| OPINIÃO | ||
| OPINIÃO | ||
Wânia Lília Maia Viana * |
|
|
| A experiência da balsa num país democrático – memórias de uma candidata Muitas vezes se referem à história da balsa como algo pejorativo - os perdedores. Se lembrarmos o termo “balsa” veremos que é um meio de transporte que serve para ajudar nos deslocamentos nos nossos rios amazônicos. Uma campanha política é feita de planejamento, reuniões, marketing, sol quente na cara, apoio de militantes, dias bons e dias ruins. A alegria é fundamental estar estampada no rosto e no coração. Quanto aos políticos, geralmente todos sentem que serão vencedores, ganharão as eleições. Os familiares lutam por isso, os amigos e conhecidos também. São apertos de mãos, abraços, voz rouca, suor, cansaço, comícios, cafés de casa em casa, sucos, promessas de voto, amigos sugerindo estratégias e mais estratégias, como num jogo de futebol, onde cada torcedor se acha no direito de escalar seu time, sua seleção preferida. No dia da apuração parece que os dados não são reais; espera-se que com um passe de mágica os números das urnas apareçam; afinal, quantos diziam “é um bom nome”, “torço por você”, “vai dar tudo certo”. As contas não batem com as idas e vindas pelos ramais, estradas, bairros, caminhadas. Mas como exigir do eleitor que ele cumpra o que disse e vote conforme lhe falou, se estamos numa democracia e todos têm o direito de escolher, arrepender-se, mudar, nem que seja de última hora, por diversos motivos? (Só não vale vender o voto) Às vezes, inconscientemente, tentamos fazer reinar a nossa vontade, que muitas vezes não é a do povo, ou o é, mas tem a questão de existirem muitos concorrentes, cada eleitor conhece alguém, deve respeito a um ou outro; alguém algum dia lhe deu uma palavra amiga, ajudou numa situação em que precisava de ajuda; um amigo, cabo eleitoral de um candidato, pediu-lhe voto; o plano de trabalho de um candidato é melhor do que o do outro ; o nível de compreensão política da realidade , que tem a ver com educação, diverge de pessoa a pessoa e tantos outros motivos. O fundamental é perceber que caminhamos por terra, num símbolo da esperança, durante a campanha. Andamos na balsa, flutuando sobre as águas, como reflexão da presença da democracia, que inclusive nos leva aos lugares que ainda não conseguimos, durante a campanha, chegar - ribeirinhos, a mata virgem, nossas florestas, as parteiras rurais, problemas do povo que se pode ver com a utilização da tão famosa balsa. E a nossa balsa é construída com troncos da nossa terra, das nossas matas, seguros. Outro ponto é que nesta balsa não estarão apenas candidatos de um mesmo partido. Teremos a companhia de diversos candidatos, de partidos aliados ou não. Todos com seus lanches preparados, spray anti-mosquito, lanternas, redes, demais apetrechos. E aí vejo o desafio maior – conviver com as diferenças, trocar alimentos, contar piadas, respeitar o outro. Afinal, a derrota nas urnas, para o candidato derrotado, traz tristeza, decepção, alguns se deprimem. Qual a diferença, então, de um ou outro que está na balsa? Todos têm o mesmo sentimento, a mesma pergunta – o que não deu certo? Nessa balsa podem-se levar lamentações, tristezas, dores e todas estas devem ficar enterradas, submersas no rio, para que, no retorno, só se traga nova esperança, solidariedade, alegria por se estar vivo. Inveja de quem foi vitorioso nas urnas é incompatível com a felicidade espiritual que tanto a humanidade almeja. Devem-se seguir os bons e verdadeiros exemplos. Falam sempre que campanhas, derrotas, devem ser avaliadas, para não se insistir nos mesmos erros, para se aprender com os erros e acertos. Mas nada disso tira o gosto do que se acreditava. Com Ulisses Guimarães, enquanto aguardava notícias sobre o encontro do seu corpo, com o desastre de Ayrton Sena, que nos fez ficar atônitos, acreditando que a qualquer hora ele levantaria daquele carro e tudo seria apenas um dodói, a sensação de olhar no computador e imaginar ver os votos aparecerem, como por milagre, é parecida (claro que aqui citei exemplos graves, importantíssimos para a nação brasileira). A comparação que faço é com relação à expectativa, não que a dor de uma eleição perdida seja semelhante à morte de um ente querido – nem de longe! A vida continua! Por duas eleições seguidas, uma para vereadora em 2004 e a última para deputada em 2006, fui na balsa, com outros companheiros, seres humanos também. De alegria, durante a reflexão do passeio na balsa, neste último, temos um Presidente reeleito com a força do povo (onde me incluo), um governador eleito com o resultado das promessas verdadeiras do eleitor, de que iria votar. Temos o senador, que certamente, até pessoas da oposição votaram nele, por gratidão, pois querem um Acre, um Brasil melhor. Sem falar dos nossos federais e estaduais eleitos. Da minha parte, acompanhei uma grande conquista - vi mulher, como Perpétua de Sá sendo eleita e presenciei parte de sua luta no Juruá, pedindo voto, de forma humilde, verdadeira. Temos Naluh, na luta. Temos Maria Antônia, Idalina, Antônia Sales. Aumentou a representação feminina na ALEAC. Temos também a nossa deputada federal mais votada, Perpétua Almeida. São mulheres que nos orgulham e nos fazem lembrar que a luta não foi em vão, que se ajudou a construir um processo de mudança de mentalidade. Chegaremos a um dia onde, certamente, não será necessário se estabelecer cotas para mulheres disputarem as eleições, nem para homens. Homens e mulheres lembrarão que precisam da diversidade, para promoção de leis mais justas. Por fim, volto ao termo “perdedores”. Na verdade somos, todos, independentemente de partido, vencedores, pois participamos de um processo democrático, onde as instituições fizeram o possível para promovê-lo e reclamar dele seria injusto, grotesco, pura vingança, para justificar que perdemos uma eleição. Afinal, ganhamos a luta da reafirmação da democracia. É preciso ter coragem para enfrentar uma disputa eleitoral! O esperado é que se conviva com as diferenças em prol do Acre, do Brasil, respeitando as pessoas, divergindo de pontos de vista, mas sem a pessoalidade. Ataquem-se, defendam-se idéias, não ataquem pessoas, pois estas têm pai, mãe, irmão – família e estão apenas exercendo seu direito de dizer o que pensam, desde que não firam as leis, pois aí responderão por seus atos. Parabéns a todos nós da balsa. Eu não desejo “ficar” em Manacapuru. Prefiro ficar no Acre, minha terra. Viagem só a passeio, para diversão, aprendizagem, viver. Não existe terra melhor do que a nossa! * Delegada da Delegacia da Mulher |
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |