| COTIDIANO | |
O feijão nosso de cada dia Dezenas de variedades de cereal nativas ou adaptadas ao Acre podem ajudar no combate à fome |
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Sabor bem brasileiro? Nem tanto. Sabor mais acreano? Talvez. O cheiro de terra molhada em momento que a chuva principia, o sabor de ferro adocicado temperado a alho, sal acrescidos de pimenta ou chicória, conforme o gosto, ele vai pra panela com caldo, engrossado, em farofa ou baião de dois, pois feijão é, com certeza, preferência nacional. Ao longo de muitos anos, agrônomos e especialistas na área têm se dedicado em trazer para o Acre variedades de feijão para que se adaptem à região e tem fracassado. Gerando assim um problema social, pois levam com suas experiências malfadadas, dias de trabalho e até mesmo as esperanças dos agricultores que sem ter melhor opção de renda pecuarizam seu pensar sem que tenham área suficiente para isso. Caboclas de valor Ainda influenciada pela cultura indígena em que os homens derrubam e são as mulheres que cuidam dos roçados, em nossas colônias são elas que vêm preservando nossas sementes tradicionais de milhos, amendoins, batatas, bananas, feijões, algodões e muito mais. São essas sementes caboclas cuidadas por suas irmãs, igualmente crioulas e desrespeitadas pelos especialistas da tecnologia, é que estão perfeitamente adaptadas ao Acre, garantindo há mais de cem anos o feijão de cada dia. Depois de trabalhar 30 anos na seringa, mais 15 batendo tijolo na olaria, Humberto Gomes da Silva, do alto de seus 69 anos e 14 filhos criados, tem passado estes últimos oito anos em sua banca no mercado do Samambaia, em Cruzeiro do Sul. Ali teve tempo para refletir e fazer uma reavaliação da vida e, assim sem ver nem pra quê, não entende o descuido de toda essa gente sabida, para com as sementes da região. Lembra como se fosse ontem, dos verões em que fazia na praia roçado plantado de milho, macaxeira, batata, legumes pra todo gosto e feijão de toda cor. No inverno forte, ainda com o “chuvaral” de fevereiro, semeava a lanço sementes na mata que acabava de derrubar em terra firme preparando colheita pro início do verão. Era assim nessa batida que nunca faltava comida nas panelas do fogão. “Toda lavoura é boa, mas aqui no Juruá a que mais me faz gosto é o feijão da região. Pela minha banca passa pelo menos 14 qualidades todo ano, tem pra todo gosto e preparo, cada um na sua especialidade. Plantei muito feijão na praia e em terra firme antes de deixar a colônia, porque a gente cansa de trabalhar desprezado, magoa”, confessa sem rancor, mas com uma tristeza que não pode expressar com palavras. Preferência popular Prático no plantio e no comércio, Humberto declara que: “Todo feijão é bom, mas o peruano vermelho e o enxofre são os mais perseguidos pelo povo, eles gostam muito mesmo. Mas aos poucos a produção vem caindo, o povo se mudou pra cidade e quem está na roça só quer cuidar do gado, alguns nem plantam nada outros, só pro gasto”. O lamento do ex-seringueiro e agricultor deixa transparecer uma preocupação ainda pouco clara com o desaparecimento gradativo das variedades caboclas regionais, a exemplo do que já aconteceu em outras regiões do Brasil dominadas pelas variedades comerciais, que ao contrário do que se pensa não são muito mais produtivas que as da terra e exigem muitos defensivos químicos. “O Juruá todo produz muito feijão, acho que eu nem conheço todas as qualidades, mas este enxofre e o peruano branco, que o povo tanto gosta, estão ficando cada vez mais difíceis de aparecer. Já o roxinho mineiro faz muito tempo que não vejo”, conclui num desamparo. Feijoal ensacado Na pequena banca de metro e meio, dez variedades de feijão se misturam ao açúcar gramixó, farinha, pau de fumo, temperos, biscoitos de goma e lamparina pra iluminar a noite dos que resistem semeando feijão nos roçados. Humberto explica que tem feijão de corda manteiguinha que dá com três meses e é preferido para comer em salada com tempero suave. Já o feijão enxofre é de arranca, sabor forte e encorpado dá gosto a uma pratada de arroz. Outro que o povo gosta é o feijão de corda peruano vermelho de caldo grosso, com “sustância”, como afirma o caboclo de boca cheia. O peruano branco também é de corda e com caldo igualmente grosso, mas claro, bom pra quem tem os estômago mais delicado. Arigó, assim como eram chamados os seringueiros que chegavam ao Acre, é feijão forte, aqueles do caldo roxo, bom de todo jeito e pra toda gente. Há o gurgutuba branco que também é de corda, produz no roçado, mas gosta mesmo é da praia. Como a família é grande ainda tem o gurgutuba vermelho, os dois muito bons de se comer, mas pelo tamanho avantajado, são popularmente conhecidos como “arromba homem”. O carioquinha veio de fora, sofre com a umidade, mas no verão dá bem. Novidade mesmo, é o feijão preto de corda, dele se faz feijoada, mas é do gosto ribeirinho comer com peixe do sal. Lembrando o amendoim, tem ainda o feijão mudubim de rama (corda) e o mudubim de vara, o primeiro da praia e o segundo do roçado, mas os dois de bom sabor que agrada todo freguês. |
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