| OPINIÃO | ||
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Sandra Starling * |
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| A beleza e a saúde Não se iluda o caro leitor: não vou comentar a lamentável morte daquela modelo brasileira, vítima de anorexia. Os fatos falam por si sós. O que mais choca é o contraste entre a obesidade infantil induzida – problema que, como oportunamente mostraremos, já está grassando no Brasil – e a verdadeira tragédia da mania de magreza a que as mais belas adolescentes são levadas, para buscar um lugar ao sol no mundo “fashion”. Em boa hora vemos iniciativas como a da Semana da Moda na Espanha, quando o índice de gordura corporal foi utilizado para barrar as modelos no limite dos distúrbios alimentares. Vou tratar de outro assunto que me incomoda há muito tempo. Começou a temporada de gripes, faringites, tosses e alergias em Brasília e, em especial, no Congresso Nacional. Na sala onde trabalho parece brincadeira, pois basta um começar e, logo, logo, os demais vão pegando a doença e ela atinge a todos até recomeçar com o primeiro da fila. Este ano fui eu. Comecei com uma faringite e estou de crise em crise há mais de 15 dias. Também pudera. O local de trabalho em que estou não possui uma única janela. Mais parece um mausoléu, não fossem as luzes fosforescentes, permanentemente acesas, e ar condicionado ligado no último furo o tempo todo. E a gente respirando ácaros e outros micróbios sem dó nem piedade. Para piorar, nos corredores os tapetes que orgulhosamente caracterizam, um, a Câmara dos Deputados (na cor verde) e, o outro, o Senado Federal (na cor azul). Soube, outro dia (não tenho certeza) que ambos são tombados pelo Patrimônio Histórico e jamais poderão ser substituídos por um assoalho mais adequado ao clima brasileiro. Quando eu ainda era deputada, passava tão mal nesta época do ano que, inúmeras vezes, tive de interromper discursos por conta da crise de tosse – daquelas com a coceira na garganta – e era, sempre, ajudada por quem presidia a sessão, mandado registrar como lida minha fala (que quase nunca era por escrito). Esta semana trouxe um umidificador e purificador de ar, para ver se assim driblo o problema da insalubridade do local. E aí é que vem a razão do título deste artigo: fico impressionada (mal) com a arquitetura do Oscar Niemeyer. Por fora, uma indiscutível beleza. Por dentro, um horror para a saúde de quem é obrigado a trabalhar num prédio destes. Pior ainda se você considerar que Brasília é uma das cidades mais luminosas e abertas que existem. A nós, mineiros, chega a dar certo pânico esta total ausência de montanhas a limitar o horizonte e a impedir que o sol banhe a cidade inteira . Já houve época em que eu ficava tão revoltada com essa característica das obras do arquiteto que chegava a sonhar que ele havia sido eleito parlamentar e que teria de agüentar sua própria obra. Agora, mudei meu ponto de vista, e lendo a notícia de que ele, com 98 anos de idade, casou-se com uma “jovem” de 60, passei a ter apenas a certeza de que esse casamento jamais teria sido realizado, caso ele trabalhasse em uma dessas catacumbas: é claro que ele não atingiria tamanha longevidade! De todo modo, ao formular votos de renovada felicidade para o nosso mais famoso arquiteto, registro, ainda que tardiamente, esse libelo de que ele, um comunista da cepa, preferiu a beleza do concreto à saúde dos trabalhadores e, como trabalhadora, não me conformo com isso de jeito nenhum! * Ex-deputada federal pelo PT |
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