COTIDIANO

Sete anos de lutas e conquistas

Projeto S.O.S. Tracajás e Iaçás comemora nova fase em mais um show da vida e atrai estudantes em aulas de campo

Cedida
Equipes do Imac e da Sema colaboram com voluntários do Projeto S.O.S. Tracajás e Iaçás


Andréa Zílio

Em meio à floresta, em um lugar onde a fauna e a flora se apresentam sem restrições, há sete anos está instalada a base do projeto S.O.S Tracajás e Iaçás, onde homens persistem na luta pela sobrevivência de animais que sempre povoaram os leitos dos rios da Amazônia, mas se tornaram alvos da caça predatória.

É na Reserva Extrativista Porto Dias, situada no município de Acrelândia, que o sonho de um grupo de quartoze pessoas virou ideal, e hoje se mantêm com a persistência dos irmãos Abrãao e Roberto Libidi Kerdy, e a essencial ajuda de voluntários e do Governo do Estado do Acre.

Desde 2000 junto ao projeto, e fortalecendo ainda a iniciativa e parceria, o governador Jorge Viana colocou a frente do S.O.S Tracajás e Iaças, a Secretaria de Meio Ambiente do Acre (Sema) e o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), que neste ano, trabalham junto aos voluntários com uma estrutura que tem permitido um aumento na coleta de ovos, colocando o projeto novamente entre os bem sucedidos da Amazônia.

Mais que isso, o projeto, localizado no rio Abunã, tem ganhado outros focos que vai além da preservação. Com a visita de estudantes, principalmente, da Escola da Floresta, a iniciativa tem se inovado com mais dois eixos: o eco-pedagógico, em que alunos vão a campo aprender mais, e o ecoturismo, que tem atraído pesquisadores e estudantes para a área, rica em beleza natural e com grande valor na luta pelo meio ambiente.

O S.O.S Tracajás e Iaças provocou também mudanças não só na vida dos que atuam nele, mas da própria população ribeirinha, que se permitiu a uma mudança cultural e hoje defende o objetivo da iniciativa, que tem o intuito de repovoar os leitos dos rios de Acrelândia, Plácido de Castro, Extrema, Califórnia, e das áreas de Pando e Beni, na Bolívia.

A ousadia vai além, pois na visão de perspectiva do próprio governador Jorge Viana, o projeto tem tudo para crescer, e repovoar outros rios do Acre. Força de vontade não falta aos voluntários, entre eles, Rogério Silva de Lima, 20, que é o mais antigo depois dos fundadores irmão Libidi, com quatro anos de atuação no projeto. Ele repassa o otimismo aos novatos.

Com a forte atuação da Sema e Imac, os integrantes do projeto estão bastantes otimistas para o resultado do trabalho deste ano, em que conseguiram coletar mais de 15 mil ovos, e visam melhores resultados em 2007.

O secretário de Meio Ambiente e presidente do Imac, Carlos Edegard de Deus, diz que o projeto é um grande exemplo na Amazônia, com pessoas que realmente lutam pela conservação do meio ambiente, e que abraçar esta causa é reconhecer este esforço coletivo de dedicação e muito trabalho.

Reforço no trabalho – Faça chuva ou faça sol, a rotina de trabalho na base do projeto não muda, e o trabalho dos homens é definido pelo processo da natureza com os tracajás e iaças. Durante a coleta, são 45 dias de atividade com início às 3 da manhã, em 280 praias. Com o término em setembro, os ovos são depositados nas covas naturais, na praia base, vigiada dia e noite de uma guarita. Covas artificiais, na própria base do projeto também recebem ovos. Todo o trabalho é uma forma de vencer os predadores.

Mais não pára por aí, em novembro, o grande espetáculo da eclosão acontece, e os tracajás e iaças saem dos ovos. Somente no fim de janeiro ou em fevereiro é que são repostos no habitat natural. Todo este trabalho exige além do esforço físico, uma estrutura de voadeiras, motores e combustíveis.

Dionísio Soares, técnico, que atua por meio da Sema e Imac, junto ao projeto, diz que o trabalho de estruturação está sendo fortalecido pelo Governo neste momento em que estão se reorganizando.

Novos focos - Na fase de reorganização, o Governo do Estado procura a valorização maior do projeto com os eixos eco-pedagógicos e ecoturístico. Na semana passada cerca de 30 alunos visitaram o lugar. Segundo Dionísio, essas visitas serão organizadas, para que não prejudique o trabalho da coordenação de campo.

Os estudantes do curso de técnico Florestal, visitaram a base e a praia com tabuleiros naturais do projeto. Um dos mediadores da turma, Flávio Quintal, diz que a atividade permite que os alunos vivenciem na prática o manejo de fauna e a preservação dos recursos naturais.

A estudante Lívia Costa, 22, assim como os demais estudantes, diz ter gostado muito da experiência vivida, e fez questão de registrar um dos momentos inesquecíveis, que foi a visita à grande samaúma, árvore que foi abraçada por todos os estudantes em uma corrente humana. “Participar, mesmo que por um dia, de um projeto como esse, é muito gratificante e enriquecedor ao nosso aprendizado”, diz.

Multiplicando ideal – Abraão e Roberto não medem esforços para manter o S.O.S Tracajás e Iaças, e não se cansam de agradecer os que ajudam para o projeto se manter. “Cada rapaz que vem pra cá como voluntário, o Governo do Estado, são responsáveis, e fundamentais para continuarmos com este trabalho, sozinhos não faríamos muito”, explicam os irmãos Libidi.

Acostumado a coletar ovos para consumo da família e ainda fazer agrado aos amigos, Alfredo Correia da Cunha, 52, é agora, conhecido como Fátimo, se tornou um dos grandes incentivadores do projeto. Só neste ano coletou na praia em frente a sua casa, mais de 1 mil ovos, que fez questão de levar para a base.

Hoje, o S.O.S Tracajás e Iaças conta com a atuação de sete pessoas – Roberto e Abraão, Marcelo, Rogério Lima, Rogério do Nascimento, Edízio Marcos, Ecivaldo Norte do Nascimento.

Veteranos e novatos se unem e vivem isolados, em meio à floresta, com a crença de que o trabalho que realizam faz a diferença na área em que atuam, e com a esperança de que essa iniciativa possa ser multiplicada.

Um projeto com homens que não só se preocupam com o lugar em que vivem, mas também se unem para fazer a diferença.

 

 
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