunto arqueológico de um povo que viveu no deserto do litoral peruano no Oceano Pacífico entre 200 a.C. e 600 d.C. e permaneceram desconhecidas da ciência moderna até muito recentemente. Só em 1927 esses vestígios pré-históricos foram “descobertos” pelo arqueólogo Mejia Xespe que acabou não realizando estudos mais aprofundados sobre o tema. No mesmo ano outro pesquisador, o americano Paul Kosok, totalmente fascinado pelo mistério que envolvia aquelas gigantescas figuras traçadas no deserto, iniciou uma série de pesquisas sobre o tema e acreditou que se tratava de um intrincado sistema de irrigação, mas depois abandonou essa explicação e desenvolveu a tese de que as linhas de Nazca compunham um grande calendário e os desenhos seriam, portanto, sinalizações astronômicas. Uma hipótese que mais tarde foi desenvolvida pela alemã Maria Reiche que dedicou quase toda sua vida a tarefa de identificar os possíveis alinhamentos astronômicos presentes nos gigantescos desenhos no solo de Nazca. Como, além das figuras que representam animais, existem linhas e formas geométricas diversas em todas as direções, acabou conseguindo encontrar algumas relações que reforçaram suas hipóteses.

Muito tempo depois, já no final dos anos 60 e inicio dos 70 um novo movimento literário e para-científico tornou as Linhas de Nazca mundialmente conhecidas. Era a época da contra cultura. A primavera de 68 na Europa, o Festival de Woodstok e a ascensão do Rock’n Rool promoveram uma verdadeira revolução na consumista sociedade industrial do século XX. Finalmente as utopias pareciam estar de volta, a possibilidade de uma sociedade alternativa e a profunda transformação dos costumes provocada pela invenção da pílula anticoncepcional, deram origem à geração Hippie, às novas relações fundadas na idéia de paz e amor e às propostas de reencantamento do mundo como nova forma de compreensão da realidade. Repentinamente o conhecimento científico perdeu, ainda que temporariamente, a supremacia na explicação da vida na Terra e ocorreu um retorno ao misticismo e a religiosidade.

E foi nesse novo contexto que uma nova linha alternativa de interpretação dos vestígios pré-históricos se tornou muito importante e popular. Tudo começou com a publicação do livro “O despertar dos mágicos” de Louis Pauwels e Jacques Bergier, logo seguido pelo clássico “Eram os deuses astronautas?” de Erich Von Daniken e de uma infinidade de outros títulos, muitos reinterpretando os mistérios da arqueologia brasileira como “Os fenícios no Brasil” ou “A Terra Oca”. Foi um verdadeiro boom editorial e essa nova literatura fantástica deixou desdobramentos ainda presentes, como o mago Paulo Coelho, hoje um dos escritores mais lidos de todo o mundo.

A partir daí as Linhas de Nazca se tornaram notórias no mundo todo e ainda hoje se constituem num dos principais destinos turísticos do planeta, recebendo milhares de visitantes que pagam alguns bons dólares para sobrevoar (e quase invariavelmente enjoar) sobre os misteriosos desenhos do deserto vermelho de Nazca.

Além da fantasiosa interpretação de que as linhas de Nazca são um imenso aeroporto de OVNIs construído sob a orientação de ETs (que deviam ser muito confusos, dada a disposição um tanto tumultuada das linhas e desenhos de Nazca), outras interpretações igualmente fantasiosas também foram elaboradas desde então. Enquanto alguns defendem que as linhas eram campos de corrida a pé de povos pré-históricos, outro bando de malucos recentemente desenvolveu a teoria que o povo Nazca teria feito um balão pra sobrevoar e observar as linhas (chegando mesmo a reproduzir o tal balão a partir de um desenho de um antigo vaso cerâmico).

Ou seja, as linhas de Nazca são de tal modo difíceis de serem coerentemente interpretadas (mesmo já tendo ocorrido mais de setenta anos de pesquisas), que cada um projeta sobre elas aquilo com que sonham. Afinal de contas não é assim o ser humano? Tem uma necessidade imensa de explicar tudo e para aquelas coisas que não tem explicação, projeta seus próprios sonhos e expectativas para gerar interpretações que acalmem nossos corações famintos por dominar a realidade circundante.

E agora vocês podem perguntar: mas o que isso tudo em a ver com o Acre mesmo? Eu também gostaria de saber. Foi por isso que inventei a historinha da semana passada. Pra mostrar que se o problema é só imaginação, tudo é possível. Basta projetar nossos sonhos como explicação ultima da realidade, tal como o personagem Tiawa da ficção. Porém no mundo da ciência isso não é possível.

Assim, foi com muita surpresa que encarei inicialmente a relação forçada entre os sítios com estruturas de terra do Acre com os “geoglífos” de Nazca (pois é assim que esses últimos vêm sendo tratados ultimamente). Parecia mesmo que se tratava apenas de uma forma de divulgar a ocorrência de nossos sítios geométricos e assim potencializar sua exploração turística. Mas com o tempo ficou muito evidente que não era só isso que estava em questão.

Na verdade tratar dos sítios acreanos como geoglífos é uma estratégia estabelecida para realçar a possível importância de seu divulgador. O que vem acarretando inúmeros desvios e falsas interpretações de caráter aparentemente científico, mas que ocultam o intenso desejo de projetar sobre esses sítios sonhos mistificadores. A partir de então não pude mais concordar com o descaminho adotado, especialmente porque ele leva mais à falsas ilusões do que a um conhecimento consistente e coerente

Portanto, é preciso afirmar com clareza:

1 - Os geoglífos de Nazca não têm nenhuma (nenhuma mesmo) relação com os sítios geométricos do Acre (nem cultural, nem pré-histórica, nem geográfica ou cronológica) e qualquer abordagem nesse sentido é uma grande forçação de barra, sendo, portanto, totalmente inadequado chamar nossos sítios de geoglífos;

2 - Classificar os sítios acreanos como um grande mistério a ser desvendado é apenas uma jogada de marketing, mas muito grave em seu aspecto ético, na medida em que tenta jogar fora trinta anos de sérias pesquisas que têm sido realizadas sobre eles;

3 - Os sítios geométricos do Acre não precisam ser observados de avião para serem compreendidos, sendo muito mais monumentais quando os vemos ao nível do chão (como faziam seus construtores pré-históricos), tanto que foram “descobertos” por Ondemar Dias em 1977 sem o auxilio de aviões, e a recorrência dessa abordagem mais uma vez visa apenas promover seus proponentes;

4 – A insistência em divulgar uma abordagem distorcida e para-científica (ou fantástica) é um des-serviço à rica e importante história e arqueologia do Acre;

5 – Projetar sobre os sítios arqueológicos nossos próprios sonhos e expectativas não é ciência, mas ficção.

É por esse conjunto de motivos (aos quais seria possível somar ainda outros, mas que por falta de espaço devem aguardar nova ocasião) que tenho me dedicado a debater esse tema, para evitar que a sociedade acreana compre gato por lebre e continue sendo iludida por uma divulgação evidentemente fantasiosa e perigosa. De qualquer modo na semana que vem vamos ver que não é só a ficção que projeta sonhos e delírios, mas que às vezes a própria ciência pode também se desviar e acabar por perigosamente fazê-lo.

 

 
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Rio Branco-AC, 26 de agosto de 2007
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