ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

“Sócios” informais

O jornalista Altino Machado me apresentou esta semana como “sócio” (assim, entre aspas) do seu blog. Presumo que o parceiro reclama, com alguma ironia, do fato de eu aproveitar em Almanacre matérias que ele recebe de colaboradores do Acre efervescente que admiramos. São histórias boas de contar, ler, reproduzir... Vai daí, em vez de ofensa, considerei promoção. Afinal, eu vinha sendo identificado como “colaborador” - o que tenho sido de verdade desde o nascimento do seu blog.

Eu e Altino atuamos na imprensa acreana faz um bom tempo. Mais novo que eu, ele foi repórter do jornal A Gazeta do Acre (hoje Gazeta) e da TV Aldeia quando eu era diretor. Já nos anos noventa ele me substituiu como correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo”, função que exerci de 1975 a 1983. De 2000 para cá tentamos fazer algo juntos uma pá de vezes, mas os ventos sopravam para outro lado. Ele então amarrou a mula no blog e eu me tornei colaborador incerto.

Altino é repórter e editor internauta entre os mais devotados. Seu blog tornou-se leitura obrigatória para quem quer saber notícias do Acre de forma atraente, ágil e às vezes instigantes. Digo que ele encontrou seu estilo. Para mim, porém, a informação eletrônica não anula a impressa - diria até que não tem o mesmo charme, pelo menos para os não apressados como eu. Refiro-me mais à forma que ao conteúdo, e confesso que para ler alguns artigos longos que encontro na rede eletrônica, eu tiro cópias para ler na minha rede, de fios de algodão.

Mas reconheço que na internet - mais que em qualquer outro meio - tem um maior número de pessoas falando as coisas com estilo leve e solto e sem autocensura. O blog do Altino é um exemplo: por sua competência e por acolher colaboradores que o enriquecem. E, o que é melhor: de graça! Acho um luxo você poder publicar textos de pessoas como Glória Perez, Leila Jalul, Mario Lima, Alceu Ranzi, Terri Aquino, Mary Allegretti, entre outros, todos com muita qualidade... Por isso tenho feito esforço para gastar menos dinheiro com cartuchos de tinta para minha impressora.

Quanto ao meu vício de fazer jornal impresso, não tem cura: há cerca de oito semanas, lancei Almanacre, que sai aos domingos procurando sondar a alma do Acre. Por enquanto é apenas uma página impressa, mas sonho com algo maior no futuro. E quero fazer esse trabalho a quatro, cinco, incontáveis mãos, coletivamente. Por isso cato histórias no blog do Altino, nos arquivos do Océlio Medeiros, nos meus alfarrábios, citando a fonte.

A propósito, quarta-feira eu telefonei à Leila Jalul pedindo para publicar seus textos no Almanacre (fiz o mesmo com a Glória Perez recentemente). A Leila, companheira das guerras noturnas do bar Jirau nos anos setenta e, provavelmente, dos serenos do clube Rio Branco em meado dos anos cinqüenta, assentiu logo, cheia de ânimo. Mas recomendou: “Rapaz, pede pro Altino te passar uma crônica que mandei pra ele ontem! O título é Notre École, sobre o Colégio Acreano”.

E lá fui eu perturbar o “sócio” novamente.

Notre École

Leila Jalul

Notre école [Colégio Acreano] est située a la rue Benjamin Constant... Nous alons a table... Tinha que estar tudo très jolie, na ponta de nossas línguas. E a gente carregava aquela porrada de livros, textos de francês, latim, português e, de lambuja, um tal de Ary Quintela, pequeno e pesado. Era o de matemática. Um terror! Nossos professores, todos gente fina. Dona Luluz, a tradução literal da palavra simpatia. Era meio doidinha, a bem da verdade. Talvez a razão de tanta simpatia. Ela ainda é viva. Caçamba. Tá virando cobra-grande. Ainda toca piano e, para indignação, ainda viaja para a Europa sozinha. Não é doida, mesmo?

O professor Rufino, a cara do Aluízio de Azevedo, de “O Cortiço”. Um dos negros mais bonitos que o raio de sol cobriu. Figura bonita e esquisita. Garboso, elegante e, para que se lhe acrescente maior aura, extremamente reservado. Solteiro? Descasado? Assexuado? Come-quieto? Homossexual? Ninguém tinha nada a ver com isso. Ele passava por cima dos mortais com galhardia, como se caminhasse sobre nuvens. Não perdoava erros, não acrecentava décimos nem quartos de décimos, nem de milésimos para que qualquer de seus discípulos passasse de um ano para o outro sem fazer força.

Marcos Vicentti
Colégio Acreano foi construído em 1933 e restaurado em 2005

Sobrava para a gente, que tinha que ficar calada e sem resmungos, acordar às quatro da madrugada e estudar. Pior ainda, tinha que fazer o trajeto declinando: Regina, Reginae, Reginae, prima da Rosa, Rosae, Rosae, vocês são todas cretinas! Tinha que ler as catilinárias. Doideira. Prá que tudo isso?

