ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Evandro/Secom
Da esquerda para a direita: Marcos Afonso, Elson Martins, Iara Bezerra, Padre Heitor Turrini, Padre Paolino Baldassari e Maurício Galvão

Amazônidas fervorosos

A equipe encarregada do site da Biblioteca da Floresta Marina Silva foi à sena Madureira quinta-feira entrevistar os padres Heitor Turrini e Paolino Baldassari, dois cidadãos do mundo que há mais de quarenta anos honram o município e todo o Acre com sua história de vida e de amor pela Amazônia e seu povo.

A conversa preliminar foi realizada com o padre Heitor na quinta à noite, no salão de refeições do Hotel de Sena,. O sacerdote de 83 anos encantou a todos com o vigor e clareza como expõe suas idéias. Por duas vezes, rindo, levantou-se e pediu desculpas a pessoas que viam televisão ao lado, porque levantara a voz e dera murros na mesa com argumentação e entusiasmo incontidos.

Na sexta-feira foi o dia inteiro de trabalho. A equipe conheceu as iniciativas sociais da Ordem dos Servos de Maria da qual os dois padres são esteios: a Fazenda Esperança (de 179 hectares) para recuperação de drogados; o centro cultural e de formação Amigos da Amazônia; e o Museu, onde está registrada a história da Paróquia, e mantidas em exposição peças de paleontologia encontradas na mata e nos rios.

Enquanto o padre Heitor servia de guia à equipe, padre Paolino cumpria sua agenda diária. Ele acorda às 4h30 para orar, entre 6 e 7 horas reza missa na Igreja, e das 7 ao meio dia atende 80 pessoas que o procuram como médico da floresta (é autor do livrinho “Medicina da Floresta – Fonte de vida”, já em segunda edição, com receitas para o tratamento de mais de 150 doenças através de ervas e folhas da floresta).

Após o almoço, Paolino costuma descansar até as 14 horas, após o que sai em visita às famílias egressas dos seringais e que enfrentam vida difícil na cidade. À noite, mantém um programa de rádio com mensagens religiosas e sociais.

Na sexta-feira a equipe da biblioteca quebrou a rotina dos religiosos, mas eles foram atenciosos o tempo todo, com energia surpreendente. Ambos são italianos, de famílias pobres que sofreram os horrores da Segunda Guerra Mundial. Heitor Turrini nasceu na Vila Montesi, a sete quilômetros do Monte Castelo onde pracinhas brasileiros morreram combatendo as tropas de Hitler. Os americanos bombardearam a região matando militares e civis. Heitor escapou porque estava no seminário há 350 quilômetros do local.

Paolino Baldassari era filha de pedreiro e de mãe que trabalhava na roça. Acompanhando o pai, virou ajudante de pedreiro e não gostava de estudar. Era tão ruim em matemática que, numa única aula, levou 70 tabefes do professor por não responder corretamente a tabuada. Depois da guerra e sobretudo no Brasil, ele se tornou aluno aplicado, formando-se em Teologia e aprendendo vários idiomas.

Heitor e Paolino são amigos há 50 anos. Vieram juntos para o Brasil num avião da Alitália, por iniciativa do primeiro que conseguiu passagens de graça. A proeza se repetiu na viagem para a Amazônia e custou a Heitor dois dias de carona num caminhão até o Rio de Janeiro, para pedir as passagens ao dono da empresa Cruzeiro do Sul (hoje Varig).

A aventura deles no Acre compõe uma história comum apenas na vida dos santos da Igreja. E ainda não terminou. Aos 83 anos, Heitor e Paolino permanecem a postos contra as políticas que colocam a Amazônia em risco. Atualmente, tecem elogios ao Governo da Floresta e reconhecem boas ações de lideranças políticas como os irmãos Jorge e Tião Viana, a senadora Marina Silva e o governador Binho Marques.

Entretanto, exibem língua afiada contra o manejo florestal madeireiro e contra discursos ambientalistas que não encontram eco na floresta. Os dois que conhecem a mata e os rios como a palma da mão e convivem com seus habitantes há décadas, estão apreensivos com o fosso que se amplia entre a teoria e a prática na Amazônia.

Por essa razão, defendem como medida preventiva suspensão total do desmatamento pelo período de 10 anos, para que a sociedade tenha tempo de conhecer a Amazônia, social e cientificamente, para explorá-la de forma sustentável.

(Nota: a reportagem da Biblioteca teve apoio da TV Aldeia e da Secretaria de Comunicação do Estado. Será editada e disponibilizada na íntegra, brevemente, no site: bibliotecadafloresta@ac.gov.br; certamente, terá trechos exibidos pela TV Aldeia.)

CORREIO

Cleusa Saeko
Albecir com o pai Pedro, em São Paulo

Amor voluntário

A voluntária Cleusa Saeko, que trabalha na Casa de Apoio à Criança com Câncer em São Paulo, pede ajuda para localizar o índio kaxinawá Pedro, cujo filho Abecir morreu naquela unidade. Pedro acompanhou o filho doente até São Paulo e retornou deixando como endereço, apenas, “beira do rio Tarauacá”. Saeko deu atenção especial a Abecir que, entretanto, não resistiu à doença. Agora ela precisa avisar ao pai que o filho morreu.

Em duas cartas que enviou a esta coluna Saeko revela-se desolada com a morte do pequeno índio. Numa delas mandou três fotos e um calendário com Abecir, dizendo que mata saudade vendo um vídeo que produziu durante a permanência dos dois na casa de saúde paulista.

Telefones para contato com Cleusa Saeko: (011) 6956 7858 ou (011) 9677 4140. As fotos e o calendário estão comigo, e também quero localizar o Pedro para entregar essa lembrança do Abecir.

Yasmin Martins
Momento da criação do clube de cinema

Clube de Cinema

Um grupo de pessoas acaba de fundar o clube de cinema Cinemacre. A entidade é independente, mas foi acolhida pela biblioteca que ofereceu seu auditório para exibições quinzenais de filmes. A parceria pode ir mais longe, como disponibilizar livros sobre cultura cinematográfica para os sócios e não sócios. Os associados pagarão 10 reais por mês podendo pegar filmes bons para ver em casa, de graça.

A antropóloga Marylin Lira foi escolhida presidente da diretoria provisória do Cinemacre. E o jornalista Mauricio Galvão, webdesigner da biblioteca, ficou encarregado de desenhar o logotipo e atender pessoas interessadas em associar-se, pelo fone 3223 9939.

Sena Madureira

Elson:

Quero te dizer que viagens como essa - a Sena Madureira - me fazem refletir muito sobre o nosso papel, e a necessidade de atualizar nossas lutas. E é impressionante que muito da contemporanização está nas propostas da “tradição”. Ontem, o Sílvio Martinello escrevia sobre a necessidade da moratória na floresta, no exato instante em que os fazendeiros tocam fogo na Amazônia em pleno inverno (eles são espertos!).

Abraço,
Marcos Afonso

 
 
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Rio Branco-AC, 27 de janeiro de 2008
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