OPINIÃO
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Maria Regina Canhos Vicentin *

 

“Qualquer coisinha”

Há alguns meses atrás vieram me procurar perguntando se eu faria uma palestra a um grupo de crismandos. Confesso que não me sinto muito à vontade para falar aos adolescentes, principalmente se o grupo é grande, pois não tenho o costume de gritar, e parece que vários alunos simplesmente não silenciam para ouvir o que o outro tem a dizer. Então, uma das coisas que expliquei ao solicitante é que falava sem erguer a voz. Exigir silêncio não é uma de minhas funções. Sendo convidada a falar pressuponho que desejam me ouvir. Falar para quem não mostra atenção equivale à pura perda de tempo.

Feitas essas considerações iniciais, indaguei acerca do tema de interesse, ou seja, o motivo da procura. Como resposta eu tive: Você pode falar “qualquer coisinha” que já está bom! Nossa; ouvir aquilo foi como tomar um soco na cara. Eu não conseguia acreditar que alguém estava ligando na minha casa, no meu horário de folga, solicitando uma palestra para que eu fosse falar acerca de “qualquer coisinha”. Na verdade, tal solicitação que é bastante comum no meio religioso católico, causa-me profunda indignação. Se é para falar “qualquer coisinha” porque o solicitante mesmo não o faz? Pra que ir em busca de um profissional que terá de deixar sua família, seu trabalho, e muitas vezes seu dia de lazer (pois várias dessas palestras acontecem aos sábados e domingos) somente para que ele diga “qualquer coisinha”?

Mas nesse caso, a situação foi ainda mais longe. Depois de combinado o assunto meses antes, pois realmente não me disponho a falar “qualquer coisinha”, o solicitante liga faltando quatro dias para a palestra comunicando a alteração do tema, pois numa reunião da coordenação ficou acertado que outro assunto seria mais interessante e que, portanto, eu deveria mudar o conteúdo da preleção, já que todos os convites haviam sido enviados com esse novo tema, inclusive solicitando que as mães dos alunos comparecessem também.

Eu imagino que para quem tem a idéia de que “qualquer coisinha” serve, fica fácil imaginar um profissional conciliar seus horários de exaustivo trabalho e, em cima da hora, elaborar uma modificação de conteúdo, afinal, “qualquer coisinha” não é nada de complicado. Obviamente, se algo sair errado não é a imagem do solicitante que está em jogo. Ele normalmente costuma ficar bem tranqüilo, passando toda a responsabilidade para o expositor que acabou sendo envolvido pela situação.

Você que lê este artigo perdoe o meu desabafo. Talvez fosse interessante espalhar entre seus conhecidos que qualquer um pode falar acerca de “qualquer coisinha”. Não há necessidade de convidar um profissional para isso. Um profissional costuma trabalhar o assunto que vai ser falado. Ele pesquisa sobre o tema, elabora esquemas e dinâmicas, propõe questionamentos, procura inserir o ouvinte no contexto do que está sendo dito, adequa a linguagem de acordo com a idade e a formação escolar do público-alvo. Muito mais até costuma ser feito. Mudar o tema de uma exposição e comunicar isso ao palestrante quatro dias antes do evento é um tremendo desrespeito. É realmente querer desmerecer o trabalho do outro. É passar a idéia de que o profissional também é “qualquer coisinha” prestando-se apenas a preencher uma lacuna neste nosso vasto mundo cheio de omissões.

* É psicóloga e escritora. Conheça o site da autora: www.meguia.net/buscandoafelicidade.

 
 
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Rio Branco-AC, 26 de agosto de 2007
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