| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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Memórias do arco da velha Esse tal professor Pompeu de Adélia nasceu em Adélia, ainda no século passado, num sertão não sei de onde. Em menino, freqüentou um colégio católico tido como excelente, à época. A mãe era cearense e o pai, pior. Ela nasceu no Baturité, lugar de fartura, muito verde e água em abundância. Ele veio ao mundo nas areias e sob o sol causticante da Meruóca, lá onde lagarto morre de sede. Aqui chegados, viveram por décadas em Xapuri, terra onde plantaram filhos, tiveram árvores e não escreveram livro algum. Em adulto, já aí pelos dezenove, Pompeu, pai, mãe e irmãos se mudaram para a capital, Rio Branco, naquele tempo ainda uma cidade bem pequena. Fez curso superior, tornou-se funcionário público federal e, para complementação dos custos da vida noturna, ainda em solteiro, passou a dar aulas de Português num certo liceu da nossa Avenida Getúlio Vargas, antes denominado Escola Normal, bem à moda dos antigos. Pompeu de Adélia não era o que se pode dizer um homem bonito. Era, sim, tido como atraente. Os camaradas o diziam boçal. A moças, charmoso. Apesar do usufruto nada parcimonioso da energia vital, muito próprio dos notívagos, era aplicado no que fazia, segundo a opinião de grande parte dos inimigos que contabilizou vida afora. Ademais, tinha uma marca registrada na testa: ranzinza e enjoado. Viveu e conviveu com as peripécias próprias de salas-de-aula onde alguns se esforçam e os demais apenas esperam a hora da farra. Todos são alunos. Pouquíssimos são estudantes (que realmente estudam). De certa feita, aí pelos fins do século passado, aplicava prova que versava sobre as indigestas orações subordinadas. A sala, um mimo! As cadeiras, caprichosamente organizadas em seis filas de modo a que a parte do fundo da sala ficasse livre para o mestre transitar à vontade e apreciar, por trás, o incauto que ousasse se mexer com intenções corruptas... E tudo ia muito bem, conforme transcorrera nos últimos vinte e três anos, afora algum transtorno sem maior gravidade... Foi aí que Clareana Machado ergueu o braço e fez sinal para que o grande Pompeu se aproximasse, o que não era comum na hora da aplicação de exames tão sérios. E lá foi o velho mestre. Indagado sobre uma certa dúvida, ele, entre gentil e até solícito, atendeu a moça. E saiu... Mas, a dois passos, repentinamente, se virou e flagrou a moça em delito vergonhoso que partia do dedo médio de uma senhora casada e mãe de filhos. Foi só. Voltou a calma. Todos terminaram a tarefa espinhosa. Todavia, calculista e frio, o sisudo professor redigiu a seguinte missiva: “Senhora professora Virgília Lane, coordenadora do turno da manhã. [...] Moça muito formosa e pouco prendada, de nome Clareana de tal, do 2º G, depois de eu haver-lhe prestado gentil explicação, em momento que sequer cabia, foi extrema e bisonhamente elegante e tascou-me um “cotôco”, pelas costas; fato este depois confirmado pela meiga senhora, com um forçado pedido de desculpas não aceitas. [...] Duas sugestões: ou dar-lhe-emos canapés e refrescos, ou aplicar-lhe-emos reprimenda inesquecível e suspensão de três aulas de Português, como sejam as de segunda, terça e quarta vindouras. [...] Deste seu criado, Pompeu.” Em outra ocasião, no primeiro dia de aula, chegou um rapazola de mais ou menos uns dezessete anos. Era negro, baixinho atarracado, cara de poucos amigos e trambecava bastante, uma vez que ingerira exageradas doses da água-que-passarinho-não-bebe... E fedia muito a cachaça... Estava comemorando o fato de haver conseguido matrícula em escola tão afamada, apesar de jamais ter bebido uma dose que fosse das alcoólicas... Mas foi entrando no sacrossanto recinto onde Pompeu estava prestes a iniciar a primeira aula do ano de 1939. Chegado ao final da sala, o gajo se arrumou na última cadeira, bem no cantinho esquerdo. E foi escorregando pra baixo, é claro, até que o pescoço avantajado o fez parar, e o aprendiz de bebum dormiu... Mas não apenas dormiu, como deitou uns três quilos de feijão, arroz e não-sei-mais-lá-o-quê, em forma de vômito e, assim procedendo, deu por encerrada a aula inaugural tão cuidadosamente planejada pelo sisudo Pompeu. Ô coisa fedida!... No entanto, bom foi ver que, depois, nunca mais o Paulo Alberto repetiu tal façanha; muito pelo contrário, tornou-se o melhor aluno da sala e, anos depois, foi aprovado em concurso público para um órgão federal onde ainda hoje presta serviço. Apesar de o Marcos Afonso, livre-pensador, dizer tudo o que diz ao meu respeito, devo levar ao conhecimento de todos que só se é o melhor a partir do momento em que se morre. E pronto! * Cronista
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