| COTIDIANO | |
O Charles Chaplin brasileiro Lambada é marceneiro. Constrói cenário, esculpe em madeira, dança e atua. Tudo com muito bom humor |
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Depois da vida no seringal, onde não podia ouvir o som da sanfona que começava a dançar, ele embalou ainda mais o corpo como dançarino, inclusive, ganhou vários concursos. Aprendeu a esculpir em madeira, daí foi fácil criar e copiar cenários para os palcos, sejam eles quais forem. Perto dos holofotes, encenar foi uma conseqüência em sua vida pela facilidade em decorar textos ao ouvir a leitura feita por outras pessoas. “Lambada” ainda não sabe ler, mas isso não o impede de interpretar qualquer personagem quando sua esposa está por perto. Lúcia Silva, que ajuda fazendo a leitura. Ela garante que nem precisa repetir muito. “Fico fascinada como ele tem facilidade em decorar os textos, como cria as coisas”, comenta Lúcia, que hoje graças ao marido também atua. O fato de ser analfabeto é algo que envergonha o artista, e com a humildade que lhe é característica, ele diz que se sente inferior aos outros quando é necessário ler. Confessa que antes, no trabalho braçal, não precisava da leitura e tinha a necessidade de ajudar a família. Esse dançarino, artista plástico, ator é na verdade marceneiro. O que também considera uma arte. Afinal, transformar a madeira em móveis não apenas copiando, mas também dando seu toque de criatividade, não é tarefa tão simples, segundo “Lambada”. “Eu acredito que todo marceneiro é um artista, ele também precisa ser criativo para criar. “, diz Lambada Ele mais parece um personagem da vida real. Alegre, solicito e criativo, “Lambada” está no teatro só há três anos. O “só” é porque ele considera pouco tempo diante de amigos que praticam a arte de encenar há mais de 10 anos. Aliás, foram os amigos, os responsáveis em enfrentar a teimosia de Lambada e convencê-lo de que ele é um artista. Ele acredita que não faz muito, mas o que realiza é com paixão e muita vontade de aprender. Dos rios para os palcos - “Lambada” nasceu em Boca do Acre. Aos 3 anos, sua mãe faleceu e ele ficou com o pai e os cinco irmãos. Desde os doze, animava as rodas de música com seus passos de dança. Para ajudar o pai, parou de estudar e passou a acompanhá-lo nas viagens pelos rios do Acre, vendendo mantimentos em troca de borracha, frutas, animais, para depois vender na cidade. Aos 17 anos, entre idas e vindas, “Lambada” decidiu ficar em definitivo na capital acreana. Trabalhando como pintor conseguiu atuar em serviços ao lado do artista plástico Péricles Silva, e se tornou seu ajudante. Com ele por perto, Lambada conheceu outros artistas e os observava trabalhar para aprender. Sozinho, começou a entalhar em madeira, suas esculturas estão espalhadas por vários cantos do Brasil. O entalho ainda é praticado quando quer presentear um amigo, nos móveis que fabrica ou quando recebe encomenda. Paixão em bailar - É devido à paixão pela dança, Dino recebeu o apelido com o qual é conhecido em Rio Branco. Os concursos que venceu foram exatamente no auge do ritmo lambada, e se tornou conhecido na cidade por dançá-lo e todos passaram a chamá-lo desta maneira. Foi na quadrilha que ele começou a encenar o seu primeiro personagem. Karla Martins, Romualdo Freitas, Pacífico, Tancredo Silva e Derivaldo Albuquerque são amigos que reconheceram o seu talento, mas só há três anos é que decidiu aceitar o convite de Regina Claudia, da Cia Garatuja para integrar o grupo de teatro. Diz ser um colaborador. Arte no palco - Sua contribuição em cenários começou na ópera Aquiry, quando Lambada confeccionou 30 armas para a apresentação em modelo boliviano e brasileiro. Outro talento revelado pela perfeição nas réplicas feitas em madeira. Logo depois fez 50 armas também em madeira em apenas 20 dias para a minissérie “Amazônia - De Galvez a Chico Mendes”, da rede Globo, onde também encenou uma vez, apesar de ter sido chamado mais vezes. “Naquele momento eu estava precisando de trabalho para ganhar dinheiro e não de aparecer na televisão. E também gosto de criar as coisas em madeira”, comenta. Hoje faz cenários para vários grupos de teatro. Um talento revelado - Foi durante o Festival de Teatro do Acre (aconteceu de 18 a 26 de janeiro), que Lambada conheceu a atriz francesa Brigite Bentolila, que o chamou de Garrincha do teatro, fazendo uma comparação ao talento do jogador de futebol, e ator gaúcho Roberto Berindelle. “Um grande presente que ganhei vindo ao Acre foi conhecer o Lambada, que é um Charles Chaplin brasileiro”, comenta o artista. Para chegar ao mundo da arte, Lambada diz que passou fome, trabalhou de graça. Ser marceneiro é a sua profissão, mas praticar teatro, dança, arte plástica é uma satisfação, principalmente quando recebe um elogio ou é aplaudido, que o faz sentir-se valorizado. Mesmo tendo desistido do banco de escola uma vez, por se sentir inferior diante dos que sabiam mais e não receber a atenção que desejava do professor, ele diz que em prol da arte precisa aprender a ler e pretende estudar para realizar o sonho de traduzir o que está escrito nos papéis que recebe para decorar e nos livros, para saber mais do mundo e das coisas. (Andréa Zílio- Agência de Notícias do Acre) | |
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