Saía o de latim, o meu Rufino, não sem antes deixar o eco do “persona tragicam forte vulpes viderat”, entrava a de francês, minha mimosa Luluz. “J’ai cassé le dó da ma clarinete, j’ai cassé le dó de ma clarinete. Ah! se papa il savait, trá, lá, lá! Il dirait, il chantrait. Opá camarade, opá, opá, opá”.

Mas o que me calava fundo, muito fundo, fundo mesmo, e me embargava, dava nó nas tripas e engasgo, era quando a gente se arrumava feito garrafas de coca-cola em prateleiras de supermercado para cantar La Marseillaise. Coisa bonita, se faz devagar, sem pressa, diz Keilah Diniz. E a do canto orfeônico? Seria a Dona Selva, por acaso? Não consigo lembrar.

Aquilo parecia harmonia brotando do chão. Juro. Tudo com regência. Compasso binário, compasso quaternário e terciário, se coubesse. Um, dois, três. “Meus sinos, queridos sinos...” E as duas mãos alvas, com os indicadores ligados aos polegares, mais pareciam o bailar de dois pequenos barcos. Os textos de português eram coisa pra maluco nenhum botar defeito. A mulher do sino de ouro... Doem minhas costas só de lembrar o tanto de moedas que a velha doidona escondeu debaixo do colchão para construir seu sonho de consumo.

Os desenhos geométricos, Santo Deus, aquele montão de gregas pintadas em degradé, com lápis de cor da Johann Faber, comprados na papelaria do seu Anastácio. A gente sabia ler, escrever e falar. Sabia, através da professora de trabalhos manuais, a fazer rendas de tenerife. A ninguém era negado o sagrado e inútil direito de saber que a tangente de um ângulo de quarenta e cinco graus é igual a um.

Valem agora, só de pirraça, alguns parágrafos sobre duas inspetoras da notre école. Elevadas ao cubo e vistas em 3D, nunca vi gentinha mais amarga do que aquelas criaturas:Dona Nair e Dona Vanda Gaston. E, de troco, ainda tinha uma filha e neta - a Teresa.

Puta que pariu! Que destino infame. Elas me marcavam de perto. Estava no banheiro, lá vinha uma; estava no corredor, lá vinha a outra. Não tinha um só minuto de trégua. Para minha infelicidade, o caminho das duas (das três, para ser mais exata), necessariamente, tinha que ser pela frente da loja do meu avô. Bastava eu chegar e minha mãe, mais histérica e paranóica do que a Neuzinha Brizola, descia o malho. Eu apanhava, apanhava tanto, tanto, bem mais do que um manequim de sapateiro. Isso tudo acontecia baseado no princípio de que uma laranja podre arrebenta com o pomar. A boa educação das minhas irmãs mais velhas, duas moscas mortas e obedientes, não podia ser contaminada por causa das ações de uma delinqüente juvenil.

Ah! Tinha volta. Tinha. E como tinha. Todas, todas, sem exceção de nenhuma das pornografias escritas na parte interna das portas dos banheiros da notre école, foram de minha lavra. E não me arrependo. Desenhos de piriquitos em forma triangular e frases indecorosas, tudo eu. Tudo eu. Tudo eu. “A Dona Nair é puta”. “Dona Vanda é puta”. “E a Tereza, se ainda não é, vai ser”. A gente tinha que aprender de tudo, principalmente a se defender. Do que valeria eu saber que a tangente de um ângulo de 45 graus é igual a um e continuar apanhando? Valeria a pena?

P.S.: Os erros de grafia de qualquer das línguas aqui expostas são de minha inteira responsabilidade. Não tenho nem mordomo, nem datilógrafo. Tudo eu, tudo eu, tudo eu. Se isso vier a virar qualquer coisa, cuidarei da revisão. Por enquanto, estou na esfera do coloquial. E tenho dito.

* Leila Jalul é procuradora aposentada da Universidade Federal do Acre, poeta e cronista.

DivulgaçãoPadre José na Globo

O ator Antônio Calloni (foto) interpreta o Padre José na mini-série “Amazônia- de Galvez a Chico Mendes” produzida no Acre pela TV Globo com direção da novelista acreana Glória Perez. Ela escreveu em seu blog “Amazônia”:

“Padre José é uma figura querida e lembrada por todos os acreanos. Andava pelos seringais fazendo desobrigas, batizando, casando, medicando os seringueiros. Sempre com a batina por cima do macacão e a espingarda nas costas. Desbocado, irreverente, humano, gostava de caçar, pescar, e contar histórias. Quem nao se lembra das “mentiras” do padre José”?

No Acre todo mundo lembra. Mas lembra também que ele foi amigo dos fazendeiros e seringalistas e inimigo dos sindicatos dos trabalhadores rurais que lutavam para impedir a devastação da floresta acreana.

 
 
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Rio Branco-AC, 26 de novembro de 2006